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Copyright:

O 2006 Vera Facciollo

Organizadora da obra:
Karen Gisele Facciollo

Fotos e ilustrações:
Arquivos da autora

ilustração de capa:
Stanislas Klossowski de Rola Alchimie

Direitos reservados desta edição:


Vera Facciollo

Revisão de textos:
Fabiana Silvestre

Editoração eletrônica:
Soraia Korcsik Medeiros

Projeto gráfico:
Yangi Design
(www.yangidesign.com.br)
Esta obra é dedicada a

Madame Helena Petrovna Blavatsky,


Grande Iniciada

João Regis Mendes,


Mestre Construtor e Adepto
Muito obrigada

Agradeço de coração às pessoas que trabalharam com comovente


desprendimento para a realização deste livro. À minha filha Karen Gisele,
versátil, competente e incansável colaboradora. À Dolores Ugarte, sempre
vibrante e encorajadora, verdadeira expert em missões difíceis. E a
A. J. Gevaerd, corajoso pioneiro e admirável editor, cujo empenho e
de sua equipe finalmente tornou possível esta edição.
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Índice

Capa - Contracapa

9 Introdução A Busca Secreta


13 Capítulo 01 As Origens Ocultas da Astrologia
21 Capítulo 02 A Linguagem Hermética
27 Capítulo 03 O Povo Brasileiro e seu Horóscopo
37 Capítulo 04 Astrologia e Livre-Arbítrio
53 Capítulo 05 A Músico das Esferas
65 Capítulo 06 O Romance da Alquimia
89 Capítulo 07 Segredos Alquímicos no Simbolismo
Astrológico
103 Capítulo 08 O Zodíaco Sideral Uma Novidade de
3.500 Anos
109 Capítulo 09 Fulcanelli Um Alquimista Moderno
115 Capítulo 10 A Arte da Transmutação Astrológica
125 Capítulo 11 Em Defesa da Astrologia
135 Capítulo 12 As Raças Humanas
141 Capítulo 13 Os Caminhos da Evolução
157 Capítulo 14 O Natal, o Solstício e o Simbolismo Iniciático
da Lenda de Janus
171 Síntese Bibliográfica

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Introdução

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sta é uma coletânea de palestras, conferências e aulas que proferi
em congressos, colóquios e cursos de Astrologia e Esoterismo, no
Brasil e no exterior, entre 1976 e 2006. É o resultado de pesquisas,
leituras, meditação, contatos, viagens - físicas e astrais - e
experiências pessoais que, ao longo destas três décadas,
representaram meus focos de interesse e de busca espiritual. É freqüente a
presença dos temas filosóficos ou pelo menos a abordagem filosófica de
temas que foram tratados de maneira mais técnica em congressos. Eles
seguem uma linha de pensamento que inevitavelmente se volta para o
metafísico e para o transcendente.
De qualquer modo, demandaram meses ou anos de pesquisa e estudos,
não só de Astrologia, minha área profissional, como de Alquimia, que
representa minha busca secreta desde a adolescência. Alguns temas refletem
os eventos da época: respostas a ataques sofridos pela Astrologia através da
imprensa, assim como a preocupação de esclarecer pontos de vista
enganosos expressos pela mídia. Em princípio destinados ao público em
geral, os textos aqui selecionados foram propositalmente redigidos em
linguagem acessível. Os numerosos textos revestidos de caráter mais técnico
possivelmente serão compilados para uma futura publicação.
Gostaria de agradecer o carinho de meus alunos, que há anos vêm me
incentivando à publicação das palestras em forma de artigos. Algumas delas
foram gravadas e transcritas graças à dedicação deles. São materiais que se
teriam perdido não fosse esse trabalho cuidadoso. O crédito de muitas
informações e conceitos aqui apresentados cabe ao grande astrólogo Antonio
Facciollo Neto [Mestre e esposo da autora],

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que generosamente compartilhou comigo sua rica biblioteca esotérica, assim
como suas experiências iniciáticas e os resultados de 50 anos de estudos e
pesquisas nos campos da Astrologia e do Hermetismo. Preciosas edições, há
muito tempo esgotadas, foram fontes inestimáveis de informações, incluindo
obras raras do acervo do mago e iniciado João Regis Mendes. Expresso
ainda meu reconhecimento aos colegas astrólogos, irmãos e amigos, cuja
importante contribuição veio sob a forma de textos informativos, literatura
especializada e ilustrações. Aos irmãos da Arte Real, em especial a
Fulcanelli e ao Mestre S.H., devo a inspiração e os conhecimentos
alcançados na busca da Pedra Filosofal.

São Paulo, 26 de agosto de 2006. Vera


Facciollo
Capítulo 01

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s compêndios que abordam esse tema costumam situar as origens
da Astrologia nas civilizações mesopotâmicas - hoje Iraque -
especialmente entre os caldeus, um povo que viveu na região
compreendida pelo Golfo Pérsico, Deserto Árabe e às margens do
Rio Eufrates. Cabe esclarecer que naquele tempo não havia
distinção entre Astronomia e Astrologia, já que o astrólogo era
obrigatoriamente um astrônomo, um observador do céu, e não somente um
intérprete das posições e relações entre as estrelas e os planetas.
A história conhecida dos caldeus não abrange mais do que três ou
quatro séculos. Entretanto, Cícero, em um de seus livros, afirma que os
caldeus possuíam registros das posições estelares que abarcavam um período
de 370 mil anos! Diodoro de Sícolo amplia esse período para nada menos
que 473 mil anos! E escritores como Epígenes e Critodemes atribuem aos
babilônios observações astronômicas que alcançam o extraordinário
intervalo de 490 mil a 720 mil anos! Essas observações relatam cada ciclo de
cheia do Rio Eufrates, em consonância com as posições dos planetas e
constelações, e contêm o horóscopo de cada criança nascida entre eles. Ora,
isso faz recuar um bocado a origem do próprio Homo Sapiens, muitíssimo
além do que estão dispostos a admitir nossos antropólogos, para quem a
invenção da escrita e a criação de um calendário são praticamente
impensáveis além de uns dez mil anos atrás.
Os gregos, de quem conhecemos a primeira menção de que a Terra é
redonda e gira em torno do Sol - Hiparco, Pitágoras - confessam que seus
conhecimentos científicos originais eram um tanto deficientes, e que eram
copiados de outros mais completos e mais antigos. Na verdade, os

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sábios gregos que desejassem ampliar sua cultura tinham de viajar para o
Egito. Alexandria foi, durante alguns séculos, a Meca científica da
Antigüidade. Heródoto, o próprio Pitágoras e Tales de Mileto foram
exemplo disso. A Mitologia Egípcia, que foi, em grande medida, a fonte
inspiradora da Mitologia Grega, era extremamente rica e variada. Sua
preocupação era codificar em símbolos todo o conhecimento científico,
filosófico, religioso e mágico da época. Seus monumentos, templos,
estátuas, figuras, pirâmides, túmulos, murais e pinturas são autênticos
tratados de Astronomia, Medicina, Matemática, Alquimia e Esoterismo.
Basta saber compreender e interpretá-los corretamente, o que, aliás, não é
tarefa fácil.
A Esfinge de Gizé, por exemplo, é, além de um templo onde se faziam
cerimônias de iniciação, uma síntese simbólica dos quatro elementos da
natureza, tais como utilizamos no estudo astrológico atual. Sua figura
representa os quatro signos fixos do Zodíaco, cada um pertencente a um
elemento, ou seja, a Terra, em seu corpo de Touro; o Fogo, em suas patas de
Leão; a Água, em suas Asas de Águia - o símbolo do signo de Escorpião,
quando sublima suas energias; e finalmente, em seu rosto humano mostra a
natureza do elemento Ar - signo de Aquário. É totalmente ignorada a época
de sua construção, mas estudiosos avaliaram sua idade em mais de nove mil
anos.
Há outros pontos bastante intrigantes nessa estranha e gigantesca
arquitetura egípcia. A Pirâmide de Kéops, com 149 metros de altura, possui
as arestas da base orientadas conforme os Pontos Cardeais, com uma
exatidão de centésimo de segundo! Para se ter uma idéia da proeza
arquitetônica que isso representa, basta dizer que seriam necessários
instrumentos óticos para delinear retas tão perfeitas. Nas obras da atual
engenharia, se usa o teodolito - uma pequena luneta por onde se observam à
distância os ângulos, retas e perpendiculares dos edifícios ou vias públicas.
Ora, algum arqueólogo poderia admitir que os egípcios de seis mil anos atrás
construíssem lunetas?! De resto, nossos engenheiros confessam que, apesar
das nossas técnicas modernas tão avançadas, somos absolutamente
incapazes hoje de construir uma pirâmide igual à de Kéops.

O advento de Hermes

Se existe uma figura a quem se pode realmente atribuir a paternidade


da Astrologia, é certamente Hermes Trismegisto - o Três Vezes Mestre - um
ser versado simultaneamente nas artes da Astrologia, da

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Alquimia e da Magia. São-lhe atribuídas mais de 2 mil obras, traduzidas
para o grego, talvez escritas por seus discípulos e seguidores - pertencentes,
quem sabe, a toda uma escola sacerdotal. Dentre elas, as mais famosas são a
Tábua de Esmeralda - um conjunto de citações de profundo sentido oculto,
que somente os alquimistas podem desvendar - e o Caibalion, que contém
os Sete Princípios da Natureza e explica em essência toda a lógica em que
repousa o conhecimento da Astrologia - além disso, sintetiza em apenas sete
leis todos os preceitos que regem nosso universo, sua organização e
evolução.
Supõe-se que Hermes tenha vivido no Egito no quarto milênio a.C. É
muito provável que não tenha sido apenas um homem, mas toda uma ordem
iniciática, cujos mestres englobavam uma sabedoria tal, associada a poderes
paranormais, que hoje temos dificuldade em compreender. Os egípcios
diziam que ele era uma encarnação do deus Mercúrio e o divinizaram com o
nome de Thot. Era representado por um homem com cabeça de íbis [Ave
sagrada do Egito, de bico longo e recurvo], segurando uma pena de
escrever e uma paleta de escriba - a escrita e a eloqüência são até hoje
atributos astrológicos do planeta Mercúrio. Toda uma cidade lhe foi
dedicada, Hermópolis, onde seu culto era mantido. Foi o inventor da escrita
hieroglífica e o escriba dos deuses, "o senhor da sabedoria e da magia".
Uma tradição judaica sustenta que Abrão foi seu contemporâneo,
tendo mesmo recebido de Hermes uma parte de seu conhecimento místico.
De qualquer modo, antigos papiros e estelas [Monumentos feitos de pedra,
normalmente em um só bloco, contendo representações pictóricas e
inscrições] descrevem Hermes como um deus que transmitiu ao povo do
Egito todo o conhecimento sobre o alfabeto, a linguagem, Matemática,
agricultura, música, danças, Astrologia, Alquimia e Medicina, além de
cumprir a tarefa de mensageiro de Osíris - o deus Sol – como um
representante da vontade divina na Terra, e ao mesmo tempo um fundador
da própria ordem social entre os mortais.
Os gregos "traduziram" Thot para sua própria mitologia, sob o nome
Hermes, com o qual é hoje mais conhecido, e conservaram todos os seus
atributos. As vezes, o representavam como um protetor da agricultura,
segurando um carneirinho no colo, quando então era intimamente associado
à Pan, uma divindade da natureza, meio homem, meio bode, cujo
simbolismo oculto é um tanto complicado. Essa associação Thot-Pan como
protetor e instrutor da humanidade leva à incrível semelhança de um nome

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bastante familiar a todos os brasileiros, como o grande deus indígena Tupã -
igualmente um mestre que ensinou a linguagem, a agricultura, a pesca e a
observação da Lua e das estrelas. Como se teria dado a "migração" de Thot
para o Brasil? Esse é um mistério digno de reflexão.

Um mestre na Babilônia

Beroso viveu na Caldéia no século III a.C, já durante o domínio


babilônio. Foi um sacerdote do culto de Bel e escreveu, em grego, três livros
sobre a história e a cultura da Babilônia. No primeiro, descreve a região da
Mesopotâmia e narra o surgimento do deus Oannes, meio homem, meio
peixe, que, auxiliado por outras divindades igualmente vindas do mar,
trouxe ao povo da Babilônia a civilização e os conhecimentos científicos.
Conta também a história da criação do mundo, de acordo com as lendas
locais, e inclui um relato da Astrologia e Astronomia da época. O segundo e
terceiro livros contêm uma detalhada cronologia da história da Babilônia e
da Assíria, começando com os Dez Reis Antes do Dilúvio, depois a história
do próprio dilúvio, seguida da restauração da monarquia, com a longa
linhagem dos reis após o dilúvio.
Textos acadianos escritos nos antigos caracteres cuneiformes, em
tabuinhas de barro, confirmam quase tudo que foi narrado por Beroso.
Conta-se que Beroso, já velho, foi viver numa ilha grega, Cos, onde fundou
a Escola das Ciências Secretas. Vitrúvio, sábio e famoso arquiteto e
engenheiro romano do primeiro século antes de nossa era, o descreve como
"o primeiro de uma longa lista de astrólogos de gênio que brotaram
diretamente das nações caldéias". A sabedoria e habilidade de Beroso como
astrólogo impressionaram de tal forma seus contemporâneos que, após sua
morte, lhe erigiram uma estátua. Como homenagem à veracidade de suas
predições astrológicas, fizeram essa imagem dotada de uma língua de ouro
maciço.

O mistério de uma civilização perdida

A história do deus Oannes é às vezes interpretada de maneira


simbólica. Alguns autores suspeitam que os conhecimentos atuais podem ter
tido uma origem comum, numa civilização muito adiantada, que se teria
desenvolvido num continente hoje submerso nas águas do Oceano Atlântico
- a lendária Atlântida. Oannes seria então um representante dessa

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raça desaparecida no mar - daí a simbólica cauda de peixe. Muitos e sólidos
argumentos apóiam essa teoria. Platão, em duas de suas obras, Crítias e
Timeu, cita a Atlântida e a descreve com ricos detalhes, sua geografia, seu
perfil orográfico - hoje confirmado por fotografias de profundidade do
Oceano - sua ordem social, seus deuses e costumes locais. Não só a
Astrologia, mas certos dogmas, costumes, linguagem, arquitetura, assim
como inúmeros aspectos religiosos e conhecimentos científicos são
demasiado parecidos entre si, quando comparamos civilizações tão distantes
como a egípcia, a maia-azteca, inca, chinesa, hindu e a de certas tribos
indígenas centro e norte-americanas e também africanas. Várias dessas
civilizações construíram pirâmides, mumificavam seus mortos ilustres,
faziam barcos de igual forma e com idênticos materiais.
Os símbolos astrológicos encontrados entre os aztecas são
significativamente parecidos com os chineses. Por exemplo, a Lebre, o
Macaco, a Serpente e o Cão aparecem em ambos os sistemas sem qualquer
alteração. Entretanto, o Tigre, o Crocodilo e o Galo - animais não
conhecidos naquele tempo na América - foram substituídos pelo Ocelote -
um felino rajado de médio porte - pelo Lagarto e pela Águia, nos quais
podemos facilmente reconhecer o parentesco com o sistema chinês.
A universalidade dos símbolos, a absoluta semelhança dos sistemas,
os nomes dados aos signos e às constelações, a idêntica influência atribuída
aos planetas, tudo sugere a existência de um ensinamento único, praticado
por todas as civilizações do passado, e que evoluiu, assumindo formas e
linguagem adaptadas a cada povo, mas guardando os princípios gerais em
sua essência. Flavio Josefo, falando dos judeus, afirma que Adão foi
instruído em Astrologia por inspiração divina. Sintomaticamente, a tradição
bíblica situa o paraíso terrestre na região compreendida entre os rios Tigre e
Eufrates, ou seja, exatamente na Mesopotâmia. Interpretando
simbolicamente Adão como representante "das primeiras raças humanas",
podemos concluir que a Astrologia foi conhecida por elas desde o início,
quase como um patrimônio cultural inato, ou pelo menos adquirido muito
cedo.

Uma ciência "do outro mundo"?

Por outro lado, quem ler atentamente o Livro de Enoch pode levantar
uma teoria bem diferente a respeito do mistério das origens da Astrologia.
Trata-se de um livro apócrifo, que foi subtraído do conjunto dos textos

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bíblicos oficiais, nos quais, porém, Enoch é bastante citado como profeta e
filho de Caim. Crê-se que foi escrito por volta do século III a.C, sendo,
portanto, contemporâneo de Beroso. Em seus versículos numerados, o Livro
de Enoch fala de "anjos" ou "filhos do Céu". Estes viram como as mulheres
da Terra eram formosas, as desejaram e tiveram filhos com elas. Foi então
que surgiram os gigantes. Eram malvados e, após consumirem toda a
colheita dos homens, se voltaram contra estes para devorá-los também.
Assim começa a desgraça para a raça humana, e também para os "anjos",
que, unindo-se às mulheres da Terra, violaram uma severíssima proibição, e
por isso passaram a sofrer terríveis castigos. Os "anjos" eram em número de
200, e "desceram" em Aradis, próximo ao Monte Harmon.
O livro cita os nomes de 18 de seus chefes. E esses anjos ensinaram às
mulheres a Magia, as propriedades das raízes e plantas e também a arte de
observar as estrelas, os signos, a Astronomia e os movimentos da Lua.
Enoch, no fim da história, desapareceu misteriosamente. Ele não morreu, diz
o livro, "mas Deus o levou vivo para o Céu". Bastante estranhos esses
"anjos", dotados de paixões tão humanas e de corpos tão sólidos! Não
seriam eles seres extraterrenos que pousaram com suas naves no alto da
montanha, raptaram Enoch, casaram com as belas mulheres da Terra,
geraram monstros genéticos e transmitiram aos homens um pouco da sua
ciência, tecnologia e poderes paranormais?

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Capítulo 02

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s iniciados, detentores de um mistério a preservar, sempre se
preocuparam em deixar para as gerações futuras uma pista de seu
segredo, na intenção de que não se perdesse. Eles deixaram
papiros, manuscritos, livros, etc, mas cuidaram de velar sua
mensagem utilizando-se de símbolos. É a Linguagem Hermética,
usada pela Maçonaria, pelos alquimistas e por todas as ordens iniciáticas. O
símbolo é uma imagem que transmite uma idéia. Às vezes utiliza um
atributo da coisa que se quer representar, às vezes uma parte essencial dessa
coisa. Ora faz uso de um personagem, ora constrói toda uma alegoria ou um
mito, no qual se alude à mensagem que se quer transmitir.
É por essa razão que surgiram as lendas iniciáticas. São histórias
aparentemente despretensiosas, em que animais falam, personagens entram
em aliança ou em atrito, produzindo eventos e desenrolando todo um
complicado enredo. E o caso das mitologias, que estão na raiz de todas as
religiões. O mito que lhes dá apoio é contado como se contivesse fatos reais
ocorridos há muito tempo - o que serve de justificativa para as coisas
improváveis descritas - e explica a origem de um fenômeno natural, como o
fogo, o trovão, a montanha, uma estrela, o nascimento de um herói, um
eclipse ou a perda de um dom que antes se possuía.
Dessa forma, surgiram os mitos sobre a origem da Terra, da vida ou
da raça humana, as catástrofes que afligiram povos antigos, as relações do
homem com a natureza e com os deuses - e naturalmente vieram, junto com
os mitos iniciáticos, as superstições ou deformações do mito por má
compreensão ou falsa interpretação. Tomando um exemplo da Mitologia
Grega, podemos estudar a Lenda da Medusa, um mito que

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pretende ao mesmo tempo preservar segredos astrológicos e alquímicos.
Medusa era uma mulher de aspecto muito feio e assustador. Em lugar dos
cabelos, tinha cobras que lhe saíam do couro cabeludo. Sua pele era escura e
metálica, as unhas tinham formato de garras terríveis, soltava uivos
lancinantes e possuía o dom de petrificar à distância qualquer ser que se
aproximasse e fosse visto por ela. Morava no alto de uma montanha e ao seu
redor havia estátuas humanas em atitudes variadas de ataque: eram os heróis
malsucedidos que tinham ousado invadir seus domínios e haviam sido
transformados em pedra. Era o terror da região.
Certo dia, o rei Polidectes festejava seu aniversário com amigos e
heróis quando Perseu, um dos filhos de Zeus, bastante animado pelo vinho
que tomara, propôs dar ao rei um presente excêntrico: a cabeça da Medusa.
O rei divertiu-se com a idéia de tal presente, mas o aceitou, forçando Perseu
a providenciar a entrega. Ao voltar a si de sua bebedeira, e lembrando-se da
louca oferta, Perseu entrou em depressão e sentou-se numa pedra para
meditar sobre o que faria. Apareceu-lhe então Hermes, o mensageiro dos
deuses, que lhe perguntou a razão de tal tristeza. Ciente dos perigos que
Perseu passaria numa missão daquelas, Hermes lhe prometeu ajuda. De fato,
um pouco mais tarde, retornou trazendo ao herói alguns itens muito
especiais para a arriscada tarefa: uma espada para cortar a cabeça do
monstro; um saco de couro bem vedado para guardar a cabeça cortada, para
que os olhos da Medusa não continuassem a petrificar quem a visse;
pequenas asas para colocar nos pés, e tornar o passo mais leve, de modo a
não despertar a atenção da Medusa; e finalmente um capacete, que tornaria
Perseu invisível.
Provido de tais apetrechos, a tarefa do herói ficou muito fácil, e ele se
desincumbiu a contento, levando ao rei o presente prometido. Do pescoço
cortado do monstro brotam então duas grandes figuras: o gigante Crisaor e o
cavalo alado Pégasus. Segundo a lenda, a cabeça da Medusa foi
transformada numa constelação e colocada no céu, ao lado da do próprio
Perseu. Este é representado nas cartas celestes segurando a cabeça da
Medusa, e ao lado o cavalo Pégasus, que se encontra nas vizinhanças, entre
as constelações de Áries e de Aquário. Um dos olhos da Medusa, que
corresponde à estrela Algol, fica hoje próximo do 26ª do signo zodiacal do
Touro. A explicação simbólica da lenda é, do ponto de vista astrológico, a
seguinte: no mapa de nascimento de uma pessoa, onde essa estrela Algol
estiver colocada como um significador da vida,

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tal pessoa corre o risco de ser decapitada, tal como foi a Medusa. Era uma
forma de preservar esse conhecimento sobre a influência dessa estrela no
mapa astral. Já a explicação alquímica é mais complexa: a Medusa
representa o mineral bruto, tal como retirado da mina - a nossa Pedra Bruta é
de natureza feminina, é escura como a figura mitológica, possui escórias em
estrias, que se parecem com cobras, é de caráter metálico e leva o iniciado
ao caminho da Pedra Filosofal.
Para que não haja dúvidas sobre o caráter alquímico da lenda, surgem
dois personagens do corpo mutilado da Medusa: Crisaor e Pégasus. Crisaor,
em grego, significa ouro, e nos remete à interpretação de que o final da obra
nos levará à possibilidade de fabricar ouro. Em segundo lugar, dá-nos uma
dica importante quanto aos cristais sólidos que se produzem após a primeira
manipulação ao forno, substância que leva o nome de Azoth e que é
considerada a verdadeira matéria-prima da Obra Alquímica - essa primeira
manipulação se chama, muito sugestivamente, cortar a cabeça do corvo!
Pégasus possui asas, e na Alquimia, asas significam uma substância
volátil, que se desvanece no ar. De fato, a segunda substância que nasce da
mesma manipulação é um espírito muito volátil, que precisa ficar bem
fechado - hermeticamente - num vaso, para que não se desvaneça. Aí vem
então a lenda complementar de Belorofonte, outro herói que se encarregará
de domar Pégasus, colocando-lhe um firme cabresto e usando-o a partir de
então como seu meio de transporte. Essa manipulação primeira, que reúne
três substâncias - sal, enxofre e mercúrio - produz, exatamente como na
destilação da cana-de-açúcar, de um lado o álcool - o espírito - e de outro o
melado - o Azoth - que precisará ser refinado e purificado até que se
transforme em açúcar. Do mesmo modo, o Azoth necessitará de posteriores
manipulações, até que se purifique e possa ser utilizado no futuro como um
poderoso agente. Assim vemos como um mito, ao mesmo tempo em que
orienta os iniciados como um roteiro oculto de operações secretas, de uma
ciência mais que secreta, esconde dos olhos dos não-iniciados tais segredos,
por trás da roupagem inocente dos símbolos.

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Capítulo 03

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horóscopo de uma criança começa quando ela emite o primeiro
grito e se separa de sua mãe, rompendo o cordão umbilical. O
horóscopo de um país, de maneira análoga, nasce quando ele
emite o grito de independência e se separa do país que o
colonizou ou dominou, cortando os laços que tolhiam sua
liberdade. D. Pedro I, de modo bastante significativo, não só lançou um grito
de independência, como cortou com a espada, num gesto simbólico, aquele
laço que prendia a nação brasileira à terra-mãe, Portugal, dando assim
origem ao tema astrológico do nosso país. Segundo narram os historiadores -
especialmente Rocha Pombo - esse fato ocorreu às 16h00 de um sábado, dia
07 de setembro de 1822.
Os acontecimentos mais marcantes da História nos permitem, através
de progressões, trânsitos planetários e grandes conjunções, estabelecer com
absoluta segurança o horário exato: 16h08, hora local, em São Paulo. Da
mesma forma que o horóscopo de um indivíduo, o mapa astrológico de um
país permite delinear o temperamento, o caráter, os gostos peculiares, o
modo de pensar de um povo - ainda que, em linhas gerais, descreva apenas
um "tipo médio", uma personalidade muito encontradiça entre esse povo.
Entretanto, a análise desse mapa mostra, com bastante fidelidade, a imagem
que esse povo sugere perante o mundo e perante si mesmo.
O mapa do país permite ainda prever as mais fortes tendências do seu
destino e as influências predominantes que se fazem sentir quanto ao seu
clima, agricultura, finanças, transportes, comunicações, educação, infância,
saúde, diplomacia, regime político, legislação, riquezas naturais, acidentes
geográficos, tipo de solo, situação da dívida externa

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e condições do abastecimento de gêneros. Nele está o retrato das nossas
virtudes, nosso potencial, nossas deficiências e nossas promessas para o
futuro. Ao contrário do horóscopo dos Estados Unidos, estabelecido no
momento da assinatura da Declaração da Independência, e provavelmente
programado conscientemente pelos vários astrólogos presentes a esse evento
- John Adams, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, entre outros - o tema
do Brasil nasceu ao sabor das circunstâncias, sob o ímpeto de um imperador
jovem e temperamental, e sob a pressão insuportável do domínio
estrangeiro.
Nascida de "parto natural", a carta astrológica do Brasil reflete o
estado efetivo das coisas naquele instante, e mostra a evolução natural da
História, desde sua concepção - que é o mapa astral da descoberta oficial e
posse solene da Terra, ocorrida em 1º de maio de 1500, de acordo com o
Calendário Juliano, às 7h24, hora local, na Baía Cabrália, no Estado da
Bahia. Este é o mapa do Brasil-Colônia, com Vênus no ascendente, Lua em
Gêmeos, Sol em Touro junto com Saturno, e um magnífico Júpiter em
Peixes, quase no zênite. Esse mapa astral promete um futuro brilhante a um
povo doce e fraterno, numa terra cheia de belezas naturais e abundância. Era
a perfeita descrição do escrivão de bordo, Pero Vaz de Caminha, em sua
carta profética ao Rei de Portugal: "Em se plantando, tudo dá". O Mapa da
Independência o substituiu a partir de 1822, já com o Sol no signo de
Virgem, ascendente em Aquário, Lua em Gêmeos. (Vide Mapas na página
35)
A Lua não estava sozinha em Gêmeos nesse dia - ela vinha
acompanhada do maior planeta do nosso sistema, nada menos que Júpiter.
Assim, Lua e Júpiter transitavam, no dia da nossa Independência, ao 6º do
signo de Gêmeos, exatamente sobre o ascendente do Brasil-Colônia,
representando mudança, expansão e libertação. De acordo com as leis de
herança astrológica do ser humano, a Lua do nascimento se coloca no
ascendente do mapa da concepção. Mesmo numa gestação de 322 anos de
duração, o arquétipo foi obedecido! Ora, o horóscopo do Brasil-República -
15 de novembro de 1889, às 18h47, hora local no Rio de Janeiro -
igualmente coloca o ascendente em Gêmeos! Isso reforça e confirma para
além de qualquer dúvida a natureza geminiana desse povo, uma vez que
tanto a Lua como o ascendente dizem respeito à natureza e características do
povo de um país.
Inquieto, curioso, versátil, cheio de manhas, "jeitinhos", inteligente,
brincalhão até à molequice, engenhoso, hábil, comunicativo e com múltiplos
talentos para o comércio, a literatura, a comédia, o

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desenho, sem esquecer sua agilidade ao volante e seus naturais dotes
oratórios. Segundo o conceituado astrólogo Alan Leo, a combinação de Sol
em Virgem - em 07 de setembro - e a Lua em Gêmeos fazem o nato
amistoso e hospitaleiro, e o levam a mudar freqüentemente de ocupação, ou
a seguir duas ocupações ao mesmo tempo. De fato, é extremamente comum
que os brasileiros tenham duas atividades ou dois empregos - às vezes em
duas profissões diferentes. Os grandes defeitos dessa combinação tão
mercurial são: a leviandade, a superficialidade, a duplicidade, a indisciplina
e a irreverência.
A Lua em conjunção com Júpiter na 4- casa - a casa do lar, da família,
da terra natal, enfim, realça o traço da hospitalidade, generosidade,
tolerância e jovialidade, além de propiciar a fértil contribuição do imigrante
estrangeiro na agricultura e no desenvolvimento da nossa riqueza potencial,
sem falar na formação étnica do nosso povo, múltipla, variada e
harmoniosamente assimilada. É sem dúvida essa conjunção que gerou essa
fé inquebrantável que o povo deposita em seu destino. Pois não afirmamos
sempre que Deus é brasileiro?!
Reforçando a natureza intelectual do nosso povo, Mercúrio está em
seu signo de domicílio, em conjunção com o Sol, o que traz engenhosidade,
gênio prático, inteligência penetrante, capacidade de observação minuciosa,
senso crítico. O defeito mais óbvio dessa posição é o apego exagerado a
detalhes, a mania de criticar tudo, muitas vezes pelo simples prazer de
descobrir imperfeições, e também o talento insuperável que tem o brasileiro
de transformar tudo em burocracia: carimbos, assinaturas, papéis copiados
em 12 vias, quatro departamentos diferentes cuidando do mesmo assunto, e
o dever que todo cidadão tem de carregar consigo, em média, 11
documentos oficiais, destinados a comprovar, nas várias situações, sua
inocência, legitimidade, identidade, saúde, propriedade do automóvel,
habilitação profissional e de trânsito, e sua quitação com o fisco, o serviço
militar, seguro obrigatório, obrigações eleitorais, sem contar outros cinco ou
seis referentes à identificação bancária, comprovantes de renda e cartões de
crédito, que são opcionais.
Colocados ambos, Sol e Mercúrio, na 8ª casa, denotam nosso
indisfarçável pendor ocultista. Afinal, somos católicos no domingo e
espíritas na sexta-feira. O signo solar de Virgem torna o brasileiro apto para
a investigação científica, a pesquisa de laboratório e revela a forte

31
tendência de seguir a carreira médica. Quem não conhece o talento natural
que temos todos para dar receitas? E lembremo-nos de que o Brasil tem
produzido médicos, cirurgiões, dentistas, higienistas e terapeutas da mais
alta qualificação. Mas, chegou o momento de falarmos um pouco desse
nosso ascendente em Aquário. E essa posição que faz o brasileiro inventivo,
criativo, independente, individualista e ansioso por liberdade. Vem daí sua
atração pela mecânica, aviação, circo, futebol - afinal, Aquário rege as
pernas! - fotografia, televisão, cinema, aparelhos elétricos, discos voadores
e... Astrologia.
Já produzimos, graças a esse ascendente, alguns gênios e expoentes
que contribuíram de maneira significativa para a arte, cultura, ciência,
literatura, invenções magníficas - como o avião, a máquina fotográfica e a
máquina de escrever, invenções de brasileiros que outros pretensamente
criaram primeiro - e os esportes mundiais. São exemplo disso Santos
Dumont, Carlos Gomes, César Lattes, Rui Barbosa e Pelé. Por alguma
estranha razão, quase todos só puderam demonstrar seus talentos no
estrangeiro. E por outras estranhas razões, muitas das nossas invenções nos
foram subtraídas, ou seu valor menosprezado, e sua glória roubada.
Foi o caso do avião, por Santos Dumont, que fez sua prova diante de
milhares de pessoas, em plena Paris, vencendo o prêmio de Mais Pesado que
o Ar, em 23 de outubro de 1906. A invenção foi contestada pelos irmãos
Wright, cuja experiência não foi testemunhada por ninguém, a não ser eles
mesmos, não foi filmada nem fotografada, e dela só há registro de três curtos
- 30 segundos! - saltos no ar de uma geringonça que não voava em absoluto.
Foi também o caso da máquina de escrever, inventada pelo padre
paraibano Francisco João de Azevedo, e apresentada em 16 de novembro de
1861 na Exposição Industrial e Agrícola da Província de Pernambuco. O
padre Azevedo foi até premiado por D.Pedro II por seu invento, mas sua
máquina, que se parecia com um piano pequenino, conforme explicava o
catálogo, não foi enviada à Exposição Internacional de Londres por falta de
espaço no pavilhão brasileiro! A invenção foi mais tarde aproveitada por
Remington, que levou a fama do invento.
Foi igualmente o caso de Hércules Florence, francês de nascimento,
mas radicado muito jovem em Campinas. Acredita-se que ele precedeu
Daguerre e Niepce na criação das técnicas que levaram à invenção da
fotografia. Temos, pois, material humano de valor inestimável, mas que
nunca

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O mapa do Brasil Colônia [à esquerda],
com Vênus no ascendente, Lua em
Gêmeos, Sol em Touro junto com
Saturno, e Júpiter em Peixes. 0 Mapa
da Independência [acima à esquerda] o
substituiu, já com o Sol no signo de
Virgem, ascendente em Aquário, Lua
em Gêmeos. Já o horóscopo do Brasil
República [acima] coloca o ascendente
em Gêmeos. Isso reforça a natureza
geminiana dos brasileiros

é devidamente reconhecido, ou o é tardiamente. É também o resultado


desse ascendente em Aquário a universalidade de interesses, a
abertura mental, o espírito de aventura, o pioneirismo e um
sensacional e inimitável dom para a improvisação. Dêem ao brasileiro
um barbante, um esparadrapo, um grampo, um pouco de cola, e ele faz
um trator funcionar ou um trem explodir, conforme a necessidade.
E onde estão os regentes desse ascendente? Um deles está na 3 a
casa desenvolvendo idéias - eu diria "desbravando" idéias, pois é
Saturno - duramente, com sérias dificuldades devido às limitações do
meio ambiente, falta de estímulo e ausência de recursos, sem falar na
pressão exterior - representada pela oposição de Marte, vinda da 9ª
casa. Quanto ao outro regente, Urano, está na 11ª casa, em conjunção
com Netuno. E a casa das invenções e descobertas - muitas que nos
foram roubadas!
São projetos inspirados, fantásticos, capazes de alterar
profundamente a ordem das coisas - estão em Capricórnio - dentro e
fora do país - ambos em sêxtil, com Marte na 9ª casa - mas a
quadratura com Plutão traz o impedimento de "força maior", o
bloqueio

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intransponível e sem apelação. De onde vem essa quadratura? Da 2ª casa.
Falta de dinheiro talvez? A 11ª casa rege também os assuntos do Congresso
Nacional, o Legislativo. Temos aí dois planetas em conjunção, Urano e
Netuno. São eles os responsáveis pela mistura curiosa de tendências que
mostram os partidos políticos: esquerda e direita se mesclam sem qualquer
preconceito, e membros de um partido nominalmente de esquerda com
facilidade se mudam para outro de caráter direitista, e vice-versa. Os dois
planetas estão em quadratura com Plutão na 2ª casa, a casa do dinheiro.
Deve ser a razão pela qual tantas vezes surgem escândalos de natureza
financeira dentro dos partidos e no Congresso em geral. Mas Plutão garante
o "sumiço" permanente das propinas recebidas e das verbas desviadas,
mesmo quando o fato é denunciado e provado e os culpados apontados e
punidos: o dinheiro roubado nunca mais é encontrado, e muito menos
devolvido.
Nossa 3a casa - os transportes, correio, comunicações e escolas - tem
Saturno em oposição com Marte. Quem sabe, vem daí nosso hábito de fazer
greve nesses setores? E, sem dúvida, é essa oposição terrível que fez do
Brasil, durante anos, um dos campeões mundiais de desastres de trânsito nas
estradas. Ainda guardamos na memória as inúmeras tragédias envolvendo
nossa antiga ferrovia Central do Brasil. E nossas universidades? E nossas
escolas primárias? É triste o estado de abandono e o "luxo" que nos damos
de exilar e expulsar nossos melhores cérebros para trabalhar no exterior.
Considero esta oposição o maior desafio do mapa astrológico do
Brasil. Dominando a 10a casa, Marte criou no Brasil o costume de levar,
com estranha freqüência, os militares ao poder. Em contraposição, nossa
grande vantagem, nosso maior potencial, está na 4ª casa - as reservas
naturais - riquezas imensas contidas em nosso solo: minerais, energéticas,
hídricas, alimentares, fauna, flora, madeiras, numa terra farta de dimensões
continentais, livre de flagelos naturais que tanto matam e atormentam a
população de outros países, de climas variados e que permite o plantio de
infinitas espécies, além de proverbialmente fértil.
E por que, sendo tão grande sua reserva, não é o Brasil um país rico?
Ou, mudando um pouco a pergunta, para onde vão tantas reservas? O
regente da 4ª casa - Vênus - mostra para onde: para a 7ª casa - o estrangeiro.
Nosso ouro de Minas Gerais, por exemplo, após um longo périplo por
Portugal e França, foi parar na Inglaterra.

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O reconhecimento da nossa independência custou aos cofres de D. Pedro I a
módica quantia de 8 milhões de libras esterlinas! E onde está o dispositor da
nossa conjunção Lua-Júpiter? Na 8ª casa - nossas reservas servem para pagar
dívidas externas!
Mas nem tudo é tão ruim quanto às relações exteriores. Afinal, temos
aí na 7ª casa nada menos que a bela Vênus. Nossos diplomatas têm uma
formação extraordinária, e o Brasil já produziu notáveis nomes, de prestígio
internacional, como Rui Barbosa - a "águia de Haia" - o barão de Rio Branco
e Afonso Arinos, chamados à mesa de conversações mundiais. É essa 7ª casa
a maior garantia que temos de relações pacíficas com o resto do mundo.
Num planeta sacudido por tantas guerras e convulsões terríveis, não é este
um consolo valioso?
Mas há um outro ponto que se destaca de maneira mais decisiva e
marcante e que trata da feliz promessa de um papel importante na construção
do mundo do futuro. Trata-se da nossa conjunção Urano-Netuno em
Capricórnio, signo de governo e de ordem política. É neste país que se está
engendrando a organização política e social que será vivida no Terceiro
Milênio. Numa síntese feliz e pioneira, o Brasil juntará a experiência do
capitalismo - Urano - e do socialismo - Netuno - criando um regime de
natureza mista e eclética, universal e livre, como convém a um ascendente
em Aquário. Nosso sistema tupiniquim, depois de alguns erros, tropeços e
escorregões, poderá ser exibido no mundo como um modelo curioso de
simbiose política, e nossa sociedade mostrará talvez uma estranha fusão de
tecnologia ultra-avançada - Urano - com energias mágicas obtidas através de
um saber transcendente - Netuno. Essa é talvez a imagem mais próxima
daquilo que será a Era de Aquário, na qual o Brasil se fará representar, sem
sombra de dúvida, não apenas como o celeiro alimentar e energético do
mundo, mas como um exemplo humano de progresso, liberdade e paz.

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36
Capítulo 04

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"Astra inclinant, non necessitant" (Os
astros inclinam, mas não obrigam)

enho visto algumas vezes alunos iniciantes de Astrologia tomados


por uma vaga dúvida, uma ponta de ceticismo em relação a essa
ciência. A dúvida é um aguilhão que impulsiona o autêntico
pesquisador em direção ao conhecimento, e, até certo ponto, ela
deve ser considerada um sintoma sadio da alma que está em
busca da verdade. Entretanto, ao escavar bem fundo essa dúvida, tenho
identificado muitas vezes um desejo recôndito de que não existisse a
realidade astrológica, para garantir mais amplamente aquilo que
convencionamos chamar "livre-arbítrio".
Quando o estudante afinal se convence de que não há saída, e os fatos
científicos se impõem aos seus olhos com toda a força e evidência da
verdade irrecorrível, surge inevitavelmente a indagação: mas, se a Astrologia
é um fato, será que nós somos um mísero e indefeso joguete dos astros, e
tudo que nos acontece é fruto de ângulos planetários? Seremos bonecos
cujas ações, longe de ser o produto de uma vontade própria, são apenas o
resultado de uma posição astronômica no espaço naquele instante longínquo
em que nascemos? Nosso amor próprio, nosso orgulho humano se revoltam
contra tal idéia. Nada mais chocante do que acreditar durante toda uma vida
que sempre fizemos o que desejávamos, e descobrir um dia que mãos
invisíveis teciam nosso destino e haviam movimentado a cada instante os
cordéis da nossa vontade. A crise filosófica em que esse raciocínio
necessariamente nos submerge, além de nosso sentimento de angústia e
rebelião, se tornam ainda mais profundos quando nos detemos a observar a
realidade à nossa volta e descobrimos aquilo que só podemos qualificar de
terrível injustiça cósmica: ricos e pobres, nobres e miseráveis, felizes e
infelizes, sadios e doentes, puros e sórdidos, perfeitos e mutilados, lutadores
e parasitas, coexistindo lado a lado, evidenciando uma

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outra realidade interna, essa produzida pela visão exclusiva e privilegiada do
astrólogo - a dos horóscopos individuais - igualmente cheia de disparidades
e contrastes. É claro que idêntica consideração filosófica se impõe àquele
que não possui a bagagem do astrólogo. Essa mesma realidade de contrastes
nos é apresenta à vista diariamente e não deixa de nos conduzir a uma
incômoda dúvida sobre a bondade infinita do nosso criador, na qual
desejamos por força acreditar e que nos foi ensinada em quase todas as
doutrinas religiosas.
Mas a visão do astrólogo mostra algo mais: mostra qualquer coisa que
soa a inevitável e a irrevogável. É nesse momento que a crise chega a um
impasse: duvidar da Astrologia - e há um ponto em que isso já não é mais
possível - ou da justiça divina - e isso significa derrubar um alicerce no qual
nosso inconsciente está solidamente ancorado, de uma forma ou de outra.
Resta a posição materialista de que não existe Deus e, portanto, não há lugar
para considerações sobre "bondade" ou "justiça" divinas. Existem
horóscopos individuais "felizes" e "infelizes" e isso encerraria a questão.
Não deixa de ser uma posição cômoda como doutrina filosófica, mas
obviamente não responde à indagação básica, que é a do determinismo
versus livre-arbítrio.
Para aqueles que buscam uma explicação transcendente, há a resposta
dos espiritualistas: tudo o que somos hoje é produto de nossos próprios atos
passados, em vidas anteriores - a Lei do Karma ou da Causa e Efeito. A
bondade divina se manifesta nas múltiplas oportunidades que nos confere o
universo para redimir nossos erros e aprender com as novas experiências
oferecidas em cada encarnação, e assim progredir na senda da verdade, até
alcançarmos o Nirvana. Todo sofrimento é justo, pois resulta de uma má
ação cometida por nós mesmos. Todo benefício é igualmente justo, uma vez
que nos advém de um mérito passado. Nosso horóscopo individual, de
acordo com esse raciocínio, nada mais é, portanto, que o "saldo" de nossas
ações passadas, e a nossa "conta-corrente" herdada do conjunto das
encarnações anteriores.
Essa posição espiritualista nos reconcilia com o Criador, e nos
permite voltar a crer na sua bondade e justiça - embora ainda possamos
indagar por que é que Ele nos deixou um dia incorrer no primeiro erro, o que
causou todos os outros e nos prendeu tão irremediavelmente à roda triturante
das reencarnações. E a resposta a isso talvez pudesse ser "porque ele nos deu
livre-arbítrio para optar entre o bem e o mal e, naquele dia, nós
infelizmente optamos pelo mal". Mas, redargüimos, não poderíamos agir mal
senão em função de uma potencialidade para o mal! E essa

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potencialidade para o mal não nos adviria do nosso próprio horóscopo
"infeliz"? E se nascemos com tal horóscopo "infeliz", isso não tinha que ser
necessariamente a conseqüência de um erro anterior?!
Há certamente um sofisma neste raciocínio, na presumida
potencialidade para o mal: ela existe não apenas no horóscopo "infeliz", mas
também no "feliz". E assim a pergunta se alonga para muito mais além, e
teríamos que questionar sobre o porquê da existência do mal em si. Mas isso
pertence ao campo da Metafísica, não mais da Astrologia. Ainda que a
explicação espiritualista nos deixe em paz novamente com o Criador, ela não
resolve, à primeira vista, a questão do livre-arbítrio, de acordo com a visão
astrológica. De certa forma, a proposta reencarnacionista nega o
livre-arbítrio quando nos leva a concluir que nosso horóscopo é fruto
inevitável de nossas ações passadas. Isso seria o mesmo que dizer: uma vez
estabelecido o horóscopo de nascimento - "feliz" ou "infeliz" - tudo que nele
está prometido, agradável ou desagradável, terá necessariamente que se
realizar, para que nossas "dívidas" passadas sejam pagas e os méritos
"cobrados" aos que nos deviam - "Perdoai as nossas ofensas, assim como
nós perdoamos àqueles que nos ofenderam". Não seria uma forma de pedir a
abreviação dessa espécie de "vendetta" cósmica?
Por esse raciocínio, no entanto, notamos que a inevitabilidade do
nosso destino transcende os limites do horóscopo, que corresponde à nossa
atual encarnação, e se estende aos futuros horóscopos que herdaremos. As
"dívidas" atuais são pagas, os méritos são "cobrados" e o "saldo" resultante
se transfere para a encarnação futura, segundo um horóscopo que lhe
corresponde em número e medida, e assim sucessivamente. Mas a resposta
reencarnacionista certamente não nega o livre-arbítrio. Pelo contrário, o
exalta. Ela nos diz que as circunstâncias da vida - nós traduziremos por "as
condições astrológicas do nascimento" - nos colocam diante de certas
escolhas, e são essas escolhas que irão determinar a espécie de vida - nós
diremos "o horóscopo" - futura que teremos.
De fato, a inevitabilidade não está na escolha que fazemos, mas nas
condições astrológicas que a puseram diante de nós - e estas sim são fruto de
nossos atos passados. A forma de nossa escolha é livre e ditada unicamente
pela nossa vontade. E ela que determina as "flutuações" do nosso "saldo"
kármico, calcando os pratos da balança para cima ou para baixo. Em suma,
movimentamos a nossa conta bancária do "céu", acumulando reservas para
as vidas futuras ou dilapidando as já existentes, de acordo com as ações
presentes, que são opções livres diante de fatos inevitáveis. Não resta dúvida

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de que, colocada desta forma, a explicação espiritualista nos satisfaz muito
mais amplamente do que qualquer teoria materialista. Ela torna compatível
um aparente determinismo com o nosso conceito de justiça e adapta a visão
astrológica a parâmetros filosóficos muito mais aceitáveis para o espírito
racional. Resta ainda, porém, explicar de que maneira as circunstâncias
astrológicas inevitáveis, pois que já estão estabelecidas quando nascemos, se
colocam diante de nós para escolha - essa voluntária - e qual seria na
verdade o nosso grau de liberdade nessa escolha, dado que esta mesma não
poderia estar livre das próprias circunstâncias astrológicas que as
produziram.

A transmutação astrológica

Se, em determinado período da vida estamos sob um influxo cósmico


que a Astrologia qualifica como Quadratura de Saturno - o que deve ser
traduzido como um período muito difícil, desagradável, duro, cheio de
privações e adiamentos, perdas e sofrimentos, pela natureza maléfica do
planeta e do ângulo em questão - a tradição nos ensina que uma série de
acontecimentos nos aguarda, todos relacionados com a natureza própria do
planeta Saturno, além de outras considerações que nos remetem a cada caso
individual - tais como a casa onde se localiza o planeta, as casas regidas por
ele, etc. Para simplificar, vamos enumerar apenas cinco das conseqüências
prováveis dessa quadratura: morte de um parente idoso; fratura de um osso;
um mau negócio imobiliário; uma profunda depressão psíquica e debilidade
física; ou uma situação de grande isolamento e privação das condições
normais de conforto.
Certamente, nenhuma dessas opções nos parece atrativa. Por nossa
vontade, evitaríamos todas elas. Saturno, porém, exige seu imposto, é
preciso satisfazê-lo, pois em Astrologia, não existe "sonegação". Muita
gente optará por pagar esse "imposto" no plano físico: uma fratura, uma
doença, uma depressão lhe parecerão mais baratas que a perda de um ente
querido. Outros preferirão uma perda financeira. Outros pagarão o imposto
na íntegra, sofrendo nos cinco itens. Uma questão que depende do grau de
evolução individual ou do nível em que se encontra a "dívida" atual em
termos kármicos.
Está claro que, na imensa maioria dos casos, essa "opção" é
absolutamente inconsciente. Há um fluxo de energia proveniente da vontade
íntima que sopra na direção dos acontecimentos que o indivíduo mais
necessita experimentar, a título de evolução espiritual. Ou sopra na direção
que seu superconsciente exige como "cobrança" kármica. São mecanismos
complexos que

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somente os interessados no campo esotérico chegam a estudar. De qualquer
forma, existe uma opção possível, e está entre os vários planos de vivência
de um aspecto ou posição astrológica - seja no mapa de nascimento, seja nas
progressões e trânsitos durante a vida. Como nos ensina Hermes
Trismegisto, "existem vários planos de causalidade, porém, nada escapa à
lei". Creio que esta frase resume o que se pode dizer de mais importante em
matéria de livre-arbítrio. Podemos "jogar" entre os vários planos causais,
mas não podemos simplesmente fugir a um aspecto ou influência, qualquer
que seja.
Quais serão esses "planos de causalidade"? Podemos enumerar cinco
deles, os mais comuns em nossa vida terrestre: lº) plano físico; 2°)
emocional; 3º) social; 4º) profissional e 5º) simbólico. O plano físico é o
preferido da maioria das pessoas. É através da saúde que mais
freqüentemente resgatamos nosso karma. No exemplo do aspecto de
Saturno, que mencionamos há pouco, é uma fratura, que nos imobiliza numa
camada de gesso, ou uma doença prolongada, que nos amarra a um leito de
hospital. No plano emocional, é uma depressão, que nos subtrai a alegria de
viver, nos afasta dos amigos e da família e nos obriga a passar por
tratamentos penosos. Pode ser também uma dor moral, um medo, uma
preocupação, uma pesada responsabilidade que nos assusta e rouba nossa
paz de espírito.
No plano social, a influência se dilui entre pessoas de nosso convívio
- a família, os amigos, os colegas de estudo e trabalho. Saturno cria
distancia, esfria relacionamentos, separa e chega a destruir vidas ao nosso
redor. Pouco poder de decisão nos compete neste plano, já que nele
dependemos de terceiros, e, mesmo que façamos nossa parte para evitar as
piores conseqüências, nada podemos fazer a respeito da vontade alheia. O
plano profissional é, em parte, um desdobramento do social, mas merece
algumas considerações especiais. Na nossa atividade profissional cotidiana,
vivemos aspectos astrológicos através de clientes, por exemplo. É como uma
"transferência" da força do aspecto para outras pessoas. Assim, ao invés de
sofrermos nós uma fratura, atendemos um cliente que acaba de ter uma. Ao
invés de termos uma perda financeira, recebemos no escritório um cliente
que faliu.
A vivência neste plano é particularmente reconhecível nas atividades
que podemos denominar "sacerdotais", ou seja, naquelas em que se
subentende um aconselhamento ou prestação de socorro. É o caso, por
exemplo, dos médicos, psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, assistentes
sociais, sacerdotes e astrólogos, é claro. Finalmente, o plano simbólico é o
mais sutil. Em nossos sonhos e pesadelos "descarregamos" os medos,

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angústias, preocupações e desejos reprimidos. Ao sonharmos com uma
guerra, por exemplo, vivemos um aspecto negativo de Marte; sonhando com
cemitério, campos devastados, desertos e pragas domésticas, "gastamos" um
Saturno negativo. E assim por diante.
A vivência simbólica é mais freqüente do que pensamos nesta Era
Moderna. Após a invenção do cinema e dos jogos computadorizados,
abriu-se para nós mais uma opção de "descarga" de aspectos negativos.
Assistimos a um filme de guerra e, quanto mais violento, mais o planeta
Marte se declara satisfeito; vemos um filme de Kung-Fu, e Plutão - quem
sabe também Marte, Saturno, Netuno e Urano, todos juntos! - ficam em paz
conosco. Um drama de amor - quanto mais lacrimal, melhor - e aí gastamos
a dor que nos produziria Vênus num drama autêntico. Um bom videogame
simula com perfeição um combate aéreo - quem sabe lá gastamos o risco de
um acidente de verdade!
O segredo da vivência simbólica é a transferência do sofrimento físico
para um plano intelectual ou emocional, não raro tão ou até mais intenso
ainda do que seria o drama físico, só que compactado num pequeno espaço
de tempo - o tempo que dura o filme ou o jogo. Se medíssemos as lágrimas
derramadas por alguns telespectadores durante um só capítulo de certas
novelas, é provável que superem as que dispenderiam numa separação
conjugai. Ou se aferíssemos a pulsação e os batimentos cardíacos de um
garoto enquanto mede forças com seu videogame, certamente entenderíamos
a descarga de energia que isso representa para Urano ou Marte em mau
aspecto.
Aos artistas, o reino dos símbolos destinou uma válvula especial para
cada mau aspecto: pinte para si mesmo um quadro triste, e lá se vai a
quadratura de Saturno, transformada nas tintas de uma paisagem
melancólica; componha uma marcha militar, e Marte se gratifica com ela;
escreva uma poesia nostálgica, e Vênus se delicia; escave na pedra a
escultura de um pequeno monstro, e Plutão desejará levá-la para sua coleção
particular. Não há mau aspecto de Saturno com Plutão que resista a uma
carreira como a de Steven Spielberg, o grande cineasta da atualidade, cujas
criações cinematográficas jamais deixam de registrar cenas horripilantes, em
que baratas, escorpiões e serpentes disputam espaço com cadáveres em
putrefação, alimentos repulsivos, tripas arrancadas à mão e gente esmagada,
devorada ou triturada aos pedacinhos. Spielberg - que, não por acaso, possui
em seu mapa natal uma conjunção Saturno-Plutão - é uma verdadeira
panacéia para descarregar aspectos que tragam desastres terríveis.
Consciente ou inconscientemente, este cineasta usa em sua criação tudo
aquilo que poderia ocorrer com ele na vida

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diária. Outro exemplo interessante disso está em Van Gogh, outra vítima do
mau aspecto Saturno-Plutão, que passou a vida a pintar cenas de miséria
humana; ou Victor Hugo, com o mesmo aspecto, que teve uma enorme
produção literária, mas cuja obra mais famosa foi exatamente a que retrata
as mais tristes cenas da exploração humana: "Os Miseráveis".
Percebemos por estes exemplos uma das possibilidades de usar nosso
livre-arbítrio: podemos transferir a vivência dos aspectos astrológicos de um
plano para outro. Como já dissemos, essa transferência é inconsciente na
maioria dos casos. Mas pode tornar-se consciente quando a pessoa conhece
Astrologia, identifica ou prevê os aspectos que a afetam e assume a
responsabilidade de desviar a força do aspecto para outra direção. Em geral,
basta a vontade forte para promover a transferência. Entretanto, é sempre útil
empregar um ponto de apoio, como um filme, uma novela, o jogo certo ou a
criação artística, pois não deixam de ser formas mágicas de defender-se dos
aspectos nefastos.
Neste capítulo sobre as vivências simbólicas, cabe ainda citar as do
gênero cerimonial, que são em geral aplicadas de forma programada,
intencional. É o caso das ordens iniciáticas, como a Maçonaria e a Rosacruz.
Em ambas, tal como nas antigas cerimônias do Egito, determinados ritos
simulam a morte do candidato à iniciação nos mistérios. Foram criadas com
a finalidade de preparar o candidato para o verdadeiro momento da sua
morte, mas também para fazê-lo sofrer a morte simbólica para a vida
profana, e seu renascer para uma nova vida de iniciado.
No Egito - e ainda hoje nas lojas maçônicas mais preocupadas com a
perpetuação dos antigos segredos - tais cerimônias desencadeavam enorme
força mágica, onde mantras especiais e uma poderosa egrégora se somavam
para produzir no profano um formidável impacto. Exatamente a força desse
impacto era capaz de "descarregar" as energias negativas de sua existência
profana, e, de quebra, resolvia os maus aspectos astrológicos que pudessem
abreviar indevidamente o curso de sua vida.
Conheci certa vez uma senhora que passava por um período crítico na
vida. Sua convivência em família era problemática, tinha conflitos com o
marido, a atividade profissional ia mal, tudo estava naufragando. Desejou
morrer, porém, não lhe passava pela idéia suicidar-se, fosse por sua
formação religiosa, fosse porque tinha filhos menores para criar. Mas, tendo
algum conhecimento quanto aos ritos simbólicos, preparou para si mesma
um "funeral". Sozinha em casa, e, em absoluto segredo, cercada por quatro
velas acesas, deitou-se

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na cama, cobriu-se com um pano negro e, através de uma prática que lhe era
familiar, entrou em "alfa", programando-se para retornar dali a algumas
horas. Voltou à vigília consideravelmente aliviada das tensões e muito mais
preparada para enfrentar suas dificuldades. A pequena cerimônia serviu-lhe,
portanto, às mil maravilhas para descarregar os pesados problemas que vivia.
Tão poderoso foi seu singelo ritual solitário, do qual se absteve de
falar com qualquer pessoa da família, que, na manhã seguinte, a filha menor,
com quem tinha uma ligação mais afetuosa, entrou correndo em seu quarto,
tomada de prantos convulsivos, e gritando: "Mamãe, mamãe, eu sonhei que
você tinha morrido!". A sua "morte cerimonial" tinha sido gravada tão
fortemente na memória astral - ou akasha, como se diz em sânscrito - que
sua filha foi capaz de captar a imagem em sonhos.
É assim, através de mensagens que impregnam dimensões mais sutis,
que se opera a "descarga" dos aspectos que ameaçam a pessoa nos planos
mais grosseiros. Os sacerdotes e os grandes iniciados das antigas ordens de
magos conheciam o processo pelos quais tais mensagens melhor se gravam
na memória da natureza - e do candidato aos mistérios - de forma que a
própria aura, assim como os corpos mais sutis da pessoa, ficavam
assinalados com a experiência. Assim, poderiam ser reconhecidos por outro
mago, ainda que muitas vidas se tivessem passado. Na verdade, a vivência
"teatralizada" funciona como se a experiência tivesse ocorrido de fato na
vida da pessoa. Pelo menos, para fins astrológicos, o processo é muito
eficiente.
Citando mais uma vez Hermes Trismegisto, sua primeira lei nos
ensina que o todo - ou o universo - é mental. É como dizer que tudo que
existe à nossa volta e que nos parece tão sólido, opaco e pesado, não passa
de energia pura - apenas um pouco mais condensada. Curiosamente, em uma
de suas peças pouco conhecidas, A Tempestade, Shakespeare nos diz algo
bem semelhante: "0 mundo é feito da mesma matéria de que se fazem os
sonhos". Sendo assim, o universo é como uma imensa máquina de
videogame, com cenários virtuais muito aperfeiçoados, e nós não passamos
de pequenos personagens igualmente virtuais, que lutam, trabalham,
estudam, sofrem, amam, têm filhos, guerreiam e morrem.
Da mesma forma que nos nossos sofisticados programas para jogos de
vídeo, os personagens lutam, enfrentam obstáculos, tentam salvar sua pele e
a da amada princesa, enfrentam adversários impiedosos, e, conforme nossa
habilidade em lidar com a máquina, sobrevivem ou morrem. "Ganham-se"
vidas adicionais, de acordo com méritos previamente estipulados nas

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regras do jogo, ou se "perdem", conforme as mesmas regras. No próximo
jogo, com uma nova vida, os mesmos personagens voltam a enfrentar outras
dificuldades, e assim por diante. No imenso holograma cósmico, somos suas
minúsculas partes, cópias idênticas do todo, dotados da mesma inteligência e
do mesmo poder - embora pouco conscientes disso. Michael Talbot, no livro
O Universo em Forma de Holograma já prenunciava a descoberta científica
moderna dessa visão de Hermes. Estaremos, em nossos inocentes joguinhos
para adolescentes, tentando imitar o holograma cósmico?
Se o universo é um grande cenário virtual, guiado por forças
intangíveis, e manipulado segundo regras previamente traçadas - regras
secretas que os astrólogos descobriram como funcionam, e que, tais como
Cassandra, proclamam aos quatro ventos, mas quase nunca são ouvidos - é
possível entender por que se pode transferir de um plano para outro as
influências do nosso horóscopo. Faz parte desse grande jogo "ganhar vidas"
ou vantagens - se cumprirmos rigorosamente certas condições - como faz
também parte perdê-las e sofrer castigos, no caso de infringirmos as normas
prescritas. Ou seja, prolongamos nossa vida terrestre e angariamos algum
tipo de prêmio sempre que obedecermos regras específicas. Abreviamo-la e
sofremos derrotas quando deixamos de segui-las.
De alguma forma, coube sempre aos sacerdotes de todas as eras
enunciar tais regras, sendo que o prêmio se colocava sempre para além da
morte. Daí o papel das religiões - elos feitos para "religar" o homem às suas
origens e aos segredos do universo. Como vimos, as escolas iniciáticas da
vertente hermética foram bem mais longe do que isso, ensinando aos seus
discípulos a verdadeira natureza do Grande Jogo Cósmico.
Uma conclusão se impõe sobre tudo isso: o livre-arbítrio é tanto maior
quanto mais alto o grau de consciência do indivíduo em relação a esse Jogo
Cósmico. A Astrologia, regida por Urano, o primeiro dos planetas não
visíveis a olho nu em nosso Sistema Solar, é também a primeira das chaves
para ã descoberta das leis do universo. Aquele que estudá-la e aplicá-la em
prol de seu autoconhecimento e nas previsões de seu próprio futuro,
conseguirá superar inúmeros obstáculos, que a outros parecerão impossíveis,
e saberá como viver, em esferas muito mais refinadas, os aspectos de dor e
sofrimento por que teria de passar normalmente.
Ao iniciado, outras chaves mais secretas se apresentarão como
recursos extraordinários para transcender a dimensão grosseira dos mundos
material e emocional: a segunda chave é a Kryia-Yoga, regida por Netuno -
segundo

47
planeta não visível - e a terceira é a Alquimia, governada por Plutão - o
terceiro planeta não visível. As três chaves são dadas aos mortais como
instrumentos para superar o karma, reduzindo o número de reencarnações
obrigatórias. No Jogo Cósmico, são "prêmios extra" conquistados através de
méritos muito especiais, méritos que se adquirem levando uma vida austera,
renunciando a prazeres frívolos e dedicando-se ao serviço do próximo e da
humanidade. Tais são, em síntese, as regras desse jogo. Entretanto, mesmo
conhecedor de vários destes recursos, há momentos em que o domínio de
nosso destino fica realmente ameaçado. É quando os acontecimentos estão
nas mãos de terceiros - estes sem qualquer acesso ao conhecimento das
regras do jogo.
No exemplo anterior, a influência de Saturno poderia, entre outras
conseqüências, trazer a doença e até a morte de uma pessoa querida -
geralmente idosa - como o pai ou a mãe. Mas, como persuadir certos
velhinhos obstinados de que já passaram da idade de subir em telhados para
limpar as calhas? Como convencê-los de que precisam tomar os remédios
nas horas certas, mesmo quando já se sentem curados? E assim, alguns de
nossos aspectos nefastos são vividos de maneira bem desagradável, sem que
tenhamos tempo de intervir. Estes fatos servem para nos mostrar que está
razoavelmente em nosso poder modificar o karma pessoal, mas que o de
outrem geralmente foge à nossa competência. Há poucos exemplos de que
alguém conseguiu alterar o destino de outra pessoa. É o caso de mães que
salvam a vida de um filho - seja por um gesto heróico, seja pelo poder de
orações - ou de amantes apaixonados, quando o heroísmo e a abnegação
igualmente entram em cena.
Nestes casos, de imediato se percebe a intervenção de três fatores,
todos dotados de um incrível poder mágico e transformador: o amor, o
sacrifício e a fé. Não é raro que, para salvar o filho, se dê em troca a vida da
mãe - o mesmo ocorrendo entre os amantes. Assim é a norma do jogo: você
pode salvar outra vida, contanto que entregue a sua. Às vezes, a simples
disposição de dar a vida em troca de outra é suficiente para resgatá-la. Em
ambas as possibilidades, o amor foi o preço inestimável pago para se obter o
prêmio da outra vida. Aprendemos aqui uma regra de ouro do Grande Jogo:
o amor - não o amor passional ou possessivo, mas o amor-doação, o amor
capaz do sacrifício maior - é uma das formas de redenção, quiçás a mais
poderosa de todas. A fé é outra força redentora, mas, como diz São Paulo,
nada vale se não houver amor.
Falemos um pouco sobre o livre-arbítrio quando se trata do mapa
astral de um criminoso ou de um viciado. Há mapas simplesmente
"terríveis", dos quais um astrólogo deduzirá com facilidade acontecimentos
trágicos e

48
alta cota de dor e sofrimento. Diríamos talvez que tais indivíduos, com
tendências notáveis para o vício ou o crime, tiveram pouca chance de evitar
seu triste destino, pelo mapa astral que lhes coube. Mas, o mesmo mapa
astral, violento e terrível, pode ser encontrado em indivíduos cuja vida foi
inteiramente dedicada ao benefício da humanidade, e que deixaram uma
obra magnífica para a posteridade. No entanto, eles encontraram um destino
trágico, com perseguições, prisão, tortura, mutilação, perda de tudo e de
todos que lhes foram caros, e finalmente morreram nas piores
circunstâncias.
Citemos o caso de Giordano Bruno, o grande iniciado do século XV,
que, após permanecer preso por sete anos, sofrendo as mais terríveis
torturas, morreu na fogueira da Inquisição; de Ludwik Zamenhof, o criador
do esperanto, cuja família foi assassinada e os bens confiscados pelos
nazistas; de Jan Amós Comenius, um dos mais admiráveis educadores de
todos os tempos, cuja família também foi assassinada, a casa e a preciosa
biblioteca foram queimadas, e que morreu no exílio; o célebre sábio e
alquimista Sendivogius, preso e torturado até a morte; ou William Wallace,
o herói libertador da Escócia, cuja vida foi objeto de um filme recente,
Coração Valente - perseguido, traído, a esposa assassinada, e, por fim,
barbaramente torturado e decapitado; ou Mahatma Gandhi, iniciado, sábio e
libertador da Índia, um dos maiores homens da Terra, preso a maior parte de
sua vida, perseguido e brutalmente assassinado. Seus mapas astrológicos
certamente mostram o destino trágico que tiveram. Mas suas vidas foram
limpas, suas obras, beneméritas e suas almas, abnegadas.
Ao nascer, o homem recebe uma pequena coleção de instrumentos de
trabalho: um recebe uma machadinha, uma régua, uma pá. Outro ganha um
martelo, um lápis, uma faca. O primeiro vai usar a machadinha para cortar
lenha, a régua para desenhos arquitetônicos, a pá para plantar árvores. 0
segundo vai usar o martelo para arrombar janelas alheias, o lápis para contar
o dinheiro que roubou, a faca para matar. Antes de nascer escolhemos os
instrumentos de trabalho com os quais viremos ao mundo. Esta é a parte que
não poderemos mudar. Durante a vida, porém, recebemos a liberdade de
optar pelo uso que faremos desses instrumentos. É neste setor que mais
podemos exercitar o livre-arbítrio. Inclusive, eventualmente, por nosso
mérito, aplicação e inteligência, talvez consigamos criar nós mesmos alguns
novos instrumentos, ou aperfeiçoar os que já temos. Podemos ainda
melhorar o uso daqueles que recebemos sem um "manual de instruções".

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Resta abordar a interessante questão do livre-arbítrio a nível coletivo.
Conta-se que um grande astrólogo persa previu um terremoto em sua cidade.
Deu-se o trabalho de avisar a todos no lugar que haveria um imenso
desastre, e que muitos morreriam se não abandonassem suas casas. Os
habitantes apenas riram dele, ninguém saiu de casa. Fiel aos seus
prenúncios, o astrólogo foi à praça da cidade, aguardar o terremoto. Já tarde
da noite, começou a nevar e a fazer um frio intenso. Temeroso de morrer ali
mesmo, de frio, ele acabou por recolher-se de volta à sua casa, onde um fogo
acolhedor o esperava. Sua previsão se cumpriu: veio o terremoto, a cidade
foi bastante destruída, muitos morreram, incluindo o nosso pobre astrólogo.
É muito raro que alguém dê ouvidos às profecias dos astrólogos,
mesmo quando são acertadas. Nosso astrólogo persa não foi o único a prever
corretamente os terremotos. Outro, mais moderno, Alfred Pearce, previu
com exatidão de dia, diversos tremores nos Estados Unidos, publicando suas
previsões num almanaque popular. Ninguém lhe deu crédito a ponto de
deixar a cidade, exatamente como ocorreu com o colega persa. Felizmente,
não houve danos terríveis, e com certeza os habitantes acharam boa a
decisão de ficar em casa. Se já é bastante difícil para um indivíduo mudar
seu destino através de algum trabalho ou sacrifício, pode-se imaginar como
será mudar o de uma cidade ou nação inteira. Seria preciso mobilizar a
opinião pública numa direção que talvez seja completamente contrária às
suas tendências naturais. E, mais provavelmente, acharão demasiado
incômodo mudar seus hábitos para seguir um "profeta" qualquer, ainda que
já muitas vezes ele tenha mostrado ser eficiente. Já houve tempo em que os
governantes se deixavam assessorar por astrólogos - ou eram eles mesmos
versados nesta ciência, e o próprio povo conhecia dela o suficiente. O povo
seguia as orientações e as mais sérias decisões eram tomadas sob a égide da
Astrologia. Mas a tendência atual é deixar acontecer.
Há duas formas pelas quais se pode abrandar, senão resguardar-se de
todo da influência nefasta de certos aspectos. Ambas nos remetem para o
terreno da Alquimia. Uma delas é a confecção de talismãs astrológicos,
baseados no trânsito de um planeta benéfico, como Júpiter ou Vênus, sobre
o mapa astral de um determinado indivíduo, num momento cósmico
especialmente calculado. Serão válidas somente para aquele indivíduo em
questão, e para mais ninguém, e poderão servir como um autêntico pára-raio
em relação a aspectos nefastos do mapa natal, ou de passagens transitórias
da pessoa durante um período da vida. Poucas pessoas são capazes de
calcular corretamente tais

50
talismãs, e muitos charlatães, atribuindo-se "poderes mágicos"
comercializam medalhas protetoras - um mercado fácil para vítimas
ingênuas. Mas sabemos como a medalha autêntica pode realmente defender
a pessoa contra um mau aspecto. Produzida em metal apropriado, emana
sutilmente uma influência inspiradora. A outra forma de defesa requer um
grande esforço pessoal e muita sabedoria. Representa a verdadeira saída
transcendental para aqueles que não aceitam as formas grosseiras de
"pagamento" dos impostos dos astros.
Somos unânimes em considerar pouco criativos, e nada construtivos,
os tributos que Saturno nos oferece à escolha. Afinal, qual a utilidade prática
de uma fratura? Ou da perda de um imóvel? De uma dor de dente? A
influência astrológica está aí, essa não podemos evitar, como não podemos
impedir que chova. Mas, não seria possível evitar de nos molharmos?
Haveria um meio de proteger-nos da influência de Saturno, qualquer coisa
parecida com um guarda-chuva antiplanetário?
Conta-se que Hitler chegou a construir um abrigo subterrâneo, coberto
com uma placa metálica muito espessa - não para protegê-lo das bombas,
mas para servir como anteparo contra influências astrológicas nefastas.
Talvez ele tivesse tido alguma indicação sobre as medalhas que
mencionamos. Certamente, ninguém poderia defender-se de modo tão tosco
e simplista. Influxos astrológicos são de natureza sutil e precisam ser
tratadas com outro gênero de providências.
Esse guarda-chuva antiplanetário efetivamente existe. Apenas requer
que cada um de nós o construa com seu próprio esforço, sua energia,
prudência, sabedoria, discernimento e paciência. É exatamente nesse
momento que a capacidade individual de transmutação entra em cena. Que
coisas positivas, boas, construtivas e agradáveis são governadas pelo mesmo
Saturno? Citemos algumas: o trabalho profundo da mente, a pesquisa séria
de uma teoria filosófica, a ciência, as lides agrícolas, o esforço digno e
paciente para descobrir as origens de um mistério qualquer da natureza, o
autoconhecimento, o cultivo da força de vontade, a construção lenta e
minuciosa de um plano de futuro, de uma idéia, de um sonho que
alimentamos há muito tempo.
Uma obra perene, ou a reconstrução de algo que no passado foi
destruído pela nossa imprudência ou ignorância. A realização de uma tarefa
que noutra época nos pareceu pouco compensadora, ou demasiado difícil, ou
tediosa, mas que sabemos necessária e adiada. Ou colocar na devida ordem
coisas velhas, abandonadas, esquecidas e desorganizadas, que há anos
atiramos no sótão e cujo peso um dia fará o teto desabar. São opções

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sadias e benéficas que Saturno nos propõe, por que não aceitá-las? Acaso
darão mais trabalho que um osso quebrado ou uma crise suicida? Talvez
assim pareça, para alguns, à primeira vista, mas aqueles que aceitarem o
desafio e assumirem voluntária e prazerosamente esse lado positivo, poderão
saborear, como um delicioso manjar, o gosto de uma vitória íntima, uma
batalha ganha sobre nós mesmos - e sobre as poderosas forças vindas do
espaço -; e sentirão como a pesada nuvem de Saturno, com seu imposto
inexorável, se desvanecerá por si, deixando apenas um rastro de satisfação,
uma consciência de poder e de saber que faz o homem crescer internamente
e sentir-se mais perfeito, mais sábio e mais próximo do Criador.
Ao fim da quadratura avaliamos o seu saldo, e, com surpresa,
descobrimos que criamos qualquer coisa de maravilhoso, que deixamos uma
semeadura fértil, cujos frutos colheremos por muitos anos; que gerações
seguidas nos recordarão com gratidão por uma obra admirável que legamos,
e que um tempo de resignação e esforço dedicado levantou todo um edifício
sólido, durável e belo, que nos abrigará da intempérie e mostrará seu valor e
utilidade futura. Enfim, diremos que a tarefa não foi assim tão penosa, e,
além de tudo, nos deixou mais ricos de alguma forma. Tal como Tom
Sawyer, o famoso personagem de Mark Twain, aprenderemos que caiar um
muro não era afinal uma punição, e nem sequer um trabalho, mas uma
atividade simples, onde a alma sem preconceito poderia encontrar alegria e
até mesmo certo encanto. É assim, apenas com uma nova disposição de
espírito, que o chumbo de Saturno se transforma no ouro solar. Como nos
ensina o velho Hermes: "A verdadeira transmutação é uma arte mental".

52
Capítulo 05

53

54
o princípio era o verbo... e o verbo estava com Deus, e o
verbo era Deus". Esse texto da Gênese bíblica nos sugere
nitidamente que, se havia algo antes da Criação, era o som, e
esse som era do próprio Criador. No antigo texto hebraico
Bereshit bara elohim (No princípio criaram os deuses), bara
significa falar e também criar, ou criar pela palavra. Num texto ainda mais
antigo, inscrito nas Pirâmides da 5ª e 6ª dinastias egípcias - 2500 a.C. - se lê:
"Não havia céu, nem terra, nem homens. Os deuses não haviam nascido e
ainda não havia mortos. Os germes de todo ser e de todas as coisas se
encontravam em estado latente, confundidos no abismo de Num [O Caos].
Nele flutuava, Tem espírito divino indefinido, que levava em si o conjunto
das existências futuras. Carecia de consistência, de estabilidade e deforma.
Por fim, desejou criar e empregou a voz para expressar seus desejos. Assim
apareceu Ra [O Sol] e a luz foi feita".
Neste extraordinário conceito de Cosmogonia, herdeiro, sem dúvida,
de uma sabedoria ainda mais antiga, proveniente das civilizações atlantes e
lemurianas - o Som aparece igualmente como o autor de todas as coisas e
origem de tudo quanto existe no mundo físico, a fonte de onde emanaram
todas as formas do universo visível. Curiosamente, Ra, que sempre
aprendemos significar Sol nas religiões egípcias, tem por significado
etimológico o verbo fazer. Não é difícil extrair daí a palavra latina Re, que
quer dizer coisa. Res-Publica = Coisa Pública. Do seu conceito solar, Ra
trouxe para as línguas modernas a equivalência da palavra Rei; em latim,
Rex. No sânscrito, Ry ou Ray quer dizer Rei, ou Reinar. Não tem outro
significado o Ri final da palavra Oshiri - que deu o nome Osíris. O O-shi
quer dizer "o nome de Deus". Assim, o significado completo de Osíris fica
como: o nome de Deus, Rei.

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A verificação de que tais nomes - especialmente aqueles que possuem
significado teogônico - sempre mostram entre si uma semelhança incrível,
iguais prefixos, iguais raízes, está a sugerir gritantemente que houve no
passado um único tronco lingüístico comum a toda a humanidade, da mesma
forma que houve obviamente um único tronco genético de todas as raças
humanas. Se somos todos descendentes das velhas raças atlantes, e antes
delas, dos lemurianos, hiperbóreos e chayas, como nos ensinam as tradições
esotéricas, nada mais compreensível que admitir que essas raças-matrizes
possuíam um idioma-mãe, do qual todas as línguas atuais são descendentes,
com maior ou menor grau de alteração ou adulteração.
Ora, é sabido por todos os etimologistas e estudiosos de línguas
arcaicas, que, quanto mais antiga a fonte escrita de um povo, mais ela se
assemelha à fonte de outro povo, igualmente antigo. Assim, é mais fácil
encontrar similitudes entre os textos vedas e os do Egito antigo, do que entre
o moderno árabe e o atual idioma hindi. E onde procurar as raízes desse
idioma-mãe de toda a humanidade? Poder-se-ia reconstituir essa língua
original através daquilo que se conhece das línguas arcaicas, cujos
testemunhos sobreviveram até nós em forma de monumentos de pedra,
blocos de barro, rolinhos de papiro, tabuinhas, chapas de metal, estátuas,
vasos de cerâmica, tótens, restos de muralhas, colunas rachadas, tecidos
pintados e gravações nas rochas de cavernas?
Os estudiosos assim afirmam. E mais que isso, se basearam em algo
que os cientistas acadêmicos olham em geral com absoluto ceticismo:
tradições orais, transmitidas durante vários milênios, através das gerações.
Mas, basta um bom observador para captar as semelhanças que existem
entre idiomas falados por raças geograficamente muito distantes e
etnicamente muito diferentes entre si. Falaremos mais adiante de alguns
exemplos que mostram raízes gregas e sânscritas no tupi, uma das principais
línguas faladas pelos índios do Brasil.
Mas antes vamos tentar descobrir qual é essa língua original da Terra
e como ela era falada. As fontes devem ser procuradas nos chamados
idiomas mântricos - aqueles cujos sons são geradores de imagens - e isso nos
remete aos símbolos gráficos mais antigos conhecidos pela humanidade.
Trata-se dos alfabetos primitivos, ideogramáticos, e dentre eles se destacam
- pela semelhança entre si, pelo número total de símbolos usados e pela
peculiaridade de serem atribuídos a eles valores numéricos

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Numa síntese magnífica, a equivalência dos alfabetos antigos e modernos, signos
zodiacais, planetas e notas musicais

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e tonais, além dos simples valores fonéticos, que qualquer idioma utiliza - os
seguintes: o hebraico, o hieroglífico, a escrita hierática, o fenício arcaico e o
vattan. Todos eles possuem 22 caracteres, e sua representação gráfica
identifica todos entre si por uma semelhança impressionante. Conclusões
muitíssimo interessantes podem ser acrescentadas se incluirmos nessa lista
os caracteres do grego arcaico, que, entretanto, utilizava um alfabeto de 26
símbolos, fugindo assim de uma regra clássica que, como vamos ver,
empresta um significado cósmico ligado às próprias origens do universo, ao
poder criador do verbo - ou da palavra - e à força mágica dos sons quando
pronunciados da forma adequada.
Veremos que, não só por direitos de antigüidade, mas pelo valor
cabalístico - vale dizer zodiacal - é mais conveniente estudar os caracteres
do sânscrito e principalmente do vattan. Os símbolos do vattan, segundo os
Vedas - escrituras sagradas dos brâmanes - se prestam de maneira admirável
a correspondências numéricas, produzindo combinações que revelam, por
variados somatórios, semelhanças e resultados gráficos, sonoros, musicais,
morfológicos, astrológicos, vibratórios, Cromáticos, arquitetônicos,
matemáticos, etc, que lançam uma luz inesperada no sentido etimológico de
palavras de igual significado em idiomas bem diferentes. Trata-se de um
alfabeto esquemático, formado por quatro símbolos básicos, que se
compõem ou se desdobram para formar sons e palavras cujo sentido deve ser
somado, da mesma forma como se faz com seus valores numéricos.
Os símbolos básicos são: o ponto, a linha, o círculo e o triângulo. O
idioma vivo, tal como era falado, é o sânscrito, a língua sagrada em que
estão escritos os textos vedas. O som A era um traço. 0 som N era o círculo,
ou semicírculo. O som M era o ponto. O som P era o triângulo. As demais
letras são combinações estilizadas dos quatro símbolos básicos. As
equivalências fonéticas do vattan, sânscrito e línguas latinas são as que se
seguem, associadas à respectiva correspondência numérica,
zodiacal-planetária e musical. Três letras não possuem equivalência
zodiacal-planetária. São chamadas as Três Letras Constitucionais, algo como
os Três Símbolos Primordiais da Criação:
A, cujo símbolo é um traço, vertical, horizontal ou inclinado; equivale
ao Alef hebraico, Alfa grego, início de quase todo alfabeto fonético. No
Tarô, corresponde ao Mago, o Homem Perfeito, a Unidade, o princípio dos
Atos, a vontade divina;

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Os símbolos das letras dos alfabetos, assim como os números, reproduzem a
imagem dos signos zodiacais e planetas, e emanam a vibração musical
correspondente

S, cujo símbolo é dois pontos, 15ª letra do alfabeto vattan; no


Tarô, corresponde ao Diabo, cuja carta é representada por dois jovens,
homem e mulher (os dois pontos) unidos por um laço que une a cintura
da mulher ao pescoço do homem. Símbolo inequívoco dos laços da
matéria que prendem o homem à Terra e controlam seu destino.
Finalmente, Th, cujo símbolo é uma serpente em S; última letra
do alfabeto vattan, encerra o ciclo cósmico na figura do mundo; No
Tarô, onde aparece uma jovem no centro de uma serpente em elipse, e
nos quatro cantos as figuras básicas da Esfinge: o Homem, o Leão, a
Águia e o Touro. Representa o mais alto grau de iniciação e mostra um
poder tal que não possui outros limites senão os da inteligência e
sabedoria. Mostra também o poder do homem sobre os quatro
elementos da natureza, fogo (Leão), Água (Escorpião-Águia), Terra
(Touro) e Ar ( Aquário), que constituem o mundo físico e astral. Assim,
vemos que as três letras constitutivas correspondem à inteligência
primordial, cuja energia gerou o mundo através de um poder mágico - o
poder do som.

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As doze letras involutivas, que correspondem aos doze signos do
Zodíaco, mostram um poder latente, de natureza passiva, cuja força é
despertada pelas sete letras evolutivas, que possuem energia vibratória
própria, movimento e poder intrínseco. A combinação das vibrações
zodiacais e planetárias - mais as energias das letras constitutivas - produz
vocábulos cujo significado deve ser abordado à luz do conhecimento
hermético. Assim, por exemplo, a palavra Kabala, sobre a qual alguns rios
de tinta já foram gastos em livros pobres em valor iniciático, mas cheios de
armadilhas e labirintos - significa, em sânscrito:
KA tem equivalência numérica = 20. É Marte, a masculinidade.
BA = 2, a Lua, feminilidade.
LA = o poder, potência verbal, dom recebido.
Resultado: KA + BA = LA, ou seja, o dom, o poder dos 22 símbolos
ou letras - ou o poder criador da união do homem com a mulher.
Outros resultados impressionantes podem ser obtidos, produzindo
nomes próprios e palavras com significado básico em sânscrito - herdeira do
vattan - e correlações em outros idiomas. Exemplo: pensemos na figura e no
nome de Jesus, em hebreu Isho, ou Ipho. Jesus nasce de uma Virgem,
portanto, coloquemos o início no respectivo signo.
Seu valor fonético, efetivamente, é o I. Seguindo a ordem do triângulo
da Terra, obtemos os símbolos subseqüentes, F em Capricórnio e O em
Touro. Ipho, o verbo de Deus, em sânscrito = Isho, que no vattan pode ser
lido da direita para a esquerda, indiferentemente; invertido, Oshi produz o
nome da divindade egípcia Oshi-Ri, onde Ri = Ra, rei, como vimos no
início. Portanto, Osíris é Jesus, com idêntico significado de divindade solar.
Vejamos agora a segunda figura do Cristianismo, Maria. Nada mais correto
que procurar uma figura feminina nos signos da água. Ora, água, em vattan,
é Ma, que possui também o significado de mar, tempo, luz refletida, e
também morte. Vida e morte, só pode ser Escorpião! Com efeito, Ma,
seguido das demais letras zodiacais da triplicidade da água, vai resultar em
Ma-ra (ou Re, Ri) - He (ou Ha) = Ma-Ri-Ha. Ainda dentro das equivalências
numéricas, Ma tem valor 40 e quer dizer água, princípio da vida. Daí,
derivam os vocábulos Mãe, Mar; na sua inversão Am - com significado de
"sair de dentro" - produziu amar, amor.
Água, em todos os dialetos originados do vattan e emigrados para as
várias partes do mundo - incluindo as Américas - é ATL - donde vieram
Atlas, Atlântico, Atlântida. A divindade azteca Quetzal-coatl quer dizer "que
veio

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do mar". E que soma nos dá ATL? A =
1;T = 9; L = 30, portanto ATL = 40:
exatamente como Ma = 40. Outro
exemplo é o som vocal mântrico Om, o
som da criação dos mundos.
É gerado a partir da letra zodiacal
correspondente a Touro (= O) e parte
para sua polaridade oposta, Escorpião,
que é M. A pronúncia vocal da letra O
cria no oscilógrafo a figura de um
círculo - um dos símbolos básicos do
Pronunciando longamente o som Om, alfabeto vattan. Já o som Om produz a
projeta-se no espaço uma imagem mandala constituída de múltiplos
semelhante a esta mandala triângulos em perspectiva. As catedrais
góticas foram construídas segundo
determinadas notas musicais. Assim, há uma catedral na nota Sol, outra na
nota Fá, etc. Os antigos construtores conheciam o segredo da edificação de
templos e monumentos conforme os cânones da Geometria Sagrada. Formas,
medidas e orientação dada por posições astronômicas especialmente
escolhidas eram capazes de gerar harmonia sonora e figuras projetadas em
dimensões sutis. Tudo com a intenção de produzir estados devocionais ou
contemplativos de consciência.
Um experimento muito interessante e fácil de reproduzir pode mostrar
o poderoso efeito dos sons sobre os seres vivos. Colocam-se duas plantas
trepadeiras em idênticas condições de iluminação, umidade, etc, em
ambientes separados; junto a cada uma delas, um alto-falante. Para uma das
plantas, toca-se música orquestral muito suave; para a outra, ritmos
modernos, barulhentos, com batuques alucinantes. A primeira planta cresce
na direção do alto-falante, chegando a abraçá-lo por inteiro. Permanece viva
e saudável. A segunda cresce na direção oposta, tentando fugir dele. Pouco
tempo depois, começa a secar e finalmente morre. Por aí se pode deduzir o
efeito que produz nos seres humanos o ruído urbano e o som das bandas
jovens no mundo atual!
As línguas-matriz - os primeiros idiomas falados pela humanidade -
eram monossilábicas, constituídas de vocábulos simples, reduzidos a
símbolos fonéticos. A combinação de dois símbolos básicos produzia uma
palavra

61
de significado igualmente combinado. Assim, "A" expressa, tanto em grego
como em sânscrito, unidade e universalidade. Unida à letra solar Na produz
Ana, que expressa a marcha solar de um solstício a outro. Va (ou Ua) =
soprar como o vento. Ha = chamada, vocação, força atrativa. Va -Ha =
veículo, tudo que leva, carrega. Daí vem Wog (no escandinavo), Weg
(alemão), Way (inglês), Vehia (etrusco), Via (latim) = Caminho. Vi = Olho.
Ba = base, vaso, receptáculo Vi-Ba — luz, resplendor. E Vid significa
Conhecer, conhecimento divino. Veda vem dessa raiz. Em latim, deu Videre
= Ver.
Na língua tupi - também monossilábica aglutinante - se encontram
alguns exemplos muito interessantes. Pó = Mão; poã = dedo da mão. E
poã-guassu = dedo grande da mão, ou o polegar (guassu quer dizer grande).
Y = água, rio, líquido. Sá ou Essa = olho. Essa-y — lágrima. Py (ou pé) =
interior, centro, parte de dentro, (também quer dizer soprar, tocar
instrumento de sopro). Ara = nascer, dia, sol, luz, mundo, tempo,
entendimento, juízo. Py-Ara = saber bem, conhecer a fundo. Mo
— tender, mover. A = eu. Py = dentro, por dentro. Ra = verdade. Mo - A
- Py - Ra = concluir, chegar a uma explicação.
Eis aqui algumas equivalências no tupi que são pelo menos muito
intrigantes:
Pyri quer dizer perto de, junto de. Peri, em grego, quer dizer
exatamente a mesma coisa: perto, junto, próximo, (peri-hélio quer dizer
perto do Sol). Outra: Pá (ou Pã) = tudo, todos, todas. Compare com o grego
PAN = todo, tudo. A = eu (a unidade, a letra inicial, o começo de tudo) Pois
A significa, em tupi, fruta, grão, semente, redondo e, em palavras compostas,
quer dizer cabeça! Aba quer dizer homem, pessoa. Uba (ou Tuba) = Pai e
também ova de peixe. Em árabe, AB quer dizer Pai. BA = base, vaso, sentido
de origem, início.
Outra curiosa composição de monossílabos: Sy = Mãe; Ja =
semelhante, do mesmo tamanho; Jassy = Lua, semelhante à mãe; Tá =
nascer, nascido; Jassy - tata = estrela (ou nascido da Lua); Bebé = voar;
Jassy - tatá - bebé = estrela cadente; Itá = pedra. Juba = amarelo. Ita - Juba =
ouro! Upiá = ovo. Upia -juba = gema de ovo. Ca tem sentido de cair,
quebrar, ferir, cortar, bater, agredir. Caia quer dizer pegar fogo. Não é
curioso que Ka seja a letra que corresponde a Marte no vattan?
Vamos agora ver de que maneira os sons produzem vibrações, e com
elas, formas. A emissão do som da nota Sol produz em placa vibratória
apropriada à forma de uma dupla sinusoide - símbolo do infinito em

62
Esquerda: sons produzem formas. Numa placa vibratória com areia fina, o som "dó
maior" gera este desenho. Direita: desenho formado na placa vibratória por uma
seqüência musical

matemática. É, contudo, a forma mais simples que se pode produzir com


uma nota musical. Eqüivale a Mercúrio e aos dois signos que ele
governa, Virgem e Gêmeos. Com efeito, é nele que começa o som
primordial Y, em hebraico Yod, origem do trígono do Verbo Divino
Yfo. Todas as outras notas produzem formas complexas, rosáceas e
combinações.
Observando certos desenhos formados em placas vibratórias,
notam-se semelhanças entre o som FA # e o Dó natural. Fa # é Libra,
Vênus. Dó natural é Júpiter, Sagitário e Peixes. Não dizemos que Vênus
foi tirada da espuma do mar - Peixes - que Vênus e Júpiter são da mesma
natureza benigna e protetora? Vênus se exalta em Peixes. A combinação
de Vênus e Júpiter em forma de metais - cobre e estanho - dão o bronze,
o sino da mais bela sonoridade, usada para fins sagrados. Sons
harmoniosos em seqüência produzem belíssimas combinações gráficas, o
que quer dizer vibrações pacificadoras e regeneradoras. Pesquisadores
afirmam que a música de Mozart gera as formas mais harmoniosas e
suaves que se conhecem, assemelhando-se a flores em belíssimas
composições.

Conclusão

Somos o resultado de um conjunto de forças representadas pelo


Zodíaco e pelos planetas. A presença deles está marcada em nossas
células, flui por nossos nervos, corre em nosso sangue, impregna a
composição química de nosso corpo físico e a essência de nossos corpos
astral

63
e mental. Povoa nossa memória e preenche todos os nossos atos, sentimentos
e idéias. É através do som das esferas celestes que a influência do universo
atua em nós, criando energias magnéticas, organizando sua disposição e
gerando cada um de nossos estados de ânimo.
Compreendendo a linguagem sonora do universo e interpretando
corretamente as imagens que ela projeta em nós, saberemos usar os símbolos
verdadeiros que representam a própria essência de nossa vida. 0 uso do
alfabeto que simboliza o Zodíaco e suas esferas em movimento cria em nós
um efeito de ressonância, tornando-nos capazes de agir no plano físico e
astral com energias que podem ser chamadas mágicas, já que podem alterar
as condições do ambiente e provocar fenômenos ditos paranormais. É nesse
momento que despertamos nossa superconsciência e nos tornamos como o
Deus de quem possuímos a centelha primordial, e adquirimos, como seus
filhos, o dom de criar com a palavra, com o verbo.

64
Capítulo 06

65
66
m 1618, Jan Baptist van Helmont - o famoso médico e químico
belga a quem a Ciência deve a descoberta dos gases e a
identificação do dióxido de carbono - quando trabalhava em seu
laboratório, em Vilvoorde, foi procurado por um desconhecido que
desejava "conversar sobre uma matéria que interessaria a ambos".
Julgou tratar-se de um colega, que quisesse abordar assuntos médicos, mas
logo o estranho começou a falar sobre Alquimia. Helmont, um pouco
aborrecido, interrompeu-o dizendo que considerava a Alquimia uma
superstição e que não desejava perder tempo com tal tolice. O estranho não
insistiu na conversa, mas lhe propôs simplesmente deixar em suas mãos uma
pequena porção da Pedra Filosofal, para que Van Helmont, pessoalmente,
efetuasse a experiência da transmutação, sozinho e nas condições por ele
mesmo escolhidas.
O misterioso visitante depositou então alguns grãos de pó sobre um
pedaço de papel que havia sobre a mesa do químico e despediu-se. O sábio
escreveria mais tarde: "Vi e manipulei a Pedra Filosofal. Tinha a cor do
açafrão em pó e era pesada e brilhante como vidro em pedaços". Decidido a
tentar a experiência, o químico preparou um crisol, onde colocou oito onças
- cerca de 230 gramas - de mercúrio metálico. Aqueceu-o um pouco e em
seguida atirou sobre ele uma pequenina porção do pó, previamente
embrulhada num pedaço de papel, seguindo à risca as instruções do
desconhecido. Tampou o recipiente, e, após alguns minutos, esfriou o crisol
com água e o quebrou: um pedaço de ouro com praticamente as mesmas oito
onças de peso descansava no meio dos cacos. O relato dessa experiência,
Van Helmont escreveu, assinou e publicou. O

67
evento o marcou profundamente, modificando por completo seus pontos de
vista científicos e filosóficos. A tal ponto que batizou com o nome
Mercurius um de seus filhos. A Enciclopédia Britânica emite a seguinte
opinião sobre ele: "Pode ser considerado uma ponte entre a Alquimia e a
Química. Embora de natureza mística e acreditando na Pedra Filosofal...
era um observador cuidadoso e experimentador exato".
Helvetius - Johann Friedrich Helvetius - nasceu em Anhalt em 1629,
cujo verdadeiro nome era Johann Friedrich Schweitzer, foi um sábio
conceituadíssimo e médico do príncipe de Orange. Adversário ferrenho da
arte hermética, foi, da mesma forma que Van Helmont, procurado por um
desconhecido, em dezembro de 1666. O estrangeiro, após algum tempo de
conversa, lhe apresentou uma caixinha contendo um pó amarelado,
afirmando tratar-se da Pedra Filosofal. Ele deixou que o médico apalpasse a
substância, mas recusou-se a lhe dar qualquer fragmento da mesma. Depois
de contar maravilhas sobre os poderes curativos do seu pó e narrar umas
quantas experiências de transmutação, o estrangeiro, após muita insistência,
finalmente concordou em lhe dar de presente um pequeno fragmento, tão
pequeno que Helvetius duvidou que pudesse converter sequer alguns grãos
de chumbo - isso no caso pouco provável de que o pó fosse autêntico.
Diante da reclamação de Helvetius, o estrangeiro pediu de volta o
pozinho. Mas, ao invés de aumentar a dose, o que fez foi cortá-lo pela
metade, assegurando ao médico que a minúscula fração seria mais que
suficiente. Ainda cheio de dúvidas, Helvetius fez a experiência utilizando
um velho cano de chumbo, que ele derreteu num cadinho. Após alguns
minutos, todo o chumbo estava transformado em ouro. A amostra foi
rigorosamente examinada por dois ourives e até pelo próprio controlador das
moedas da Holanda, mestre Povelius, que a consideraram do mais alto grau
de pureza.
O mesmo Helvetius fez um minucioso relato dos acontecimentos em
sua obra Vitulus Aureus (0 Bezerro de Ouro). Um extrato dela foi traduzido
diretamente do latim por Bernard Husson e publicado no nº 59 da revista
francesa Iniciação e Ciência. A Biblioteca do Museu de História Natural de
Paris possui um exemplar original dessa estranha obra, com 72 páginas em
formato reduzido, impressa em finos caracteres, exatamente como foi
publicada pela primeira vez. O relato de Helvetius foi devidamente
autenticado pelo testemunho mais que confiável do grande

68
Em postura de profunda reverência, o casal de alquimistas observa o Athanor (forno),
dentro do qual se misturam as substâncias secretas

69
filósofo Benedict de Spinoza. Este foi convidado por seu editor, Jarig Jellis,
a viajar para Haia, a fim de averiguar pessoalmente os fatos. A transmutação
feita pelo médico era assunto de comentários em toda a cidade, e Jellis
pressentiu que ali encontraria uma grande matéria para publicar. Spinoza,
prudente, visitou primeiramente o ourives Brechtelt, que havia recebido das
mãos de Helvetius o cadinho ainda quente da fundição. O ourives lhe contou
então que, ao fazer o teste da inquartação, que se faz juntando três partes de
prata pura para cada parte de ouro a ser avaliado, havia achado o tal ouro
muito estranho, pois toda a prata adicionada no teste se havia convertido
igualmente em ouro!
Spinoza completou a sindicância entrevistando o próprio Helvetius,
que lhe mostrou o cadinho, assim como o ouro convertido, e prometeu
publicar tudo em detalhes. O filósofo relatou os resultado de sua pesquisa
numa carta dirigida a Jallis em 25 de março de 1667, que foi fielmente
reproduzida em 1805 na Alemanha, na obra Notícias sobre o assunto das
Transmutações, de autoria de Christian Gottlieb von Murr. Um relato em
tudo semelhante a estes de Van Helmont e Helvetius nos foi deixado pelo
filósofo italiano Berigard de Pisa. Várias transmutações foram efetuadas de
maneira quase pública, ou, pelo menos, na presença de diversas testemunhas,
que, invariavelmente, se cercaram de todas as precauções para evitar a
fraude. Algumas delas merecem ser contadas, levando em conta a
idoneidade absoluta das testemunhas e os altos cargos por elas ocupados.
Em agosto de 1693, em seu palácio, o duque Christian Eisenberg de
Saxe Gotha efetuou a transmutação de 750 gramas de chumbo em prata
pura. Ele também havia recebido o pó transmutatório de um desconhecido,
desta vez pelo correio. O Dr. Wilhelm Tentzel, historiógrafo da Casa de
Saxe-Gotha, e autor de uma publicação oficial do ducado, nos dá conta que
"foram cunhadas apenas sete medalhas com o chumbo transmutado em
prata muito fina e durante uma configuração astrológica particular de
Vênus e Marte". A medalha teria assim um caráter de talismã.
Entretanto, o duque era ele mesmo um profundo conhecedor de
Alquimia, conforme nos atesta o próprio Tentzel. Naquela época ele já seria
possuidor do segredo da Pedra Filosofal, pois em 1684 havia feito cunhar
uma única medalha em ouro alquímico produzido por ele mesmo no enorme
laboratório de seu palácio de Eisenberg. Nela está representado, numa das
faces, o escudo da família de Saxe com a coroa ducal, e a data 1684; na
outra face, uma palmeira, conhecido símbolo alquímico que se reporta ao

70
No laboratório, os alquimistas medem com precisão as quantidades e proporções das
substâncias e a regulagem do fogo para a cocção do "ovo"

71
seu nome grego, phoenix, a lendária ave egípcia gerada pelo Sol e adorada
em Heliópolis. Ao redor da palmeira, os dizeres enigmáticos "Sat cito quia
sat bene", que se pode traduzir por "assaz cedo, porquanto assaz bem".
O irmão mais velho do duque Christian, e que veio a ser Frederico I
de Saxe-Gotha, foi outro estudioso da Alquimia, tendo com certeza atingido
a plenitude de seus mistérios. Há uma carta reveladora que ele enviou ao seu
conselheiro privado, Von Echt, com respeito à aquisição de uma propriedade
na qual estava muito interessado: "Seria lucrativo comprá-la, diz ele, se ao
menos tivéssemos fundos suficientes. E se meus projetos derem certo até o
Natal, teremos dinheiro bastante para comprar dez vezes mais. Mas há aqui
um segredo, que não posso revelar, para que não se riam de mim caso eu
não tenha sucesso". Ora, ele parece ter tido êxito, pois nesse mesmo ano ele
fez cunhar em ouro vários florins com sua efígie numa das faces e símbolos
alquímicos na outra, cercados de dizeres alusivos ao seu sucesso. Também
na mesma época ele fez numerosas doações milionárias a igrejas e obras de
caridade.
Em julho de 1716, um Adepto - talvez Lascaris, um nome que aparece
freqüentes vezes no panorama alquímico da Europa - organizou em Viena,
não uma, mas toda uma série de transmutações, às quais ele não esteve
presente. Uma delas foi feita a 19 de julho daquele ano, e foi objeto de uma
descrição minuciosa em forma de ata. Dela nos dá fé o notário juramentado
do Império - o equivalente ao nosso atual tabelião - Georges Henri Paricius.
Eis o resumo do relato:
O cenário: a rica residência de alguns nobres da Áustria. Há à
disposição um requintado equipamento de laboratório. E então aí se reúnem
altos dignitários do Santo Império.
Os personagens: Joseph, conde de Wurben e Freudenthal, conselheiro
privado de Sua Majestade Imperial e vice-chanceler do Reino da Boêmia; o
barão Wolfgang von Metternich, príncipe de Brandeburg, e seu irmão
Ernest, conde de Metternich, conselheiro privado de Sua Alteza Real da
Prússia e ministro delegado na Corte Imperial de Viena; Culmbach e
Onoldin, conselheiro privado e delegado no Conselho do Império; e
Wolfgang Philipp Panzer, conselheiro Áulico do Príncipe Schwartzenburg, e
também seu filho, Johann Christoph Pantzer, sendo estes últimos os donos
da casa. O distinto grupo trabalhava em segredo no laboratório, e, com uma
partícula ínfima de pó filosofal, pretendia descrever com precisão uma
experiência de transmutação de cobre em prata. A novidade da experiência

72
era que os objetos da transmutação (duas peças) não foram fundidos, mas
apenas aquecidos. A primeira peça - uma moedinha de cobre - foi pesada
previamente e depois aquecida sobre carvões. Em seguida, foi retirada das
brasas e sobre ela se pincelou rapidamente o bastão de cera que envolvia a
partícula do pó. Ocorreu então um pequeno acidente. A moeda, ainda não
transmutada, e parcialmente colada ao pó de projeção, caiu na água
reservada para o resfriamento das peças; a moeda, vermelha ao cair na água,
se tornara branca ao sair dela. Obviamente, as propriedades do pó haviam
sido transferidas para a água, e então eles atiraram a segunda peça,
levemente aquecida, dentro da mesma água - e a recolheram instantes
depois, igualmente transformada na mais pura prata.
Várias moedas foram assim atiradas na água, uma a uma, e os efeitos
anotados em detalhe, sendo que a penúltima peça mostrou uma transmutação
apenas parcial, e a última não apresentou qualquer mudança, tendo já,
naturalmente, se esgotado o poder transmutatório do pó dissolvido na água.
A ata da experiência foi redigida no correr da mesma, e em seguida assinada
por todos os presentes. As moedinhas, conforme a praxe, foram repartidas
entre os operadores. A ata finaliza com a importante observação de que
todas as moedas haviam aumentado de peso, um mistério tão bom quanto o
da própria transmutação. Essa ata possui um valor muito especial, sendo um
dos raros documentos por assim dizer "oficiais" a comprovarem a realidade
da transmutação.
Outra experiência que vale a pena mencionar foi procedida no recinto
da Universidade de Praga, a 06 de setembro de 1728, desta vez perante todos
os professores reunidos. O objeto da transmutação foi uma moeda de baixo
valor, já fora de circulação, que recebeu previamente o atestado de um
ourives quanto à sua baixa porcentagem de prata. Como garantia adicional,
foi marcada, a golpe de martelo, com letras identificadoras, a fim de evitar
qualquer possibilidade de troca ou fraude. Aqueceu-se a pequena peça sobre
carvões em brasa, tal como na experiência de Viena, e por cima dela se
colocou uma partícula do pó transmutatório.
O pozinho girou várias vezes sobre a moeda, e em seguida esta foi
retirada das brasas e esfriada. Verificou-se que estava inteiramente
transmutada em prata puríssima, o que foi atestado por um ourives. A moeda
foi cortada em vários pedacinhos, e estes distribuídos entre os presentes. O
relato desta experiência foi elaborado por Johann Jacob Geelhausen, doutor
em Filosofia e em Medicina, professor da Universidade Imperial de Praga.

73
Uma transmutação efetuada em Praga em janeiro de 1648 foi igualmente
comemorada com a cunhagem de uma medalha em ouro alquímico, esta
agora com dimensões bastante avantajadas. Várias dessas moedas e
medalhas podem ser contempladas dos museus de Praga, cidade que parece
ter sido uma espécie de paraíso dos alquimistas durante uns três séculos.
Pouco após a morte do rei Gustavo Adolfo, em 1632, foi cunhada
uma moeda de circulação corrente, com motivos alquímicos - os emblemas
do enxofre e do mercúrio. Desta vez não se comemorava uma transmutação,
mas se fazia uma homenagem ao rei tombado nos campos de batalha, em
defesa da causa protestante. Uma tradição local relata que a presença desses
símbolos alquímicos na moeda de Gustavo Adolfo se deve ao fato de ter a
cidade de Erfurt oferecido ao rei trinta mil ducados de ouro filosofal. Outro
caso curioso foi a cunhagem de dois thalers - moeda corrente - em ouro e
prata de procedência alquímica, pelo príncipe Ernst-Ludwig von
Hesse-Darmstadt, em 1716. Ele era apaixonado pela Alquimia, mas não
tinha alcançado êxito na sua busca da Pedra Filosofal. Como era já um
hábito, ele recebeu certo dia, pelo correio, uma remessa anônima de duas
amostras de pó transmutatório, uma para a prata, outra para o ouro,
acompanhadas de instruções para sua utilização. Dois especialistas
contemporâneos nos dão conta da origem alquímica dos metais em que as
moedas foram cunhadas, explicando que o ouro foi suficiente para cunhar
apenas algumas centenas de ducados.
O segredo alquímico não consiste apenas na obtenção de ouro e prata.
Ele permite também alcançar a "panacéia universal", ou seja, o remédio
contra todas as moléstias que afligem o homem - e igualmente aplicável a
todo o reino vegetal e animal. Sob a forma de um elixir, atribui-se-lhe o
poder de curar qualquer doença, rejuvenescer e prolongar a vida. Bebido
periodicamente na quantidade e na época certa, torna o homem imortal e
permanentemente jovem - embora não o possa preservar na hipótese de
morte violenta, conforme veremos.
Os relatos de rejuvenescimento através do elixir são
consideravelmente mais difíceis de se documentar, e o próprio Bernard
Husson, sempre tão criterioso em reunir fatos comprovados e o quanto
possível verificáveis, se mostra cauteloso em aceitar histórias baseadas numa
só testemunha. Mas ele cita um caso interessante, que foi presenciado por
um médico francês de nome Hauton, em 1665. Ele conhecia de perto o Sr.
de Saint-Clair Turgot, homem rico, já entrado em anos e um confesso

74
A Serpente Ouroboros, inserida num antigo texto alquímico grego, expressa a
repetição circular e contínua das operações alquímicas

75
alquimista. Certo dia, o alquimista deu por terminada - com êxito - sua busca
do elixir da longa vida, e, após elogiar suas fantásticas virtudes, o Sr. Turgot
bebeu uma boa dose dele. Também ofereceu uma colherada a um velhote
que o visitava de vez em quando, mas este, desconfiado, engoliu a
contragosto algumas gotas, e foi embora.
Apenas em casa, o pobre velho sentiu-se muito mal, coberto de
terríveis suores. Ao descobrirem os parentes que ele havia tomado alguma
beberagem estranha, mandaram depressa procurar o alquimista, para que
enviasse um remédio capaz de desfazer o mal que causara. 0 alquimista foi
encontrado morto, estendido em seu laboratório. Quanto ao velho, depois de
passar vários dias com muita febre, perdeu todos os dentes, o cabelo, as
unhas e toda a pele do corpo. Mas, depois, seu cabelo, que antes era todo
branco, renasceu preto, os dentes, pele e unhas voltaram a crescer, e ele
readquiriu o vigor físico da juventude. O Sr. Hauton, nossa testemunha,
reviu o velho em Paris 38 anos após esta aventura, e o achou na mais
perfeita saúde, contando já 113 anos de idade.
Um segundo relato que nos fala do precioso elixir se refere ao famoso
conde de Saint Germain. É uma das figuras mais enigmáticas de que se tem
notícia. Sua existência histórica é comprovada, mas dela só se conhece um
curto período, que começa em 1743, em Londres, quando a justiça inglesa o
prendeu como suspeito de espionagem. Horace Walpole, conde de Orford,
escritor e cronista da época, nos conta: "Lá está ele, preso há dois anos, e se
recusa a dizer quem é e de onde vem, mas admite que não usa seu
verdadeiro nome". Foi descrito como um homem de estatura mediana, de 45
anos mais ou menos, muito amável e conversador.
Passou alguns anos na Alemanha, e freqüentou a corte de Luís XV em
1758. Mme. Pompadour o descreve então como um homem de seus 50 anos,
com uma fisionomia delicada, espiritual, que se vestia com simplicidade,
mas muito bom gosto. Usava belos diamantes nos dedos, na tabaqueira e no
relógio. Foi íntimo de Luís XV, que lhe concedia entrevistas particulares.
Essa intimidade despertou o ciúme do ministro Choiseul e acabou sendo a
causa de sua desgraça e de seu exílio.
Consta que passou os últimos anos de vida no castelo de Hesse, onde
teria morrido em 27 de fevereiro de 1784. Entretanto, sua "morte" ocorreu
durante uma das ausências do proprietário do castelo, o que deixa pelo
menos uma dúvida. Ele efetuou duas transmutações na corte francesa, na
presença de numerosas testemunhas, e deixou bem claro que possuía o elixir

76
As três matérias iniciais da Alquimia: sal, enxofre e mercúrio, representados por
personagens antropomórficos, A operação corresponde às "águias", durante a qual se
"colhem'' o espírito aquoso e o azoth

77
da longa vida, que o usava sempre que era muito mais velho do que parecia.
Citava fatos históricos de séculos passados narrando pequenos detalhes,
como se tivesse estado presente. Referia-se a diálogos mantidos com figuras
históricas de 200 anos antes, interrompendo-se no meio da frase, como se
finalmente se tivesse dado conta de que ninguém entenderia nem acreditaria.
Falava todos os idiomas conhecidos, sem qualquer sotaque.
Sua história é bem documentada entre 1743 e 1784. Assim, se
quisermos comprovar se possuía o elixir, seria necessário procurar o
testemunho de pessoas que o tivessem conhecido antes ou depois dessas
duas datas limite. De fato, a Condessa de Gergy, embaixatriz da França junto
ao Estado de Veneza, encontrou o conde de St. Germain na casa de Mme.
Pompadour e ficou estupefata. Ela afirmou haver conhecido em Veneza, 50
anos antes, um nobre estrangeiro incrivelmente parecido com o conde,
porém, com outro nome. Ela naturalmente perguntou se por acaso não teria
sido seu pai ou um outro parente, mas o conde lhe confirmou que era ele
mesmo, em pessoa, que vivera em Veneza no século anterior, e para
prová-lo, lhe repetiu palavras e circunstâncias que só poderiam ser do
conhecimento de ambos. Nessa época, ele continuava a aparentar os mesmos
50 anos de idade.
Mas há um outro testemunho bastante intrigante da longevidade do
conde de St. Germain: Sir Winston Churchill, o primeiro ministro da
Inglaterra durante os duros anos da II Guerra. Ele mesmo nos conta em sua
autobiografia a história desse encontro, numa rua de Londres, semidestruída
pelos bombardeios alemães. Ante a situação insustentável do país, ele
acabara de tomar a terrível decisão de, no dia seguinte, render-se às forças
de Hitler. O estranho encontro lhe soou como um feliz presságio, e Churchill
decidiu esperar mais um pouco. No dia seguinte, a Alemanha cessou os
bombardeios sobre Londres, relaxando a pressão sobre a Inglaterra e
encetando a invasão da Rússia.
Eugène Canseliet, único discípulo do alquimista contemporâneo
Fulcanelli, nos apresenta um relato sobre seu reencontro com o mestre,
desaparecido trinta anos antes. Fulcanelli, já bastante idoso quando de sua
presumida morte, contaria nessa época cerca de 114 anos de idade, porém,
seu cabelo era preto, seus dentes, perfeitos e sua aparência era a de um
homem de 50 anos.
Nem sempre a vida dos alquimistas - fossem eles autênticos Adeptos,
fossem meros assopradores - foi um mar de rosas, como pode parecer à
primeira vista. Edward Kelly, por exemplo, nascido em Worcester,

78
Inglaterra, em 1555, foi um dos famosos assopradores. Após encontrar uma
pequena provisão de Pó Filosofal no túmulo de um bispo, passou boa parte
de sua vida tentando descobrir o segredo. Gastou, enquanto isso, sua
provisão, sem ter conseguido renová-la. Depois de muitas peripécias e
viagens, acabou numa prisão, em Praga. Morreu ao tentar fugir, saltando
pelos muros da prisão. Seu colega e colaborador de muitos anos, o Dr. John
Dee, conhecido ocultista e médium, não chegou a ser preso e até foi bem
recebido pela rainha Elizabeth I. Mas a multidão, que o tinha como
feiticeiro, incendiou sua casa, assim como seu laboratório e sua preciosa
livraria com 4 mil volumes raros. Passou miseravelmente o fim de sua vida.
Um dos maiores Adeptos da arte hermética, conhecido como
Cosmopolita, autor de um tratado alquímico considerado clássico, efetuou
várias transmutações públicas em diversas cidades. Em 1646, estava num
dos estados governados pelo duque de Saxe - antecessor dos irmãos
alquimistas Christian e Frederic - onde igualmente fez algumas projeções
notáveis. O duque o mandou prender, a fim de obrigá-lo a revelar o segredo.
Diante da recusa inabalável do Adepto, aplicou-lhe as mais terríveis torturas.
Com o corpo todo machucado, queimado por fogo e sem os nervos, que lhe
foram arrancados, o pobre homem foi procurado em sua prisão por
Sendivogius, que conseguiu retirá-lo de lá, subornando os guardas em troca
de uma rica provisão de pó filosofal.
Uma versão corrente nos conta que Cosmopolita acabou morrendo
pouco depois, dizendo que, se seu mal fosse natural e interno, seu elixir o
curaria, mas que seu corpo, quase morto pela tortura, e com os nervos
extraídos, não tinha mais como restabelecer-se. Começou então a odisséia de
Sendivogius, que fez algumas transmutações com o pó recebido do
Cosmopolita, inclusive perante a rainha Cristina, da Suécia, outra estudiosa
da matéria. Esta recebeu dele várias medalhas transmutadas apenas pela
metade, com as quais a rainha mandou fazer um colar.
Após alguns espetáculos, acabou nas malhas de um conde da Morávia,
o qual o fez prisioneiro, acreditando que ele possuía o segredo. Temendo ser
tratado da mesma forma que o Adepto, conseguiu fugir de sua prisão,
limando uma barra das grades. Denunciou o conde ao imperador e teve a
sorte de ser devidamente indenizado. Mas, em pouco tempo, havendo gasto
sua provisão de pó, viu-se na mais completa pobreza. Tomou dinheiro
emprestado, que não pôde pagar, e acabou como um charlatão, fingindo
transmutar moedas - e consta que colocou fraudulentamente

79
seu nome como autor da obra de Cosmopolita. Morreu, ao que parece, muito
pobre, cheio de achaques e bem velho, segundo nos relata Desnoyer,
secretário da rainha Maria de Gonzaga, da Polônia.
Uma outra hipótese, entretanto, foi sugerida pelo alquimista
contemporâneo Eugène Canseliet. Sendivogius seria na verdade o mesmo
Cosmopolita, que simulou sua própria morte, tratou-se com seu milagroso
elixir, curou-se e adotou outro nome. Teria em seguida se casado com a
ex-esposa de Cosmopolita - ou seja, sua própria esposa - e, afinal, assinou a
obra da qual era de fato autor.
A desgraça ocorrida a alguns Adeptos ensinou a todos a necessidade
de ser prudente e discreto. A cupidez dos poderosos, a perseguição religiosa
e a curiosidade do segredo representaram sempre os perigos maiores para os
iniciados, e até para os que fingissem possuir o segredo, como foi o caso dos
assopradores.
A igreja, que hoje se volta contra a Astrologia, começou em 1317 a
condenação oficial dos alquimistas, com a bula Spondent Pariter,
proclamada pelo Papa João XXII. "Os alquimistas nos enganam e prometem
o que não podem. Ordenamos que todos esses homens deixem para sempre
o país, assim como aqueles que mandam produzir para si o ouro e a prata e
se pessoas do clero estiverem compreendidas entre os alquimistas, estas não
encontrarão graça e serão privadas da dignidade eclesiástica". Pasmem,
mas era na época público e notório que o próprio papa João XXII se
entregava à Alquimia e deixou, após sua morte, tal soma de riquezas que
toda a corte lhe atribuiu origem hermética. E bem possível que tivesse
utilizado dos serviços de outros alquimistas - já que é bastante duvidoso que
ele mesmo tenha alcançado o conhecimento necessário para tal. Como
vemos, a história se repete.
A própria menção de membros do clero praticando Alquimia é
sintomática, mostrando que era atividade muito comum nos conventos e
mosteiros. De fato, vários Adeptos foram padres e monges, a exemplo do
beneditino Basilio Valentin. Temos, enfim, documentação farta e confiável
que comprova a realidade das transmutações nas mais variadas épocas,
circunstâncias e lugares do mundo. São abundantes os testemunhos, dados
numerosas vezes por sábios que antes se mostraram adversários da Arte
Hermética, de tal forma que se torna irracional e anticientífico negar tais
evidências. As medalhas e moedas estão por aí, repartidas entre os
colecionadores e os museus da Europa, a desafiar as explicações do mundo
acadêmico. De nada vale esconder a cabeça na areia, negar

80
A Via Seca da Alquimia - sugerida pela jornada através do deserto. Nesta fase se
colhem as "cinzas"

81
veracidade aos testemunhos, afirmar que um Helvetius e um Van Helmont
foram ludibriados, que tudo não passou de uma grande fraude. Os
alquimistas não foram em absoluto pessoas ignorantes, vítimas ingênuas de
prestidigitadores vulgares, nem perseguidores de vãs quimeras. Foram
homens de inteligência superior, conforme demonstram os escritos que
deixaram, cheios de uma profunda sabedoria universal, reveladores não só
de um conhecimento incrivelmente avançado, mas também de uma sólida
formação moral e rígidos padrões éticos e humanísticos.
Nem se pode imputar a eles, como querem alguns implacáveis
opositores, a ganância como meta principal de suas buscas. Não, o ouro não
seduzia absolutamente o espírito desses filósofos, que deixaram mais que
evidente o desprendimento necessário ao iniciado como uma das virtudes
fundamentais para alcançar o que eles sempre chamaram "o dom de Deus".
Nem mesmo a imortalidade física representava para eles a meta principal, já
que muitos preferiram a morte e a tortura à revelação de seu segredo. Eles
acreditavam na imortalidade da alma, mais que na do corpo, embora esta
pudesse ser igualmente alcançada.
Muito além e muito acima dos mesquinhos interesses materiais,
estava a transformação do próprio alquimista, o máximo aperfeiçoamento
espiritual, o suprema realização das possibilidades humanas em sua
existência terrena. Num encontro narrado por Louis Pawels e Jacques
Bergier, em sua obra O Despertar dos Mágicos, Bergier, nos anos finais da
Segunda Guerra, ouviu de um Adepto - possivelmente o próprio Fulcanelli -
a seguinte declaração: "Não ignoramos que, na ciência oficial em progresso,
o papel do observador torna-se cada vez mais importante. A relatividade, o
princípio da incerteza, lhe mostram a que ponto o observador intervém nos
fenômenos. Eis o segredo da alquimia: existe um meio de manipular a
matéria e a energia de maneira a produzir o que os cientistas
contemporâneos chamariam um campo de forças. Esse campo de força age
sobre o observador e opõe numa situação privilegiada em face do universo.
Desse ponto privilegiado, ele tem acesso a realidades que o espaço e o
tempo, a matéria e a energia, de hábito, mascaram. É o que chamamos a
Grande Obra".
Eles, os verdadeiros Adeptos, alcançaram, sim, sem dúvida, a
imortalidade, mas acima de tudo, encontraram esse estágio de evolução em
que matéria e espírito passam a ser parte de uma mesma dimensão. Numa
palavra, ultrapassaram a barreira do real - do nosso real. O enfoque da
transmutação do próprio alquimista recebe tal ênfase nos textos

82
Os quatro elementos - fogo, terra, ar e água - presentes no estudo da Astrologia e da
Alquimia

83
herméticos que iludiu alguns famosos autores, como Jung e Titus
Burckhardt, que acreditaram ser a alegoria da Grande Obra nada mais que
uma engenhosa seqüência de mandalas criada para direcionar a evolução
humana, e que tudo não passava de uma visão simbólica para representar o
homem em sintonia com a natureza. Entretanto, essa interpretação é
limitada. Certos autores não conseguiram alcançar a realidade muitíssimo
mais complexa do fenômeno da Alquimia, e sua oposição escondia uma
vontade mais ou menos inconsciente de evitar a necessária revisão de todos
os seus conceitos científicos para poder enquadrar fatos inexplicáveis dentro
de teorias acanhadas.
As figuras alegóricas do maravilhoso álbum do filósofo Altus,
denominado Mutus Líber (0 Livro Mudo) - serão qualquer coisa, menos uma
seqüência de mandalas. O Mutus Líber foi editado em 1677, em La
Rochelle, França. O nome verdadeiro de seu autor é desconhecido. Vemos
no Mutus Líber um autêntico formulário, uma real seqüência de atividades
físicas, relacionando matérias primas, condições meteorológicas, épocas do
ano, manipulações, proporções, instrumentos de laboratório, etc. Claro que
para interpretá-las é preciso ser mais que um estudioso da psique humana, é
preciso ser um filósofo hermético, um honesto estudioso do simbolismo
arcaico, cujas lendas revelam o arcano completo da obra. Mais que isso, na
postura humilde do casal de operadores, ajoelhados diante do athanor,
vemos a atitude mental necessária ao êxito. É preciso ser um com a obra,
com a matéria-prima, com o próprio mundo. O simbolismo é demasiado rico
e profundo para ser mera especulação ou produto de imaginações férteis.
É secreto, pela necessidade da própria exigência do magistério. É
preciso passar pelas provas da iniciação, antes de conhecer os mistérios da
arte, ou seja, é preciso desvendar os enigmas apresentados nos textos para
merecer o prêmio da revelação. Isso após dar mostras suficientes de
humildade e devoção à causa da humanidade. Mas não tão secreto que não
possa ser desvendado por uma mente lúcida e uma alma pura.
A Alquimia, tal como a Astrologia, seduziu as mentes mais
esclarecidas e privilegiadas que a humanidade já possuiu em todos os
tempos, tendo sido uma matéria de estudo habitual de toda pessoa culta em
qualquer sociedade. Encontramos estudiosos da Alquimia entre filósofos,
cientistas, poetas, teólogos, artistas, escritores, matemáticos, burgueses,
sacerdotes, artesãos e profissionais liberais de todas as

84
formações. Ao contrário do que muita gente pensa, a Alquimia não nasceu
nem foi cultivada apenas na Idade Média, mas constitui parte de um
patrimônio de conhecimentos com remotíssima antigüidade, fazendo
conjunto com outras disciplinas imbuídas do mesmo sentido iniciático e
sendo todas mutuamente complementares. Acostumamo-nos a denominar
essas disciplinas de Ciências Herméticas.
Trata-se na verdade de um vasto conjunto de matérias cujo teor é tão
extenso quanto pode ser o conhecimento do próprio universo, uma vez que
esse era o verdadeiro objetivo das Ciências Herméticas - explicar o universo,
sua origem, constituição, funcionamento, suas leis, suas metas, sua ordem e
até sua finalidade. Dentro desse contexto, a explicação do universo traria em
seu bojo a explicação do homem, assim como de toda a criação e da própria
divindade. Explicar o universo foi também um dos maiores desafios do
século XX, e segue sendo hoje. No entanto, a ciência atual pretende explicar
tudo do ponto de vista racionalista, deixando de lado qualquer coisa que
tenha aspecto religioso ou que mencione algo como um Criador. A própria
história do Big Bang, pretensamente a história da origem do universo, afirma
que tudo começou com uma grande forma energética, ou ovo cósmico, que
explodiu, dando início às galáxias, sóis e sistemas solares, etc. Mas é
bastante óbvio que desse modo fica sem explicação de onde e como surgiu o
tal ovo. "Nuvens de hidrogênio", respondem os sábios atuais, mas a pergunta
continua - e o hidrogênio, de onde veio e como se formou? A idéia do ovo
não é tão má, afinal, mas está claro que necessita de um complemento.
Ora, a ciência antiga jamais teve qualquer problema em admitir a
idéia de um Criador incriado, uma inteligência una e superior, dotada de
todos os atributos necessários à grande tarefa de produzir o universo.
Alguém que sempre existiu, portanto não teve início: e estava resolvido o
problema da geração do ovo; infinito, o que responde à questão do "o que há
no fim do mundo?", ou o que encontraremos se viajarmos indefinidamente,
sempre na mesma direção? Outros universos, outras galáxias, outros
sistemas, etc, etc, já que o universo criado por Deus não passa de uma
expressão fenomênica do próprio Deus, e portanto tão infinito quanto Ele.
Eterno, portanto, satisfaz à pergunta do "até quando existirá o
universo?" - a resposta é "sempre". Embora possa apresentar ciclos de
destruição e reconstrução, como nos ensina a Doutrina Brahmânica, que
compara esses ciclos à respiração divina, expirando e criando universos,

85
inspirando e fazendo retornar os universos ao não-ser. É onisciente,
portanto, nos deixa confiantes quanto à direção que toma essa grande nau
que é o nosso mundo, tão cheio de tortuosos caminhos. Sempre que
pensarmos que "Deus sabe o que faz", acreditaremos que a nau possui um
ótimo timoneiro e nos levará a um porto seguro.
A Ciência Antiga atribui ainda outras notáveis qualidades ao Criador:
é bom, justo e misericordioso. É uma fé que nos conforta quanto aos
supremos valores que animam nossa esperança: existe afinal uma justiça
superior que corrige os erros da nossa justiça terrena, premia os bons e
castiga os maus, e essa idéia nos reconcilia com a vida e com a própria
divindade, explicando racionalmente as desigualdades humanas, o
sofrimento, a dor e a morte. Na verdade, as Ciências Herméticas construíram
um complexo e engenhoso esquema onde tudo segue leis determinadas,
numa ordem perfeita que explica tudo e resolve tudo. Com a vantagem de
deixar ampla margem para o exercício de nosso livre-arbítrio e dar infinitas
possibilidades para o desenvolvimento de nosso potencial individual. Temos
a liberdade de tomar a direção que nos apraz, mas sabemos que tudo o que
fazemos - e até o que pensamos ou sentimos - gera um campo de força que
acarreta conseqüências na mesma e exata faixa de vibrações. Karma, Lei de
Causa e Efeito, palavras-chave que exprimem sinteticamente a mecânica que
rege as relações humanas em sua totalidade.
É um sistema cruel, este imaginado pela ciência moderna, onde o
universo não é mais que uma ordem mecânica, fria, impessoal, onde até a
vida não passa do fruto de um mero acaso e o destino da humanidade se
torna o resultado de forças insensatas. A grande maravilha da Ciência Antiga
é situar o homem dentro de um universo coerente e fundamentalmente justo.
Acima das considerações terrenas, existe uma vontade superior que dirige
tudo e administra os fatos da vida de acordo com nossos méritos. Ela nos
conduz a uma finalidade conhecida, que é o retorno ao Grande Pai, à Grande
Luz Central, de onde tudo e todos procederam um dia, rumo à longa jornada
pelos mundos visíveis.
E mais que isso, o homem é o próprio centro desse universo. É dotado
dos mesmos poderes e capaz de reproduzir os mesmos milagres que seu
Criador, uma vez que é dEle uma cópia em miniatura e possuidor de uma
parcela de Sua divina essência. Os filósofos herméticos concebem cada
partícula do mundo físico como um ser vivente, dotado de um corpo denso -
matéria - de um corpo mais sutil que dá movimento ao primeiro

86
Nascimento do mineral hermafrodita, proveniente das três substâncias originais e que
será alimentado com seu próprio sangue. A operação é aqui simbolizada pelo pelicano,
nutrindo seus filhotes

87
- energia ou alma - e ainda um terceiro, este de natureza imortal, que é o
espírito - ou vida. Jean D' Espagnet nos diz textualmente: "Os metais
encerram em si os princípios da vida, isso é, esse fogo impresso e insuflado
pelo Céu".
A Filosofia Hermética ensina que existem no reino mineral duas
naturezas - a masculina e a feminina - que estão reunidas nos corpos dos
minerais, e especialmente visíveis nos metais, em diferentes porcentagens
nos diversos corpos. Há assim metais ditos masculinos como o ouro e o
ferro, e metais femininos, como a prata e o cobre. Há, inclusive, um metal
hermafrodita, que é o mercúrio, dotado de ambas as naturezas. A união de
corpos masculinos com corpos femininos dá origem a uma autêntica prole
mineral. Mas, mais que isso, gera-se uma semente capaz de conceber e de
reproduzir-se exatamente como nos reinos vegetal e animal. E na verdade o
espírito da matéria filosofal que opera as transformações e é o responsável
pela geração e multiplicação da semente metálica contida no mineral.
Bem compreendida, a Alquimia é a ciência que estuda toda a
natureza, como um conjunto harmonioso e vivo. Não é uma atividade
contemplativa e medieval, como já foi definida por um psicólogo jungiano,
que na mesma categoria gostava de enquadrar também a Astrologia. E uma
prática universal, verdadeira e atual, seguida por estudiosos que a ela
devotaram décadas de suas vidas. Há nela o encanto especial de um enigma,
a beleza insuperável dos símbolos, a sedução do prêmio supremo que é
alcançar o topo da evolução kármica e libertar-se das cadeias da matéria.
É a ciência, mas a ciência total, não a ciência mutilada dos
acadêmicos materialistas, que no afã da pesquisa "racional" se esqueceram
de levar em conta o elemento principal que é a vida. Tal como os biólogos -
literalmente, o estudo da vida - num passado não muito remoto, que
estudavam as plantas mortas em seus herbários ressecados e esterilizados, os
pobres sábios do mundo moderno continuam a estudar o universo separado
de seu alento vital. Não irão descobrir mais que um esqueleto, como os
biólogos de antanho não encontraram nada além do vazio em suas células
mortas. Na verdade, não é preciso deixar de ser rigorosamente científico
para ser um alquimista ou um astrólogo, muito pelo contrário. Apenas é
indispensável acrescentar à visão simplista das demonstrações matemáticas,
tão ao gosto dos nossos físicos cartesianos, um ingrediente: a alma.

88
Capítulo 07

89
90
egundo o Livro de Enoch, as três ciências que denominamos
Herméticas ou Trismegísticas - a Astrologia, a Magia e a Alquimia -
não são patrimônio terrestre, mas nos foram transmitidas por seres
vindos das estrelas. De fato, como astrólogos, temos às vezes a
impressão de que se trata de uma ciência demasiado complexa e
profunda para que pudesse ser reunida num conjunto coerente, organizado e
abrangente da forma como existe hoje, somente através da observação
milenar, paciente e empírica de homens curiosos que se davam ao trabalho
de catalogar estrelas e conferir a órbita de tal ou qual astro azul ou verde.
Parece-nos difícil explicar dessa maneira o conhecimento tão incrivelmente
antigo sobre a natureza astrológica de Urano, Netuno e Plutão, planetas
recentemente descobertos.
É possível, por outro lado, que civilizações extintas já há muitas eras
tenham alcançado um elevado grau de conhecimento científico, natural e
espiritual, e que nosso saber atual seja uma herança um tanto mutilada de
algo muito mais vasto e completo. Seja como for, essas três ciências, no
correr dos milênios, têm sido mantidas em segredo com o mesmo zelo com
que se guardam hoje os segredos das armas atômicas. Regida por Urano, a
Astrologia foi a primeira a proclamar sua própria independência. Deixou de
ser uma ciência secreta, buscou voluntariamente a divulgação e espalhou
discípulos e praticantes por toda a face da Terra. Hoje, publica livros, forma
associações profissionais, realiza congressos públicos, sindicaliza-se. A
Magia - na qual se pode enquadrar as práticas da Yoga como um dos rituais
de alto nível - regida por Netuno é, das três, a ciência que mais requer dons
inatos

91
do indivíduo. Em suma, nasce-se mago, mas não se aprende Magia como se
aprende Astrologia, Medicina ou Botânica. Dentro da Magia, cumpre
distinguir dois níveis: a Alta e a Baixa Magia.
A Baixa Magia é aquela que está nas nossas bancas de jornais e
livrinhos dos "sebos": fórmulas de poções, filtros, encantamentos para
prender o namorado, simpatias para crescer cabelo, feitiços, quimbandas,
vodu, sapos costurados, bonecas alfinetadas, missa negra e "mandingas" em
geral. Herança de um conhecimento mais amplo e profundo, a Baixa Magia
utiliza as energias da natureza - precisamente a energia elemental dos seres
constitutivos da matéria mais suscetíveis de serem dominados e controlados.
Seus propósitos são de natureza individual e sua preocupação é alcançar
vantagens pessoais, tendo em geral objetivos egoístas, quando não
destrutivos. Já a Alta Magia, se preocupa com a evolução espiritual do
praticante, seu vínculo divino e sua alma imortal. Seus Adeptos se
congregam muitas vezes em ordens iniciáticas e sua atividade atinge o plano
coletivo da humanidade. Suas práticas desencadeiam energias de elevada
dimensão e podem mudar o curso da História.
As práticas da Alta Magia, assim como as mais elevadas da Yoga, não
costumam ser escritas - são transmitidas de boca a ouvido para pessoas que
alcançaram certo mérito, um certo estágio de evolução em que um tal
conhecimento advém quase que automaticamente, por dedução ou revelação.
Entre verdadeiros magos, não é necessário o contato físico para que troquem
idéias - eles se encontram num outro plano. Mestre e discípulo se vêem e se
falam naturalmente à distância e nem mesmo a morte é obstáculo a esse
encontro. Quanto à Alquimia - esta regida por Plutão - permanece sempre
um profundo mistério. Sua linguagem é simbólica, mas não no mesmo
sentido em que o são a Magia e a Astrologia, pois que nestas o símbolo
apenas serve ao usuário como o alfabeto nos serve para escrever um livro ou
um recado. Queremos dizer que o símbolo se presta à Alquimia como uma
forma de velar, de esconder uma prática.
A Alquimia nos chega à época atual com cerca de 100 mil livros ou
manuscritos - todos vazados numa linguagem cifrada, enigmática, muitas
vezes pictórica, onde símbolos astrológicos se misturam a figuras
mitológicas, animais estranhos e monstros lendários se mesclam com dizeres
misteriosos em latim ou grego e citações cheias de anagramas, criptogramas
e absurdos propositais. Os próprios autores confessam que usam tal
linguagem para confundir e afastar os curiosos. No entanto, essa

92
mesma linguagem que desencoraja os leigos é extremamente clara para o
estudioso autêntico, que reuniu conhecimentos universais do simbolismo
astrológico, das leis de Hermes, da observação sistemática e cuidadosa da
Mãe Natureza, e para aquele que passou anos debruçado sobre os textos de
antigos filósofos, aprendendo idiomas extintos, decifrando o código
arquitetônico de antigos monumentos, catedrais, estátuas, inscrições,
papiros, baixos-relevos e rituais iniciáticos.
Mas o elemento que melhor distingue a Alquimia das outras duas
irmãs é seu caráter de "dom divino", de "revelação". De fato, os autores
insistem muito nesse pormenor. Não basta estudar, ler, trabalhar no forno, é
preciso rezar, é preciso esperar que Deus, Ele mesmo, opere o milagre da
revelação e abra o espírito do estudante para o secreto mister. Quais os
objetivos do alquimista? Afora o folclórico uso da Pedra Filosofal para
fabricar ouro a partir do chumbo, ela também serve como um fantástico
elixir - que garante algo próximo da juventude eterna, saúde, a imortalidade
e felicidade a seus possuidores.
No entanto, não parece que tanto segredo seria necessário para estas
duas finalidades. Tudo leva a crer que algo muito mais importante se
escondia por trás de todo esse mistério. Autores modernos falam de um
"estado superior de consciência", que seria alcançado simultaneamente com
a elaboração e a conquista da Pedra Filosofal. Algo como um "saber total",
uma "revelação interior", um "despertar completo da consciência", sem
paralelo nas experiências com Yoga ou Magia. Recordo aqui uma passagem
bíblica de Gênesis, quando Deus expulsou do Éden Adão e Eva por terem
comido da árvore do conhecimento do Bem e do Mal: "Eis que o homem
tem-se tornado como um de nós, conhecendo o Bem e o Mal. Ora não
suceda que estenda sua mão e tome também da árvore da vida, e coma e
viva eternamente". Na rebelião da serpente do Paraíso se vislumbra o
segredo da imortalidade. Ao comer a maçã, o homem já se tornara igual aos
deuses - importante notar que o "deus" da Gênesis só fala de si mesmo, na
primeira pessoa do plural: o homem se torne como "um de nós" - portanto
capaz de compreender e certamente de repetir seus "milagres".
A história se parece com uma primeira tomada de consciência da
humanidade quanto a seus poderes naturais. O passo seguinte seria
estendê-lo ao ponto de igualar-se aos deuses que o criaram - ou seja, não só
gerar seres à sua imagem e semelhança, mas também criar mundos. Quer
dizer, gerar matéria. Talvez não a partir do nada, mas sim a partir

93
de outra matéria. Gerar a partir do nada seria um atributo da divindade
propriamente dita, da divindade singular, não da divindade plural da
Gênesis, que mais se parece com um punhado de astronautas mal treinados e
incompetentes para a complexa missão que receberam. Ora, gerar matéria a
partir de outra matéria é exatamente o trabalho do alquimista, e os maiores
clássicos da arte fazem questão de frisar que a confecção da Pedra Filosofal
se assemelha em tudo à descrição da Gênesis, começando com o espírito
pairando sobre as águas, o surgimento da luz, a separação da terra seca, etc.
Tudo leva a crer que havia por trás da Pedra Filosofal um conjunto de
segredos que conduziam a uma finalidade tríplice: o Elixir da imortalidade,
a superconsciência e o poder sobre a estrutura da matéria.
Sendo o alquimista um ser de elevada espiritualidade e alta
preocupação humanística, esse tremendo segredo exigiu da parte dos
filósofos um terrível juramento de silêncio, ao qual sempre se reportam
quando sua linguagem cifrada começa a ficar um pouco mais clara que o
normal. O perigo de que tais segredos caíssem em mãos erradas era de
ordem a pôr em risco a própria sobrevivência da humanidade, e vários
alquimistas preferiram a tortura e a morte a romperem o silêncio.
Vejamos qual é basicamente a tarefa do alquimista. Ele segue antes de
tudo um rígido código moral. Retira-se do mundo, isola-se para meditar, ler,
orar e praticar sua arte num forno especialmente construído para esse fim.
Às vezes, é ajudado por um colega que compartilha seus sonhos, mas
geralmente fica sozinho - seu compromisso com a obra deve ser total. Nada
deve distraí-lo ou preocupá-lo. Dizem alguns autores que o alquimista deve
ser abastado, quase rico, pois se ele tem que lutar pelo pão de cada dia, não
conseguirá levar a termo sua tarefa. Se alcançar o magistério, ou seja, se
conseguir fabricar a Pedra Filosofal, mudará de nome, de país, de
personalidade. Desaparecerá no anonimato, para que os poderosos e os
ambiciosos não o persigam. Foge das glórias do mundo, faz caridade e
distribui entre os mais infelizes e sofredores seu elixir milagroso.
Estuda em profundidade as leis da natureza e procura, em seu
trabalho, não apenas segui-las, mas copiá-las. Sua cultura deve ser universal
e vasta, abrangendo vários idiomas e o pensamento dos filósofos antigos,
começando por Hermes, passando por Platão, Aristóteles, Pitágoras e
terminando com Paracelso, Basile Valentin, Eireneu Filaleto, Nicholas
Flamel e mais trinta outros filósofos consagrados, que tiveram a
preocupação de deixar uma obra escrita para que o segredo não se

94
perdesse de todo. As matérias-primas que utiliza são minerais conhecidos e
comuns, e seu processo se assemelha, segundo os melhores filósofos, a uma
agricultura celeste, exigindo perseverança, uma paciência inesgotável,
repetição incansável de operações, com inúmeros erros, fracassos e reinícios.
0 tempo necessário para descobrir os processos secretos e completar a obra
varia de dois a cinqüenta anos.
Vários artistas explodiram junto com seus fornos, muitos morreram
sem jamais atingir o fim da obra, a maioria só a atingiu na velhice. Os que
chegaram ao magistério, porém, alcançaram o conhecimento da estrutura da
matéria, a origem do universo e a essência da vida. Passaram a pertencer a
uma hierarquia de homens superiores que possivelmente governa e
administra secretamente as energias da Terra, preservando-a contra o
vandalismo da ciência moderna, materialista, destrutiva e sem consciência.
Seus membros vivem anônimos entre nós, protegidos por modestos
disfarces, escondidos na multidão, orientando estudantes mais adiantados da
Arte Magna, instruindo intelectuais, cientistas e pessoas-chave da nossa
civilização, de forma a evitarem, ou pelo menos retardarem os cataclismas
que o homem sempre desencadeia à sua volta quando atinge certo estágio
tecnológico.
Mas, vamos ver mais de perto um alquimista em seu laboratório. Ele
reúne, sob condições muito especiais, duas matérias que denomina
simplesmente Sol e Lua, ou um lobo e um leão, um dragão e um guerreiro,
Apoio e Diana, etc. Simbolizam os dois princípios, masculino - sal - e
feminino - mercúrio - cujas naturezas inimigas devem ser provocadas,
através de uma terceira substância - enxofre ou fogo secreto - para um
violento combate, ao fim do qual ambos sucumbem. Daí nasce um novo
Mercúrio - o filho - de natureza hermafrodita, que é chamado de "o primeiro
dissolvente". Na segunda etapa da Obra, um novo combate químico se
realiza entre outros dois compostos de naturezas opostas, a fim de dar
nascimento a um segundo mercúrio.
Na terceira etapa, um composto, que representa a perfeita síntese
mineral entre céu e terra, Sol e Lua, masculino e feminino, agora fertilizado
por uma semente metálica, deve dar origem à Pedra Filosofal propriamente
dita, num processo longo, trabalhoso, repetitivo e estafante. Dizem os
autores que são necessários de 9 a 18 meses para completar o processo,
supondo que o artista não cometa nenhum erro. A primeira correlação
traçada entre a Alquimia e a Astrologia é a escolha da época propícia para

95
o início das operações. Não só o período astrológico pessoal do operador
deve estar favorável, mas a época do ano, as estações, lunações, trânsitos
solares e lunares, grandes conjunções, etc, devem ser propícios. Isso sem
considerar o mapa natal, que já deve por si mesmo indicar a possibilidade de
uma tão grande e significativa realização. Cada etapa da Obra, pela natureza
química dos compostos empregados, deve ser acompanhada
astrologicamente, segundo o planeta e signo que dispõem sobre a matéria
empregada e o tipo de operação a realizar. É preciso conhecer também a
simbologia empregada entre os Adeptos, que denominam seus compostos
químicos pelos astros que os regem ou pelas características próprias desses
astros. Nem sempre a ligação é muito óbvia, tendo os autores herméticos o
costume de apelar freqüentemente a analogias e parábolas extraídas das
várias mitologias - nórdica, mesopotâmica, chinesa, grega, latina, medieval
ou mesmo cristã.
Por exemplo, numa certa etapa da Obra se fala de Vênus, induzindo o
aprendiz a pensar que se trata de um composto de cobre - o metal de Vênus -
mas noutra parte do escrito se depreende que Vênus deve ser entendida
como analogia mito-astrológica: é um composto que brota da espuma de
uma água que eles denominam "mar hermético", tal como Afrodite nasce da
espuma do mar, o que na tradição astrológica lembra a exaltação de Vênus
no signo de Peixes, regido pelo planeta das águas, Netuno.
O simbolismo dos quatro elementos encontra uma síntese belíssima
no mais enigmático e significativo monumento já erguido na face da Terra,
que é a Esfinge de Gizé. Com patas de Leão, corpo de Touro, asas de águia e
rosto humano, representa na Astrologia os quatro elementos presentes nos
signos fixos do Zodíaco: o Fogo (signo de Leão), a Terra (Touro), a água
(representada pela águia, equivalente do Escorpião sob a forma sublimada,
ou a água em forma de vapor) e o Ar (signo de Aquário), que é a face
humana.
A Esfinge é considerada esotericamente a representação da aliança
feita entre os elementais, ou "anjos", que criaram o mundo sob forma física,
material, e os homens, a cuja guarda esse mundo foi entregue. No templo
interior da Esfinge se realizavam, na Antigüidade, os rituais de iniciação
egípcia, e até hoje o poderoso significado mágico do monumento é
perpetuado, seja pelos rituais iniciáticos mantidos pelas ordens maçônicas,
seja pela presença espiritual de altos magos que conduzem, em plano astral,
os candidatos à iniciação nos primeiros mistérios.

96
A Esfinge é igualmente um monumento alquímico, certamente o maior e o
mais evidente de quantos existem. Representando os quatro signos fixos do
Zodíaco, mostra a essência da Obra Alquímica, que é a "fixação do volátil".
Sob a forma sublimada da Águia, ela mostra a necessidade de aperfeiçoar a
água - cujo elemento simboliza o Escorpião - até que ela evapore,
adquirindo asas, ou seja, tornando-se volátil.
O elemento terra, de quem toma o corpo, e portanto, a sua maior
parte, representa o reino mineral, no qual deve o artista trabalhar, além de
dar idéia, possivelmente, do peso com que participa esse elemento no
cumprimento da tarefa alquímica. Repousando sobre patas de leão, mostra
que toda a Obra é fruto da purificação ígnea, que tanto é feita através do
fogo comum como por intermédio de um fogo simbólico - significando as
energias solares - que, como lembra a Lenda de Prometeu, libertará o
homem. A cabeça humana da Esfinge reflete a finalidade última da Obra - a
salvação do homem, a construção do ser perfeito, o despertar da
superconsciência, o domínio da natureza pelas forças do espírito purificado.
Um exemplo muito interessante de correspondência entre o mito
astrológico e o mito alquímico é demonstrado na Lenda de Perseu. A
história desse herói é a narrativa simbólica de uma das etapas da Pedra
Filosofal. Mas vamos à parte que, de perto, toca à Astrologia. Perseu havia
prometido a Polidectes a cabeça da Medusa, monstro negro coberto de
escamas de dragão, cabelos em forma de serpente, mãos de bronze e asas de
ouro - a própria imagem da matéria-prima da pedra, que é sempre
apresentada como escura, suja, coberta de escória, e malcheirosa. Aliás, a
Medusa, com seu olhar, petrificava as pessoas à distância. Ora, Perseu
conseguiu, com o auxílio de Hermes - Mercúrio - sandálias com asas -
atributo de Mercúrio, que o torna volátil - um saco de formato especial - o
vaso hermético para confecção da Obra - e o capacete de Hades, que tornava
invisível quem o usasse. A operação alquímica se realiza ocultamente, sem
que a vista humana a perceba. Além disso, deve desenvolver-se em total
obscuridade. Hermes deu ainda a Perseu uma espada de aço, instrumento
indispensável para "matar" o dragão alquímico.
Perseu, assim equipado, decapitou o monstro, e, do corte sangrento do
seu pescoço, saltou Pégasus, um cavalo branco alado. Na obra alquímica, a
cor negra da matéria inicial deve ser depurada por sucessivas sublimações
até que seja substituída pela cor branca - operação que os artistas chamam
"cortar a cabeça do corvo", ou dragão, ou serpente ou

97
outro animal qualquer que simbolize a mesma substância bruta e negra.
Quando surge a cor branca, simbolizada ora por um cisne, ora por lírios, ora
pela roupagem branca de um personagem, liberta-se o espírito metálico que
estava aprisionado na matéria primitiva.
Astrologicamente, a cabeça cortada da Medusa é representada, na
Constelação do Perseu, pela estrela Algol, que, devidamente colocada no
mapa astral de uma pessoa, provoca a sua decapitação - real ou simbólica. E
a estrela mais brilhante da constelação do Perseu é a Alpherat, que possui
um significado de liberdade, perfeitamente identificado na imagem de
Pégasus levantando vôo. É o espírito metálico que se desprende do corpo
físico e se liberta, para poder depois servir de instrumento para aperfeiçoar
metais, torná-los puros e, conforme a Arte Alquímica, transmutá-los em
prata ou em ouro, metais que, na escala evolutiva dos minerais, ocupam o
ponto mais alto.
Mas a proposição mais interessante - e que pode emprestar um rumo
altamente esotérico ao estudo da Astrologia - é a velha máxima de Hermes,
que todo estudante de Astrologia aprende: "Nada está parado, tudo se move;
tudo vibra". Diz um alquimista do século XX, Fulcanelli: "Neste mundo tudo
é vida e movimento. A atividade vital, muito aparente nos animais e nos
vegetais, não o é menos no reino mineral, embora exija do observador uma
atenção mais aguda. Os metais efetivamente são corpos vivos e sensíveis,
como o testemunham o termômetro de mercúrio, os sais de prata, os
fluoretos, etc. Que são a dilatação e a contração, senão dois efeitos do
dinamismo metálico, duas manifestações da vida mineral?", questiona. Ele
continua dizendo que não basta ao filósofo anotar somente o alongamento
duma barra de ferro sujeita ao calor. "É preciso investigar qual é a vontade
oculta que obriga o metal a dilatar-se. Sabe-se que os metais, sob a
impressão das radiações calóricas, afastam os seus poros, distendem as
suas moléculas, aumentam de superfície e de volume. De outro modo,
desabrocham, como nós mesmos fazemos sob os benéficos eflúvios solares",
explica Fulcanelli. De acordo com ó alquimista, não se pode negar que tal
reação tem uma causa profunda, imaterial, "pois não saberíamos explicar,
sem essa impulsão, que outra força obrigaria as partículas cristalinas a sair
da sua aparente inércia".
A idéia de que haja um princípio vital - e mesmo um princípio
inteligente - na matéria metálica se confirma com a observação de que os
artefatos produzidos pelo homem, seja sob a simples influência climática,
seja submetidos a tensões contínuas - como os motores,

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barcos, aviões, ferramentas, trilhos de trem. Eles sofrem um processo que
denominamos "estafa do material". Aviões explodem no ar, após certo
número de horas de vôo; trilhos se desfazem como que apodrecidos; aço
temperado se rompe em pedaços, como se literalmente tivesse envelhecido e
deteriorado. O mesmo autor comenta sobre o fato: "O enfraquecimento da
energia vital, fase normal e característica da decrepitude, da senilidade do
metal, é bem o sinal precursor da morte próxima. Ora, sendo a morte o
corolário da vida, a conseqüência do nascimento, daí resulta que os
minerais e os metais manifestam a sua submissão à lei de predestinação que
rege todos os seres criados. Nascer, viver, morrer e transformar-se são os
quatros estados dum período único, que abraça toda a atividade física. E
como essa atividade tem por Junção essencial renovar-se, continuar-se e
reproduzir-se por geração, somos levados a pensar que os metais contém em
si, tal como os animais e os vegetais, a faculdade de multiplicar a sua
espécie".
Lembremos aqui o exemplo conhecido do cristal de ametista, que
forma verdadeiros ovos - os geodos - cujas dimensões variam de alguns
centímetros a dois metros de diâmetro. Por fora, uma casca escura, lisa e
dura, que faz parecer uma pedra comum, embora de formato regular,
arredondado, oval, como um ovo de pássaro! Aberta, revela milhares de
cristais que crescem para dentro, alimentados por uma água-mãe, ao mesmo
tempo em que o "ovo" se desenvolve, aumenta de volume e de peso - claro
que no prazo de milênios ou de eras geológicas - que importa o tempo no
reino mineral? Ele não tem pressa alguma! Pois bem, o ovo da ametista
cresce até que o quebremos. Rompida a casca, esvaída a água-mãe, o cristal
pára de crescer. Exatamente como o ovo de uma galinha, que foi aberto
antes do tempo: o feto morre, a vida do cristal é interrompida.
Outra prova da vida mineral é encontrada ainda nos cristais,
especificamente no quartzo - o mesmo material de que são feitos certos
componentes dos modernos relógios. E sabido que ele "pulsa", emite um
sinal rítmico, de incrível exatidão, razão pela qual foi escolhido para garantir
a pontualidade e precisão desses aparelhos. Ora, não será essa acaso uma
manifestação de vida, como a nossa própria pulsação, ou nossos batimentos
cardíacos? E baseado no princípio desta verdade analógica, de que o reino
mineral é tão vivo quanto um de nós - embora tenha seu próprio ritmo e seu
próprio tempo - que trabalha o alquimista. "Os metais, graças à sua própria
semente, podem ser reproduzidos e desenvolvidos em quantidade". Essa
atribuição de qualidades vitais e espirituais aos domínios que nossa

99
civilização materialista denomina inanimados, ou inertes, encontra um
paralelo na Mitologia de todos os povos antigos, que emprestavam não só às
plantas, mas à água, ao vento, à terra, às pedras, montanhas, ao mar, aos
astros e até às paisagens um caráter próprio, uma alma, uma personalidade,
virtudes e defeitos, e os faziam capazes de ação, intervenção, sentimentos,
paixões, memória, inteligência e razão.
No que toca especialmente aos astrólogos, é de notar que os astros
eram vistos e tratados como deuses, cuja boa vontade era preciso cativar, e
cuja ira tinha que ser aplacada com sacrifícios e rituais. Imagino um cidadão
grego da Antigüidade, que chorava suas mágoas devido a uma quadratura de
Vênus, lamentando-se de um amor não correspondido. Ia consultar o
oráculo, e este lhe dizia: "Meu filho, vai e sacrifica uma pomba no altar de
Afrodite, sobre um vaso de cobre, e faze isto vestido de um manto azul claro,
e depois deposita flores em seu Templo e então toda a cólera da deusa se
dissipará". Na filosofia do alquimista, manipular os objetos e os minerais
que Vênus domina é mais do que um exercício retórico para desviar o efeito
da quadratura do astro - é atuar diretamente na substância viva do planeta
Vênus por intermédio de uma parcela dele, aqui representada por um vaso
de cobre, uma flor ou uma pomba.
Tal como nas cerimônias mágicas, ou nas técnicas da Radiestesia,
tocar num punhado de cabelo cortado de uma pessoa, ou na imagem
fotográfica dela, é o mesmo que tocar na própria pessoa. Os modernos
estudos do ADN talvez pudessem dar desse fato um testemunho muito
interessante. Assim, a regência de um planeta sobre as coisas da Terra não se
faz apenas conforme a natureza química semelhante dessas coisas, o que
daria uma "nota científica" à Astrologia, podendo explicar a atuação dos
astros por um efeito de ressonância à distância. A explicação deve ser
procurada mais profundamente, numa ressonância vital, anímica - vida
fazendo vibrar vida. Fundir cobre ou cozinhar arroz numa panela de cobre
faz remexer, nas entranhas da deusa planetária Vênus, algumas de suas
células. Obriga-a a prestar atenção ao pobre mortal terráqueo que se atreve a
tocar na sua essência. Fá-la emitir vibrações de prazer ou simpatia - se o
terráqueo está com bons aspectos de Vênus - ou de cólera e ódio - se o
infeliz está com maus aspectos de Vênus.
O trabalho do alquimista, capaz de transformar qualquer metal em
ouro (o metal do Sol) ou em prata (o metal da Lua) é o de obrigar a natureza
a uma rápida evolução e aperfeiçoamento, abreviando para alguns meses

100
ou dias o que a natureza levaria eras inteiras para completar. Pois, dizem os
filósofos, ao citar a obra A Pedra Filosofal, de São Tomás de Aquino:
"Ninguém duvida que estes metais ter-se-iam transformado por si mesmos
em prata e ouro, se tivessem permanecido na mina o tempo necessário à
manifestação da ação da natureza". Curiosa afirmação, que nos recorda a
promessa esotérica do retorno do homem ao fim de seu resgate kármico, ao
seu divino Criador. Purgado pelo sofrimento, elevado pelo conhecimento,
purificado pelo sacrifício, salvo pela fé, o homem deverá, ao fim do seu ciclo
evolutivo, reintegrar-se com a divindade, da qual, por um misterioso e
longínquo acidente, se separou. Assim, a matéria impura - o dragão
escamoso dos alquimistas
- martirizada, calcinada e sublimada pela arte do filósofo, retornaria à ma
téria original, pura e imaculada, e voltaria a participar da essência solar,
transmutada em ouro - ou da essência lunar, transmutada em prata.
Vemos que o alquimista nunca deixa de admitir a existência dos dois
princípios, masculino e feminino, quer se trate de metais, de deuses ou de
planetas. A matéria purificada voltará tanto ao pai como à mãe, pois no caos
original ambos os princípios estão contidos juntos num mesmo arquétipo. O
alquimista é, portanto, alguém que reconhece que, em primeiro lugar, a mão
humana pode intervir positivamente na evolução da própria natureza,
continuando e auxiliando a tarefa do Supremo Criador, e em segundo lugar,
que o homem, ao mesmo tempo em que é sujeito à influência exterior, do
clima, dos astros, do meio ambiente, é também - ou pode vir a ser - agente
transformador e ativo nessa interação. Agindo sobre a matéria, atinge a
essência planetária que deu a ela origem e vida, portanto seu trabalho se
torna o de um agente cósmico de cunho evolutivo. O alquimista deixa de
submeter-se às influências dos astros para passar a modificar a própria
natureza desses mesmos astros.
Cremos que essa, sim, era a verdadeira razão por que eles tão
ciosamente guardaram seu segredo. "Aquele que compreende o Princípio de
Vibração [de Hermes] alcançou o Cetro do Poder", diz um iniciado
anônimo. Eis aqui um novo campo de estudos para os astrólogos, que lhes
irá requerer, sem dúvida, o mesmo tempo que já destinaram à Astrologia, ou
seja, quase uma vida inteira. A descoberta será tão maravilhosa quanto foi a
da nossa deusa Urânia, e suas compensações serão certamente infinitas.
Talvez não consigamos nunca encontrar a Pedra Filosofal, e isso na
verdade talvez não seja indispensável. Mas a própria busca, a pesquisa, a
leitura desses sábios antigos - um dos quais, Hermes,

101
é igualmente mestre da Astrologia, como o é da Alquimia - será em si
mesma um encanto constante e gratificante. Estas duas ciências se
completam, se interpenetram e mutuamente se explicam. São gêmeas
siamesas, ligadas a um mesmo coração e com um mesmo sistema
circulatório - apenas têm cérebros separados.
Elas têm inclusive os mesmos inimigos comuns - os cientistas de
espírito acadêmico. Os nossos sábios das universidades aceitam a
possibilidade teórica da transmutação; na verdade já a conseguiram nos seus
laboratórios sofisticados e seus processos multimilionários. Mas se recusam
a acreditar na sua viabilidade material e na simplicidade da sua realização
dentro das leis da natureza, sem violência, sem temperaturas ou pressões
altíssimas. E mais ou menos o que acontece em relação à Astrologia:
aceitam que o Sol e a Lua provocam as marés oceânicas e atmosféricas, mas
de modo algum que possam influenciar o humor das pessoas.
Volto a citar Fulcanelli: "Estes sábios se equivocam acerca da
constituição e das qualidades da matéria, embora pensem ter sondado todos
os seus mistérios. A complexidade das suas teorias, o amontoado de
palavras criadas para explicar o inexplicável, e sobretudo a influência
perniciosa duma educação materialista leva-nos a procurar muito longe o
que está ali, bem ao alcance deles". A verdade é simples, como é simples
tudo o que é próximo da natureza. Ele prossegue ainda: "0 que ganham em
lógica humana, em rigor numerai, eles perdem em simplicidade, em
bom-senso. Sonham aprisionar a natureza numa fórmula, pôr a vida em
equações. Assim, por desvios sucessivos, chegam inconscientemente a
afastar-se tanto da verdade simples que justificam a dura palavra do
Evangelho: 'têm olhos para não verem e ouvidos para não entenderem'".
A verdade da Alquimia é quase tão fácil de comprovar quanto à
verdade da Astrologia: é uma questão de experimentar. É ter a humildade de
aceitar que, com seus canhestros alambiques de fundo de quintal, os
alquimistas descobriram os segredos do átomo, assim como os antigos
astrólogos, com seus desajeitados sextantes, descobriram a mecânica do
universo. O valor do sábio não está na sua criação tecnológica, na
sofisticação de seus instrumentos, mas na sua alma, na grandeza de seu
espírito, na sua capacidade de ver a realidade interior e cheia de vida que é a
natureza, mãe e mestra de todo o conhecimento. Se nos acusarem de relegar
a ciência para sair em busca do mistério, responderemos com as palavras de
Albert Einstein: "São os domínios do mistério que nos reservam as mais
belas experiências".

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Capítulo 08

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104
Uma novidade de 3.500 anos

m sábio de nome Parâshara, que nasceu na índia cerca de 1.500


anos antes da Era Cristã, é autor de alguns dos mais antigos
estudos sobre a saúde humana do ponto de vista astrológico, e de
cálculos documentados da distância do equinócio à estrela
Revati - Zeta Piscium - ponto de partida do Zodíaco Hindu. Sua
preocupação em fazer esse cálculo mostra o conhecimento, que já possuía, à
época, sobre o movimento Precessional. No mundo ocidental, esse
conhecimento data do século II a.C, quando o astrônomo e matemático
grego Hiparco, além de avançar nas idéias sobre a precessão, afirmou que o
Sol possuía uma órbita circular, da qual a Terra não era o centro. Nada,
portanto, sustenta a pretensão de alguns modernos astrônomos de terem
descoberto "recentemente" a precessão e muito menos a afirmação de que os
astrólogos desconhecem o fenômeno e que continuam a considerar a Terra
como centro do universo, pois tanto Hiparco como Parâshara e outros
astrônomos hindus - como Mihira, Narâda, Garga e Ranavira - eram
astrólogos.
A idéia do Zodíaco de Constelações, que a chamada Escola
Sideralista quer que seja o único a ser usado, não é nova. Uma vasta
literatura e uma estatística pelo menos milenar mostra até que ponto os
astrólogos acharam útil esse sistema. Os hindus ainda hoje o aproveitam.
Mas, nem os hindus, nem os astrólogos ocidentais chegaram ao absurdo de
descartar o Zodíaco Trópico - dos signos - em favor do das constelações.
Todos usam simultaneamente ambos os sistemas, aos quais se deve juntar
ainda o sistema do Zodíaco Terrestre - das casas - baseado na trajetória
diária aparente do Sol. Um astrólogo inteligente e eclético deve saber reunir

105
as vantagens e as informações dos três Zodíacos, dando a cada um deles a
importância que merece. O grave e insuperável defeito do referencial das
constelações é não refletir os fenômenos vitais mais importantes da Terra,
quais sejam as estações do ano.
Assim, pelos novos signos siderais, Áries, o mais perfeito símbolo do
brotar da primavera, do calor que retorna, do ardor dos acasalamentos, da
ressurreição da vida após o longo inverno, do Hemisfério Norte, vai cair nas
águas do degelo, no frio úmido do mês final das neves - um quadro tão
evidente e próprio de Peixes! Ora, a Astrologia é exatamente a ciência que
pretende, através de uma simbologia peculiar, captar o sincronismo existente
entre os fenômenos terrestres e o ambiente cósmico que nos circunda,
descobrindo as leis que o regem e os ciclos que nos conectam ao universo.
Qualquer sistema que destrua esse sincronismo será tudo menos Astrologia.
A maioria das escolas astrológicas ocidentais da atualidade - e entre elas a
sideralista, que nada mais é que uma microcorrente - são unânimes em
atribuir às constelações a virtude de influenciar as civilizações como um
todo, durante o correr de eras inteiras - como exemplo temos a Era de
Peixes, Era de Aquário, etc - proporcionando a cada longo período um sutil
colorido com formas peculiares de comportamento e de visão
filosófico-religiosa. Elas estudam também, e especialmente, a influência
primordial das estrelas ditas "fixas" dessas constelações.
A ciência astrológica conta sua idade por milênios, e toda a prática e
estatística de mais de 2000 anos provam que, tanto no plano individual como
no coletivo, são elementos atuantes os signos zodiacais com início no ponto
vernal, onde quer que ele se encontre. Tirante a influência sobre as longas
eras da humanidade, o sistema sideralista se mostra irracional e impraticável,
como adiante se prova. O absurdo da tentativa sideralista começa com a
adoção de um sistema de referência móvel com relação ao nosso calendário
e ao ano trópico, quando tudo o que se espera de um sistema de referência é
que seja o mais fixo possível, justamente para que cumpra o papel de ponto
de partida.
Assim, daqui a 72 anos, todas as criaturas nascidas no dia 22 de abril -
data aceita pela União Internacional de Astronomia como início da
constelação de Áries - passarão à regência de Peixes. Mais 72 anos depois, e
também as pessoas nascidas a 23 de abril serão piscianas, e assim por diante.
Por outro lado, como se faz tanta questão de usar as constelações como
referencial, é preciso ser fiel ao quadro geral que elas impõem, ou

106
seja, descobrir que influências próprias determinam astrologicamente - e que
não serão necessariamente idênticas às dos signos zodiacais. Isto não se fez
na Escola Sideralista, que usa exatamente os mesmos tipos caracterológicos
do Zodíaco universalmente adotado, limitando-se a deslocá-los no tempo e
no espaço. Ainda para sermos fiéis ao verdadeiro quadro das constelações,
seria preciso dividir seu ciclo de acordo com as dimensões que cada
constelação apresenta, e não, comodamente - e ilogicamente - de 30 em 30
graus, como fazem os sideralistas modernos. Assim, se há uma constelação
de 44º de arco, como é o caso da Virgem, há uma outra de apenas 20º, como
Câncer - e os respectivos signos sidéreos deveriam obedecer o mesmo
critério de duração em dias. Há, além disso, a Constelação de Ophiucus, que
passou em nossos dias a ter o Sol cruzando sua órbita anual por causa do
movimento Precessional, e que então deveria ser incluída entre os "novos
signos". Ela ficaria entre Escorpião - reduzido a 7 dias, ou 9 graus de arco - e
Sagitário, que teria mais ou menos 30º.
Mas, outros problemas são criados se utilizarmos o referencial das
constelações; além de não terem um tamanho uniforme, não estão
distribuídas numa seqüência espacial perfeita. Suas áreas se interpenetram,
de forma que há zonas onde na verdade se encontram duas constelações,
como é o caso de Peixes com Aquário e de Virgem com Libra, sendo que
Denébola, a segunda estrela mais brilhante da constelação do Leão, está
vários graus para dentro da constelação da Virgem. Quando o Sol transita
por certos graus dessas faixas, cruza duas constelações simultaneamente; a
qual das duas pertence o indivíduo que nasce com o Sol nesses lugares?
Como se isso não bastasse, há zonas do Zodíaco que não têm constelação
alguma, dentre as que tradicionalmente são admitidas como pertencentes ao
Zodíaco. É o caso de alguns graus entre Touro e Gêmeos, entre Gêmeos e
Câncer, entre Câncer e Leão. São os "vazios" do Zodíaco, e as pessoas
nascidas nessas faixas decerto precisam recorrer a um outro sistema solar
que lhes dê o consolo de terem uma constelação de nascimento.
Com todas essas incongruências, o Sistema Sideralista, alardeado no
Brasil com um sensacionalismo muito distante do procedimento científico
que deve pautar o trabalho de um verdadeiro astrólogo - e importado como a
última palavra em matéria de Astrologia no mundo - se apresenta na verdade
como um "aleijado impraticável" e, sobretudo, ineficiente para os fins que se
propõe e para as pretensões de exclusividade que apregoa. As influências
visíveis e sentidas continuam a situar-se no Zodíaco Trópico,

107
o dos nossos velhos signos tradicionais. Todos os arianos se encontram na
descrição típica do velho Carneiro Zodiacal, mas qual deles se achará na pele
do seu novo signo, Peixes? A superposição dos três Zodíacos permite
estabelecer o autêntico horóscopo individual, com toda a multiplicidade
incrível e riquíssima de possíveis combinações, que tem condições de refletir
veridicamente sobre a infinitude de tipos humanos existentes. O sistema
sideralista, ao contrário, com seu Zodíaco único, revela uma imaginação
paupérrima, semelhante à da corrente folclórica da Astrologia, tão ao gosto
da imprensa diária, com seus 12 tipos fixos, monótonos e invariáveis - em
completo desacordo com a realidade humana.

108
Capítulo 09

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110
Um alquimista moderno

ulcanelli é um dos maiores alquimistas do século XX. Personagem


enigmático, ninguém conhece sua verdadeira identidade. Sabe-se
apenas que nasceu entre 1830 e 1840 e que conviveu com as mais
notáveis figuras do meio político e científico da França, incluindo o
químico Pierre Marcelin Berthelot, Pierre Curie, Chevreul, Grasset,
Ferdinand Lesseps e o arquiteto Viollet-Le-Duc. Deixou duas obras: 0
Mistério das Catedrais e As Mansões Filosofais, publicadas entre 1920 e
1926. Deixou também um único discípulo, Eugène Canseliet, nascido em
1899 e falecido em 1982. Este não só foi o responsável pela publicação das
obras do mestre como as prefaciou e comentou. Canseliet tinha apenas 15
anos quando teve contato com Fulcanelli, tornando-se então aprendiz na
difícil arte da Alquimia. Tornou-se, dessa forma, discípulo de um autêntico
Adepto, em pleno século XX. Ele soube guardar ciosamente o segredo da
identidade de seu mestre, que desapareceu em 1930 sem deixar rastro.
É através de Canseliet que conhecemos o pouco que sabemos sobre
Fulcanelli. Em entrevista concedida a Robert Amadou, mais tarde publicada
sob o título Le Feu du Soleil (Fogo do Sol) - interpretação do nome iniciático
do mestre - Canseliet nos conta como se iniciou no conhecimento da arte,
como foram os poucos anos em contato com o mestre, e, o que é mais
interessante, como o reencontrou em 1953, na Espanha, quando Fulcanelli já
devia estar com cerca de 114 anos de idade. O encontro se deu num castelo,
cujos habitantes se vestiam à moda antiga, parecendo personagens tirados de
livros da Idade Média. Fulcanelli se apresentou ao discípulo como um
homem maduro, aparentando seus 50 anos, cabelos pretos, a pele jovem e a
saúde perfeita.

111
Não há explicações muito claras sobre esse encontro, para o qual
Canseliet, de ordinário tão reservado quanto a endereços e informações que
pudessem levar à identificação de Fulcanelli, muito estranhamente, fornece o
nome da cidade e quase nos dá o nome do castelo. O fato deixa entrever que
esse lugar não está assim tão fácil de situar no mapa, e que não há perigo de
alguém de repente encontrá-lo. Uma explicação plausível é que esse castelo,
assim como seus bizarros habitantes, não está na dimensão física, mas, como
ensinam certas fontes herméticas, no estado de "jinas", ou seja, está em
corpo físico localizado no plano astral e, por conseguinte, invisível à vista
física e obedecendo as leis do mundo astral. Esse fato nos dá idéias muito
sugestivas quanto ao que realmente ocorre quando alguém atinge o estágio
de Adepto: liberta-se da condição de prisioneiro do mundo físico e pode
mover-se tranqüilamente de um universo a outro, de uma para outra
dimensão.
Durante os anos da Segunda Guerra Mundial, o físico Jacques Bergier
- autor, junto com Louis Powels, do famoso livro 0 Despertar dos Mágicos -
teve um encontro com um alquimista que ele acredita ter sido Fulcanelli. Na
ocasião, o estranho homem o preveniu quanto aos riscos do uso da energia
do átomo - muito antes da primeira experiência nuclear americana - e
descreveu a bomba atômica como "uma disposição geométrica de elementos
quimicamente puros" e que sua utilização e construção eram extremamente
simples e não necessitariam de eletricidade nem da técnica do vácuo - uma
descrição extraordinariamente fiel da realidade, da qual ninguém até então
ainda possuía suficiente conhecimento.
O Mistério das Catedrais é uma viagem por esses velhos monumentos
da arquitetura religiosa da França, vasculhando seu passado e as estranhas
figuras de natureza nitidamente profana que neles estão representadas. O
autor revela uma profundidade de conhecimento extraordinária, expondo
com erudição, mas numa linguagem sem rebuscamentos, a história secreta
das catedrais góticas. Verdadeiros livros escritos em pedra mostram a quem
quer que tenha olhos para ver todos os passos necessários para a elaboração
da Pedra Filosofal. Numa linguagem cifrada, toda vasada em símbolos e
alegorias, parecem ingênuos motivos filosóficos, cuja preocupação é
apresentar passagens bíblicas sob a forma de vitrais de lindo colorido e
estátuas das figuras conhecidas das escrituras. Penetrando-lhes, porém, o
verdadeiro sentido simbólico, tudo adquire outro significado. É esta a
linguagem à qual estão afeitos os maçons, que, portanto, devem ter,

112
certamente, mais facilidade para interpretar-lhes o autêntico sentido
iniciático. Quanto ao seu segundo livro As Mansões Filosofais, trata de
antigas habitações, castelos e monumentos cobertos de inscrições, esculturas
e representações misteriosas, cuja interpretação, naturalmente, é alquímica.
A leitura dessas duas obras pode levar uma pessoa que conheça o
simbolismo hermético, astrológico e mitológico à descoberta de todos os
segredos tão ciosamente guardados pelos Adeptos. Uma matéria muito
interessante dessa segunda obra - e que a nosso ver é uma autêntica chave
geral de interpretação de textos antigos, assim como de monumentos ou
representações sacras - é o ensinamento da "cabala fonética", que explica
como os antigos deixaram escritos, através de palavras que aparentemente
nada significavam, verdadeiros dicionários de hermetismo. Há assim,
palavras com o mesmo som ou pronúncia significando coisas inteiramente
diversas - e que, dentro do contexto certo, indicavam a chave explicativa do
emblema ou frase que de outro modo ficava de todo sem sentido lógico ou
detinham um sentido meramente moral ou simples demais para estar contido
em tal conjunto.
Interessante também é a afirmação de Fulcanelli de que os povos
sempre usaram esse tipo de linguagem cabalística nas coisas mais triviais, e
disso encontramos exemplos na nossa civilização atual, em forma de
anagramas e trocadilhos de uso corrente. Um exemplo no idioma francês:
uma estalagem onde se pendurou uma placa com o nome "au lion d' or" (Ao
leão de ouro). De fato, um leão repousava pintado de amarelo na placa. Mas
o significado da mensagem era bem outro: "au lit on dort". O mesmo som, a
mesma pronúncia, mas uma idéia totalmente diferente, ou seja: "dorme-se
em leito", em cama, quer dizer, uma estalagem que oferecia, além da
tradicional muda de cavalos e refeições ligeiras, um leito para dormir. O
viajante não se enganava, lia corretamente a mensagem e todos se
entendiam. O misterioso Vitriol das obras herméticas, e também presente
nos mistérios maçônicos, é outro exemplo. Lido em forma de anagrama, diz:
"l' or y vit". Ou seja, o ouro aí está vivo. É a substância mercurial na qual se
baseia a futura Pedra Filosofal.
Outra colocação muitíssimo interessante é a de que nossos idiomas
ditos latinos são na verdade de origem grega. Basta conhecer etimologia e
estudar as sucessivas transformações das línguas para comprovar isso. No
entanto, sempre nos fizeram acreditar que nossa língua é latina, e será uma
heresia afirmar coisa diferente. Na verdade, cremos que o

113
próprio latim é uma língua helênica, ou, em última análise, uma herdeira da
antiga língua-mãe da humanidade, o vattan. Hoje em dia se consideram as
línguas latinas como indo-européias, o que está certamente mais próximo da
verdade histórico-etimológica.
Fulcanelli nos mostra, por outro lado, sua posição reencarnacionista
em seu segundo livro, o que é pelo menos uma surpresa, se cotejarmos com
os autores tradicionais da Alquimia, sempre tão prudentemente católicos! "0
velho de ontem é a criança de amanhã", nos diz ele, sugerindo
cautelosamente a idéia dos sucessivos renascimentos. Um mundo de
informações históricas, e de revelações curiosíssimas de fatos pouco
conhecidos, são um motivo de contínuo encantamento nessa leitura
fascinante e profundamente iniciática. É preciso ler devagar, com muito
critério e a mente aberta.
A leitura dessas duas obras é obrigatória para quem quer instruir-se no
simbolismo alquímico. É uma espécie de chave-mestra para o ingresso nesse
universo cheio de mistério que é a Ciência Hermética. Por outro lado, as
referências bibliográficas contidas nelas constituem o mais precioso acervo
que o estudioso pode colecionar a fim de aprofundar-se nesse conhecimento.
Fulcanelli foi, sem sombra de dúvida, maçom. Assim, sua leitura é
duplamente recomendada para todos que desejem compreender o secreto
simbolismo alquímico contido nos rituais maçônicos.

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Capítulo 10

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xistem muitos pontos onde a Astrologia faz fronteiras com a
Metafísica. Mas, certamente, o mais perturbador de todos é a velha
controvérsia entre livre-arbítrio e determinismo. Entre os arautos da
tese do livre-arbítrio estão muitos dos adversários da Astrologia,
uma vez que, ao menos em tese, ela submete o destino do homem
às influências cósmicas, o que sugere, à primeira vista, serem todos os
mortais mero joguete dos caprichos planetários. A idéia do livre-arbítrio
agrada à nossa vaidade e valoriza nossa auto-estima. Nós simplesmente
gostamos de acreditar que em toda a vida o que fizemos foi estritamente
produto da nossa vontade, da nossa livre e espontânea decisão. Relutamos
em reconhecer que algo tão intangível e distante como o invisível Plutão ou
uma insignificante estrela de 3- grandeza, cujo nome mal conhecemos,
possam influenciar nosso comportamento e alterar, desse modo, um detalhe
que seja em qualquer decisão vital.
No entanto, sonhar com a liberdade não é ser livre. O homem sonha,
na sua vã pretensão, que controla seu destino e, mais ainda, que sua vontade
soberana e independente pode decidir o destino de outros tantos seres.
Haveria ordem neste imenso universo, e seria inteligível a própria história da
civilização humana se, de fato, cada homem exercesse estritamente e tão
somente a sua vontade? E o que vem a ser essa "vontade"? O que é a
vontade humana senão um frágil pêndulo que oscila ao sabor do seu
horóscopo de nascimento? O que mais é ela além da inclinação natural
produzida por uma quadratura ou um trígono qualquer? E então pode parecer
que nós, astrólogos, estamos do outro lado do muro, defendendo a tese do
determinismo. "Nada escapa aos desígnios

117
dos astros", "Mactub", "Estava escrito", "Tudo está previamente traçado no
nosso céu de nascimento", "O destino é uma estrada inevitável onde tudo
está previsto e nada pode ser mudado". Será mesmo assim? É desta forma
que o astrólogo interpreta um horóscopo? É esse o tipo de mensagem que ele
apresenta ao homem aflito que o consulta quase como faria a um sacerdote
ou um guia espiritual? É demasiado conhecida de todos a máxima que diz:
"Os astros inclinam, mas não obrigam".
Às vezes esta frase parece um consolo falso, e soa como mentira
branca ou conforto de médico para o paciente desesperado - "Sim, você tem
um câncer generalizado, leucemia e cirrose hepática avançada, mas isso
não quer dizer que você vai morrer". Creio que todo astrólogo já se deparou
pelo menos uma vez na vida com um desses "casos desesperados". E se ele
era um profissional inexperiente, ou se lhe faltava a necessária sabedoria
para exercer a missão sacerdotal do astrólogo, talvez ele tenha conduzido
seu cliente ao fim completo das esperanças, ou talvez tenha preferido
silenciar sobre seus prognósticos terríveis.
Se realmente a Astrologia é uma ciência, se ela é de fato um
instrumento seguro de previsão, e se ela pode indicar com precisão não só a
natureza de um evento, mas a sua época e o seu lugar - e disso há hoje
provas cabais e indiscutíveis - então até aonde exatamente vão os limites da
nossa vontade? Até aonde se estende esse fio elástico do nosso
livre-arbítrio? Estarão todos os eventos já previamente estabelecidos algures
desde a origem dos tempos? Ou apenas alguns deles? Haverá qualquer coisa
como um remoto karma coletivo da humanidade? Algo como um "plano",
um "desígnio divino", uma Providência Consciente que "quer" este e não
aquele destino, que "obriga" um povo ou um ser humano a agir assim e não
de outro modo?
E me vem à mente neste ponto uma antiga questão: como seria a
humanidade de hoje, como seriam a política, as fronteiras atuais, a Ciência
Moderna, a filosofia, a economia mundial, a arte, etc, se não tivessem
existido Hitler, Napoleão Bonaparte, Karl Marx, Madame Curie, Aristóteles,
Shakespeare ou Beethoven? Se introduzirmos na água um objeto qualquer,
abrimos na sua superfície um "buraco", cujo diâmetro corresponde ao do
objeto em questão. Se o retirarmos agora, bruscamente, por uma minúscula
fração de tempo, o "buraco" permanecerá na água, e em seguida ela o
cobrirá de novo. A supressão precoce de determinados homens cuja
promessa de vida estivesse vinculada a profundas alterações

118
históricas seria compensada da mesma forma que a água cobre o orifício que
abrimos? Outra personalidade, com horóscopo semelhante, assumiria o
papel vacante e conduziria a história por idênticos caminhos? Ou será que a
partir desse ponto um novo leque de alternativas se abriria e a história iria
seguir rumos diferentes?
Quem estuda Astrologia Mundial sabe que a seqüência histórica segue
direções bastante previsíveis. Diante de um certo quadro cósmico, pode-se
delinear os acontecimentos futuros dentro de uma excelente margem de
probabilidades. Donde se deduz que talvez a presença ou não de uma
personalidade faça pouca ou nenhuma diferença. De um modo ou de outro,
as circunstâncias se encarregam de levar o mundo na direção prevista por
aquele quadro cósmico. Isso me faz lembrar um curioso romance de ficção
científica.
O herói da historieta é um jornalista, e, em dado momento, por um
acaso ou mera curiosidade, abaixa a alavanca de um painel, numa máquina
desconhecida. Era um engenho extraterrestre com poderes incalculáveis. E
esse simples gesto provoca uma catástrofe de dimensões incríveis, altera a
marcha do Sol, os ritmos biológicos e a própria vida na Terra. Entra em cena
um cientista louco, que cria uma máquina do tempo. E ele mostra ao
jornalista a possibilidade de recuar no tempo até o instante em que ele faz o
gesto fatídico. A idéia é fazê-lo retornar ao passado já com o conhecimento
dos fatos futuros, e repetir todos os atos - menos, é claro, o de abaixar a
alavanca. Pois bem, a experiência tem êxito em tudo, menos num ponto:
sempre acontecia "alguma coisa" que fazia o pobre sujeito abaixar a tal
alavanca e lá vinha de novo a terrível catástrofe.
Depois de centenas de tentativas, o cientista conclui que a única
maneira de evitar a tal catástrofe é voltar no tempo e fazer com que o nosso
herói nunca tivesse nascido. Muito orgulhoso de sua proeza, o cientista volta
ao tempo atual, certo que dessa vez havia salvo o mundo do cataclisma. E
então ele ouve pelo rádio o noticiário e fica sabendo que a famigerada
engenhoca espacial havia explodido "sozinha" - e é claro que a bendita
alavanca tinha sido deslocada - e tudo afinal volta ao ponto de partida, com a
única e insignificante diferença que o herói da novela tinha deixado de
existir.
Como nos modernos computadores, tudo havia sido programado para,
num dado instante, a seqüência histórica obedecer a uma ordem de
"sub-rotina". "Go sub", diríamos na linguagem da cibernética. A idéia dessa

119
pequena ficção pode dar material para um filósofo pensar um bocado de
tempo! E eu meditei sobre ela por muitas horas. Tentei aplicar o raciocínio à
minha própria "seqüência histórica" individual. Se, num dado instante da
minha vida, eu tivesse dito a palavra não a um homem e sim a um outro, eu
teria me casado com o José e não com o Antônio. E não seria hoje astróloga,
teria continuado como economista num setor qualquer de uma empresa de
energia elétrica, estaria morando noutro bairro, teria outros hábitos de
consumo, outras amizades, filhos diferentes - ou talvez nem os tivesse -
outro padrão filosófico-religioso. Acho que teria menos dívidas também e
certamente não estaria aqui agora. Ou estaria? Talvez estivesse em um outro
ambiente qualquer, discorrendo sobre eletricidade, por exemplo, ou sobre os
problemas econômicos da ampliação da rede energética - que eram a minha
especialidade há anos.
É exatamente neste ponto que precisamos voltar à nossa pergunta do
início. Até onde vão os limites da nossa liberdade de decisão? Sabemos que
estamos presos, como por um cordão umbilical, a uma matriz cósmica; ela
nos "programou" com minúsculos cartõezinhos magnéticos, que são os
nossos cromossomas, com todos os seus gens e respectivas cargas de
memórias e heranças. Esses cartõezinhos se combinam, se somam, se
dividem e se atraem entre si de acordo com misteriosos e complexos rituais
probabilísticos. Finalmente, nossa matriz aciona um cronômetro e nos solta
neste mundo, exatamente como fazem as crianças com seus cachorrinhos de
brinquedo: algumas voltas na corda, e o cachorrinho anda três passos, late
três vezes, cai de novo sobre as patas, anda outra vez, até que acabe a corda.
É assim que somos concebidos: com um mecanismo interno muito bem
programado, com ordens específicas, rotinas e sub-rotinas de
comportamento, um conjunto nem sempre muito harmonioso de instintos,
emoções, necessidades, gostos, prazeres, medos, inclinações, talentos e
capacidades intelectivas. E um cronômetro! Não esqueçamos o cronômetro!
Quando acender a lâmpada azul, você se casará; quando acender a amarela,
você perderá seu pai; chegando a vez da lâmpada verde, você se tornará um
cantor de sucesso; quando, afinal, acender a vermelha, sinto muito, sua
bateria acabou.
O cachorrinho de brinquedo é um mecanismo bem simples, com um
programa interno muito limitado. Ele não tem desejos, nem emoções, nem
mesmo necessidades, exceto de que lhe dêem corda. O ser humano é
infinitamente mais complicado. A quantidade de rotinas de

120
comportamento que cabe num cérebro humano é quem sabe do tamanho de
uma galáxia. Há de fato quem compare as circunvoluções cerebrais com as
espirais galácticas. A semelhança, diga-se de passagem, é de pasmar. Dentro
de nosso programa interno, que nos é fornecido no mesmo instante da
concepção, já vem a instrução categórica, acoplada a uma infinidade de
dispositivos de segurança, totalmente à prova de violação e imune a qualquer
tipo de interferência externa: uma bomba-relógio perfeita. Depois de
acionada, poder algum evitará que seja detonada: essa instrução é a ordem
cósmica de nascer às tantas horas e minutos de um determinado dia, mês e
ano, a X graus de latitude e Y graus de longitude.
Por mais engenho e arte que possamos empregar, creio que jamais
possamos alterar a instrução cósmica do momento de nascer. Ou aquilo que
façamos, pensando alterar de algum modo aquela instrução, seja exatamente
o expediente de que se utiliza o "Grande Programador" para executar a
própria ordem contida na concepção. Noutras palavras, não há cirurgia capaz
de antecipar um nascimento, se ela não for feita exatamente para cumprir o
horário que já estava previsto na contagem regressiva. Pessoalmente,
acredito que a cesariana apenas salva vidas e talvez poupe algum sofrimento,
mas jamais antecipa um nascimento em relação àquilo que de fato estava
programado.
E assim viemos à luz, equipados com um mecanismo delicado,
terrivelmente complexo, repleto de engrenagens sutis e mutuamente
encadeados. Um corpo frágil, uma quantidade adequada de energia para o
movimento, a autoconservação, a procriação e a realização de certas tarefas,
segundo um programa de vida. É esse programa de vida que o astrólogo
chama de horóscopo. Parece bastante óbvio que não temos o poder de alterar
aquele programa básico. Para isso teríamos que tomar o lugar do nosso
progenitor cibernético. Seria um motim, um tremendo motim universal.
Imaginem nossos robôs, maquininhas tão dóceis e servis, de repente nos
expulsando da cabine de comando e alterando eles mesmo seus circuitos e a
seqüência das suas tarefas!
Não, nós não podemos mudar uma vírgula do nosso horóscopo de
nascimento, não podemos subtrair uma quadratura sequer e nem podemos
cogitar de suprimir um malfadado Saturno de seu incômodo alojamento - e
em todo lugar onde ele estiver, pode ser um hóspede aborrecido. Estamos
presos na ponta de uma corrente, como um cão de guarda perigoso. Quando
lemos o horóscopo de alguém, não fazemos mais que

121
mostrar aonde está a ponta da corrente de cada um. Aí estão seus limites -
"Non plus ultra." Mas, ainda que amarrado, o cão se movimenta. Pode
correr, ladrar e até morder um intruso.
Será que, sem sair dos limites do nosso horóscopo, temos alguma
liberdade para escolher alternativas? Essa me parece a parte mais simples do
problema. Sim, a liberdade aí é quase total. Diante de um mau aspecto de
Urano, abrem-se as seguintes alternativas: romper relações com alguém, o
que nos fará sofrer; assumir uma postura mais independente perante a vida,
o que exigirá de nós mais decisão e coragem; passar um período de intensa
atividade que nos levará uma estafa nervosa e quem sabe aos limites de um
enfarte; viajar de avião e não saber se voltamos para contar como foi;
estudar Astrologia; ou sofrer um acidente de moto.
As pessoas "escolhem" entre essas e outras alternativas. Dentro de um
certo nível, essa escolha é totalmente inconsciente. Entretanto, é muito
conhecido o chamado Efeito de Somatização. Quando se tem mau aspecto
de Lua, e não queremos ter desgostos familiares, a opção é arranjar uma
úlcera de estômago. É como se devêssemos um "tributo lunar", e
escolhêssemos uma espécie de plano de pagamento - a curto ou a longo
prazo, com ou sem juros, no plano físico ou no plano mental, etc. Como
dizia o velho Hermes, "há vários planos de causalidade, porém, nada
escapa à lei".
Em resumo, se temos uma dívida com Saturno, temos que pagar na
moeda de Saturno. Só o que podemos escolher - e já é um privilégio - é a
forma de pagá-la. Entretanto, restam ainda duas faces do problema. A
primeira delas se resume nos questionamentos: "não se poderia por acaso
sonegar esse imposto? Não há mesmo a possibilidade de simplesmente não
pagar a dívida?". Parece que queremos praticar aí uma fraude contra o nosso
horóscopo. Mas, se pensarmos na mão-de-obra que nos vai consumir essa
fraude, é de se acreditar que a Providência, que tem lá em cima o controle da
nossa contabilidade astrológica, nos dará um prêmio extra se conseguirmos
praticá-la.
Essa fraude é a transmutação, e a segunda face do problema é qual a
fonte da energia para realizá-la? Vamos ver como se pode operar esse
milagre. Suponhamos alguém com um enorme potencial artístico: seria um
verdadeiro atentado obrigá-lo a ser agricultor. Aquele outro é um excelente
vendedor, o que é que ele faria num laboratório de Física? Aquela corrente à
qual estamos atados não é necessariamente uma prisão

122
perpétua e desagradável. Nossa corrente nos aprisiona muitas vezes sob a
forma de um grande talento, uma vocação irresistível, que nos faz arrostar
todos os perigos do mundo e os obstáculos mais colossais. Perigos e
obstáculos são provas naturais, não são castigos da Providência. São testes
para verificar a energia de que somos capazes, e no fundo vão dar a própria
medida do nosso talento, porque, seja ele qual for, se é realmente grande,
perigos e obstáculos atuarão como estímulos para a realização; serão
desafios sedutores que apenas darão mais sabor à nossa vitória.
Isto não é mais um daqueles consolos ingênuos para os portadores de
horóscopos cobertos de quadraturas e oposições. É a minha visão autêntica
de astróloga e pesquisadora que mostra justamente esses horóscopos cheios
de dissonâncias correspondendo a pessoas muito realizadoras. Já, ao
contrário, mapas excessivamente "azuis" - ricos em trígonos e sêxteis -
representam personalidades frágeis e pouco dispostas para os grandes
combates da vida. O talento, entretanto, pode advir tanto de uma quadratura
como de um trígono. Apenas este último promete o êxito com menos esforço
e em menos tempo.
Mas existem casos em que o talento não aparece com tanta evidência,
não brilha como uma estrela de primeira grandeza. Será o caso de se
considerar uma pessoa medíocre? Ora, certamente, não se pode exigir que
todo artista se revele um Leonardo da Vinci. O que se tem a fazer é
desenvolver ao máximo o potencial que nos foi confiado. Entretanto, me
parece mais difícil de resolver o caso dos "talentos ingratos" - são as
vocações para as tarefas que o mundo burguês tem na conta de menos nobres
- por exemplo as tarefas da dona de casa, do pedreiro ou do limpador de
chaminés. Parodiando um filósofo oriental, eu direi apenas que ter uma
vocação é praticar voluntária e prazerosamente o que os outros só fariam
constrangidos.
Minha vocação é a minha força. Não importa se tenho um talento
pequenino ou brilhante, se é "nobre" ou "humilde" - ele constitui a minha
maior força, é a minha alavanca. E alguém já disse: "Dêem-me uma alavanca
e um ponto de apoio - e eu removerei a Terra da sua órbita". E o que será que
estamos fazendo com a nossa vocação? Recebemos do Criador uma grande
caixa de ferramentas e um quintal cheio de materiais de construção: é o
nosso mapa astral. O que fazemos com ele? Não adianta reclamar que faltam
tijolos ou que a pazinha veio quebrada. É trabalhar com o material que
existe, fabricar tijolos, se o projeto da nossa

123
mente era um palácio e não um casebre; consertar a pazinha quebrada, se a
nossa alma tem o poder e a imaginação para fazê-lo. Se recebemos da matriz
cósmica uma pá quebrada e tijolos de menos, e ainda assim construímos um
palácio, isso quer dizer que lançamos mão de um poder oculto de criação e
de transformação. Usando peças de ferro-velho, montamos uma destilaria no
fundo do quintal; e com a seiva de plantas daninhas e queimando objetos
inúteis para fazer fogo, conseguimos fabricar o legítimo whisky escocês!
Aqui neste mundo tão medíocre isso vai dar cadeia na certa, mas mereceria
o prêmio Nobel da Transmutação, se ele existisse! Em suma, há no ser
humano uma fantástica energia criadora, que só espera ser domesticada para
se colocar a serviço do próprio homem. Na dissonância mesma do próprio
chamado "mau aspecto" astrológico está oculta a força transformadora -
porque é no mau aspecto que existe atrito e sem atrito não se produz energia.
E assim acabamos resolvendo a segunda face do problema:
descobrimos que a fonte da energia está nos assim chamados maus aspectos.
De fato, é preciso existir chumbo, para que possamos um dia transformá-lo
em ouro. Eis os limites do nosso livre-arbítrio. Reconhecê-los e aprender a
conviver com eles é um belo desafio para o homem sábio. Porém,
superá-los, transcender, transmutar, não é privilégio de uns poucos
iniciados, é uma conquista que está ao alcance de todos - exige apenas
dedicação, força de vontade e disciplina. E com estas qualidades vivas de
Saturno que o aprendiz chega ao Mestrado: arranhando e lixando lenta e
conscientemente a Pedra Bruta, até que por debaixo do chumbo escuro
comece a aparecer o brilho do ouro, e nele se refletirá o fogo do Sol.
Transmutar é uma arte sublime e é durante o seu aprendizado que
descobrimos a verdadeira essência das provas a que nos submete nosso
horóscopo. Por vezes, o teste nos supera, e chegamos a pensar que somos
maus aprendizes; finalmente concluímos que o verdadeiro teste não era de
"vencer" um aspecto, e sim de nos "submetermos" a ele. São duas etapas da
nossa evolução, e ambas são igualmente necessárias. Como disse São
Francisco de Assis: "Dai-nos forças, Senhor, para aceitar com resignação
tudo o que não pode ser mudado. Dai-nos coragem para mudar o que pode
e deve ser mudado. Mas dai-nos também sabedoria para podermos
distinguir o que pode e o que não pode ser mudado".

124
Capítulo 11

125
126
fato conhecido que a ignorância costuma andar de mãos dadas com
a pretensão. São justamente as pessoas que menos conhecem um
assunto que se apresentam como doutas e se põem a falar dele da
maneira mais irresponsável. Foi com certo espanto que tomamos
conhecimento da matéria publicada no Correio Popular de 27 de
abril, intitulada Contra a Astrologia. Nosso espanto não se deve ao fato de
ser a Astrologia atacada por um cientista; nestes nossos mais de quarenta
anos de atividade profissional como astrólogos, estamos acostumados a
travar debates de alto nível com figuras do meio universitário. O motivo de
nosso espanto é que já há muitos anos não víamos argumentos tão infantis,
levianos, superados e inconsistentes.
Nosso articulista começa dizendo que a Astrologia "não possui
qualquer base racional de funcionamento". Acaso não será racional estudar
as relações existentes entre o homem e a natureza? Ou entre a terra e o
cosmos? Ou entre a vida e o ambiente que nos rodeia? Pois é exatamente isto
que se faz em Astrologia. Seu método é baseado em cálculos matemáticos e
posições astronômicas verdadeiras, e seus resultados avaliados mediante
correlações estatísticas. Ousaria o articulista afirmar que a Ecologia não
possui uma base racional? Não constitui um dos apanágios da nossa era a
consciência de que estamos, enquanto espécies viventes, absolutamente
vinculados, por estreitas e mútuas relações, ao ambiente

Este texto, redigido por Vera Facciollo, em nome da ABA e do SAESP, e publicado no
Correio Popular, de Campinas, em 25 de maio e 1º de junho de 1997, é uma resposta ao
artigo publicado no mesmo jornal em 27 de abril de 1997, pelo articulista Renato Sabbatini.

127
do nosso planeta? Não estamos nós na Terra o tempo todo sujeitos a
poderosas radiações cósmicas, capazes de provocar mutações genéticas e
mesmo profundas alterações - positivas e negativas - na constituição dos
organismos vivos? Apresentando-se como biomédico, é espantoso que o
articulista do Correio Popular ignore as recentes descobertas a respeito das
conseqüências sobre a nossa vida, advindas do rompimento da camada de
ozônio - até porque foram objeto de intenso noticiário, mesmo na imprensa
popular. E não são apenas radiações solares que nos atingem. Uma
quantidade incrível de energias desconhecidas - e, diga-se de passagem,
muito mal explicadas pelo meio científico - estão a provocar transformações
sensíveis na vida terrestre. Qualquer biólogo as reconhece hoje, mas até bem
pouco tempo atrás, a ciência oficial as ignorava, talvez por serem demasiado
sutis, talvez porque não havia ainda descoberto um método, nem
desenvolvido aparelhagem capaz de detectá-las. Sucederá o mesmo um dia
com as energias que a Astrologia já conhece há milênios, e cujas leis
estabeleceu com profunda seriedade e impressionante exatidão, embora não
possa ainda explicar a sua natureza.
É fato que as pessoas se divertem com a leitura de horóscopos diários,
publicados pela imprensa. Também é fato que muitos lêem a coluna da
Astrologia como quem se recreia com palavras cruzadas, sabendo que as
previsões aí escritas raramente batem com a realidade. Mas é preciso
esclarecer que horóscopos diários são, em 98% dos casos, escritos por
jornalistas, não por astrólogos. E, afora o simbolismo e a linguagem típica,
tais matérias nada têm de Astrologia, não passando de folclore repetitivo e
superficial, destinado a ministrar inofensivos conselhos e mensagens de
otimismo. Assim, criticar a Astrologia baseando-se nas matérias jornalísticas
da imprensa diária equivale a julgar toda a Medicina através de uma receita
médica prescrita, digamos, por um vidraceiro.
Acontece que a Astrologia não é ainda uma profissão regulamentada,
de modo que qualquer pessoa, sem preparo algum para o assunto, pode
auto-intitular-se astróloga, ganhar espaço numa revista e publicar asneiras.
Mas o articulista não se limita a atacar a Astrologia que chamamos
folclórica. Ele menciona "estudos científicos feitos por astrônomos" - como
se astrônomos pudessem ter alguma autoridade para julgar uma ciência tão
diferente da deles como, por exemplo, é a Psicologia em relação à Botânica!
Quais astrônomos e quais estudos, o autor se esquece de citar. Mas, para nos
atermos ao nosso exemplo, seria recomendável que o psicólogo

128
estudasse botânica uns bons anos numa universidade antes de aventurar-se a
publicar pareceres técnicos sobre o trabalho de um Linnaeus ou de um
Liebig. Quando se sabe que é preciso dedicar no mínimo 20 anos à pesquisa
da Astrologia - o mesmo tempo que um médico leva para obter alguma
experiência profissional, ou um biólogo para formar suas próprias teorias
sobre uma especialidade qualquer - só podemos considerar levianos e
irresponsáveis os comentários do tipo que vemos nesse artigo.
Mas, suponhamos que tais "estudos" possam ser feitos por alguém que
nunca estudou a matéria - como, é óbvio, é o caso deste nosso "articulista de
ciência" (sic). O mínimo que se exige é isenção de ânimo e honestidade
intelectual, qualidades que o autor carece desenvolver. Ele propõe a seguinte
pesquisa: tomar um grupo de 100 pessoas nascidas no mesmo dia e na
mesma hora - deveríamos acrescentar no mesmo local, coisa que o articulista
parece ignorar ser necessário para cumprir a função da pesquisa proposta -
uma condição bastante difícil, senão impossível, de preencher, uma vez que,
mesmo numa cidade grande como Tóquio ou Nova York, será realmente um
prodígio reunir 100 pessoas nascidas no mesmo instante. Mas, adianta ele, já
sabedor, de antemão, dos resultados: "veremos que pouca coisa existe em
comum entre tais pessoas". Segundo ele, "meras coincidências, diz ele, que
se diluirão se se tratar de pessoas oriundas de culturas distintas ou pontos
opostos do planeta".
Repetimos, em Astrologia - a científica, não a folclórica - é preciso
que as pessoas tenham a mesma data, a mesma hora e o mesmo lugar do
nascimento - se queremos comparar personalidades ou destinos. Acontece
que pesquisas deste gênero, e muitas outras, já foram feitas - está claro que
não pelo nosso articulista, nem pelos astrônomos que ele menciona, mas não
nomeia. Mais de uma vez, aliás, em diferentes países, e por verdadeiros
cientistas, dispostos a avaliar sem preconceitos e sem subterfúgios o
resultado que surgisse, ainda que contrário a suas convicções anteriores. E
todas essas pesquisas, sem exceção, concluíram que as semelhanças de
personalidade e de fatos da vida eram absolutamente marcantes e
indiscutíveis.
E para corroborar o que acabamos de afirmar, citaremos o mesmo
autor que o articulista menciona, Michel de Gauquelin. Em 1950, Gauquelin
- não um fisiólogo, como quer nosso articulista, mas um psicólogo -
começou a interessar-se pela pesquisa da Astrologia não para defendê-la,
mas para combatê-la. Baseou-se em levantamentos estatísticos feitos por
Leon Lasson

129
e Paul Choisnard, onde se colocava em teste a tradicional afirmação dos
astrólogos de que os planetas significadores de determinadas profissões se
colocariam nos ângulos - ascendente, descendente, zênite e nadir - da carta
astrológica do nascimento: Marte para os atletas e militares, Vênus para os
artistas, Saturno para os cientistas, Júpiter para os políticos. Gauquelin
levantou nada menos que 25 mil horóscopos de eminentes figuras européias,
entre campeões, generais, artistas laureados, políticos famosos, etc, tentando
demonstrar que a distribuição dos respectivos planetas significadores seria
igual para todos, o que provaria que tudo se devia ao acaso. Qual não foi sua
surpresa - e seu desagrado - ao descobrir que a estatística, muito ao contrário
do que ele esperava, provava que os astrólogos tinham razão. Nos mapas de
3.142 líderes militares, Marte aparecia nos ângulos 634 vezes, quando, pelo
acaso, deveriam ser apenas 535. A probabilidade de que tal distribuição
anômala se devesse ao acaso era da ordem de um para um milhão. Nos
mapas de 1.485 atletas, Marte apareceu nos ângulos 327 vezes - o acaso
daria 253. Probabilidade: um para 500 mil. E assim por diante.
Gauquelin publicou em diversos livros seus resultados e a polêmica
com os cientistas acadêmicos seus colegas, que, aliás - numa postura típica,
mas profundamente anticientífica - diziam preferir deixar de crer na
Estatística, a crer na Astrologia. Recomendamos a sua leitura ao nosso
articulista, para que compreenda melhor com que rigor científico se deve
fazer uma pesquisa sobre Astrologia antes de poder julgá-la. Gauquelin
levantou ainda o mapa de 15 mil casais e seus filhos, a fim de testar a
hereditariedade de posições astrológicas, encontrando novamente
correlações estatísticas importantes, muito além do admitido para resultados
devidos ao acaso. Para informação do articulista, e de seus leitores,
Françoise, a esposa, colaboradora e co-autora das pesquisas do Sr.
Gauquelin, e emérita estatística, esteve, há alguns anos, hospedada em nossa
casa, após participar de um Congresso de Astrologia. Tivemos oportunidade
de conhecer de perto suas idéias sobre a matéria, assim como as provas que
o casal reuniu em 30 anos de pesquisas.
O casal avaliou o desempenho de dezenas de astrólogos de várias
épocas e países, não apenas um "famoso astrólogo francês" de que fala
nosso articulista. Comparou estudos psicológicos de profissionais sérios,
não de pessoas ignorantes do povo, ansiosas apenas por verem um retrato
favorável na sua carta astrológica. E demonstrou de maneira inequívoca que
uma pesquisa idônea leva à confirmação da Astrologia

130
- nunca à sua refutação. Para concluir, vamos responder às "perguntas
embaraçosas" que sua revista dos Céticos nos propõe:
1ª) A probabilidade de que 1/12 da população tenha o mesmo tipo de
dia depende de fatores cósmicos que atingem uma região ou mesmo o
planeta como um todo; assim toda a cidade de Kobe sofreu com o terremoto
que a atingiu há alguns anos. O mundo todo sofreu com a 2ª Grande Guerra -
embora em diferentes medidas, conforme o país. Mas um bom astrólogo
pode identificar, com excelente precisão, dentro de uma população
conhecida, quais pessoas terão uma dor de barriga num determinado dia.
Entretanto, é importante que se diga, a Astrologia é uma ciência qualitativa,
e não quantitativa. Podemos prever muita chuva para um dado período - mas
não pretendemos dizer quantos milímetros de chuva cairão.
2ª) O momento da concepção também é estudado, e fornece
indicações interessantes quanto à formação do feto. O senhor biomédico
deveria estudar essa matéria, aprenderia muito com ela. No entanto, o
momento da concepção raramente é conhecido com precisão, o biomédico
deve saber bem disso. E quando a criança nasce, e respira, implanta-se nela
o horóscopo do nascimento. Antes de respirar, sua vida depende totalmente
da mãe. A Astrologia lida com a carta astral de alguém que já afirmou sua
independência vital. Quanto às crianças prematuras, ocorre o mesmo que
com as de tempo normal, ou com as de tempo excedido de gestação: só vale
o momento da primeira respiração.
3ª) Antes da descoberta de Urano, Netuno e Plutão, o mundo era
consideravelmente mais limitado. Os assuntos que eles regem na Astrologia
não existiam na consciência dos homens, e não fazia qualquer diferença que
existissem ou não, que fossem ou não colocados nos horóscopos das
pessoas. De que serviria Urano num mundo que não conhecia a eletricidade,
as máquinas, e os aviões - assuntos que ele domina? E para que se usaria
Plutão numa Terra que desconhecia a bomba atômica, o petróleo e os
computadores - coisas controladas pela influência deste planeta?
4ª) A influência dos astros não depende da sua distância. A influência
deles é possivelmente da mesma natureza que a luz, mas isso ainda é uma
hipótese. Sabemos, quase com certeza, que não se trata de influência
gravitacional, pelo menos não somente ela, portanto a "matemática
gravitacional" do nosso articulista não se aplica. A ciência descobrirá um dia
como tudo se processa, assim como descobriu as ondas hertzianas, os raios
gama, o ultra-violeta e o efeito Kyrlian.

131
5a) A Astrologia considera, sim senhores, as outras estrelas, além do
nosso Sol. Temos excelente estatística sobre sua influência, especialmente
em casos de cegueira, mortes por acidente, profissões, naufrágios, ganhos
em loteria e muitas outras coisas. Entretanto, confessamos não ter por
enquanto qualquer estudo sobre a influência de outras galáxias. Talvez por
falta de informações mais precisas dos astrônomos quanto à sua localização.
Sugestão anotada!
6ª) Por que os astrólogos não ficam milionários, embora possam
prever o futuro? Cremos que os bons e autênticos astrólogos se dedicam à
sua prática da mesma forma e com os mesmos propósitos que todos os
verdadeiros cientistas: por idealismo, por amor à ciência, não por dinheiro,
de modo que apenas sobrevivem com o seu trabalho. Mas, parece-nos
bastante óbvia a resposta à pergunta mais pueril de todas: saber prever não
significa necessariamente poder alcançar, nem poder evitar alguma coisa. De
resto, repetimos que nossa ciência é qualitativa. Prevemos tendências, não
números, nomes, endereços nem fatos inevitáveis.
A seguir, daremos uma lista de 10 cientistas e pensadores laureados
com o Prêmio Nobel, e que estudaram Astrologia e a apoiaram de modo
explícito e mesmo público: Alexis Carrel (Medicina, 1912); Arrhenius
(Química, 1903); Herman Hesse (Literatura, 1946); Maeterlinck (Literatura,
1911); R. Kipling (Literatura, 1907); Wolfgang Pauli (Física, 1945); Romain
Roland (Literatura, 1915); Theodore Roosevelt (Paz, 1906); R. Tagore
(Literatura, 1913); e Albert Einstein (Física, 1921). Há também dois
Prêmios Pulitzer: John O'Neill (1937) e Norman Mailer (1969). Isso para
não mencionar obras, tratados, cartas e documentos provando que estudaram
profundamente e pesquisaram sistematicamente Astrologia: Copérnico,
Galileu, Isaac Newton - que além de astrólogo era alquimista e ocultista,
facetas desconhecidas de um cientista autêntico, que só é famoso como
físico e matemático - Kepler, Tycho Brahe e Bode. Todos astrônomos!
Dentre os modernos astrônomos, citamos: M. L. Filipoff- do
Observatório da Argélia - Charles Nordmann - do Observatório de Paris - e
Bernard Lovell - Observatório de Jodrel Bank, em declaração publicada no
Sunday Times de Londres, em março de 1963. Teria nosso articulista a
coragem de afirmar que esses homens eram ou são cientistas medíocres, que
suas descobertas são duvidosas ou que seus trabalhos ficam invalidados
porque eles estudaram, acreditaram e se dedicavam à prática da Astrologia?
Diria que Isaac Newton era um supersticioso, um ingênuo,

132
um charlatão? Que Einstein - a quem devemos um dos mais comoventes
testemunhos escritos em defesa da Astrologia - era um tolo, metido numa
"atividade fraudulenta"?
Para finalizar, brindamos os leitores com uma expressiva declaração
do astrônomo John O'Neill, Prêmio Pulitzer e editor de ciência do New York
Herald Tribune, em carta dirigida ao astrólogo Sydney Omarr: "Falo como
cientista que não se desviou da absoluta fidelidade aos mais altos padrões
da evidência em apoio da verdade. Desvio-me, isto sim, da atitude comum
de cientistas ao depositar mais confiança na observação direta da Natureza
do que nos livros de texto das autoridades humanas. A Astrologia é um dos
mais importantes campos para a pesquisa científica, em nossos dias, e um
dos mais negligenciados. A Astrologia, propriamente definida, é a ciência
do relacionamento do homem com seu ambiente celeste. É o conhecimento
organizado e acumulado do efeito sobre o homem das forças que atingem a
Terra, vindas do espaço circundante. Nada há de não científico,
absolutamente, no fato de se realizarem pesquisas nesse campo, e não existe
estigma algum que se lhe possa associar na mente de qualquer cientista ou
leigo. Os cientistas não podem olhar do alto a Astrologia, antes terão de
levantar os olhos para alcançar os horizontes mais elevados que os
astrólogos reservaram para eles. Os ataques à Astrologia, sem prévia e
extensa investigação feita por pessoas competentes, devem de agora em
diante ser vistos como prática antiquada, nada científica, intimamente
relacionada com a caça aos feiticeiros, e devem ser corretamente
diagnosticados como sintomas de paranóia profissional da parte dos
indivíduos atacantes".

133
134
Capítulo 12

135
136
Pequena síntese baseada em estudos teosóficos

s primeiras raças humanas se desenvolveram a partir dos


mamíferos que havia na Terra. Os Senhores da Chama - também
chamados Manus - espíritos muito adiantados, a serviço do Plano
Divino da Evolução, deram forma a um primitivo embrião
humano, preparando-o de forma a poder receber um corpo vital.
Esses primitivos seres começaram sua evolução na região polar da Terra.
Eram como grandes filamentos de matéria astral, branco-amarelada, sem
uma forma definida. Porém, já eram dotados da Centelha Monádica humana.
Receberam o nome de chayas, que, em sânscrito, quer dizer sombras. Não
tinham sexo e se reproduziam por cisão. Flutuavam livremente pela
atmosfera, e estavam em um estado de inconsciência absoluta. Possuíam
vislumbres do sentido da audição e uma vaga consciência do fogo. Não
morriam, sua morte era na verdade a passagem para uma outra raça,
mediante o envolvimento por uma capa fluídica mais densa, sob a qual
desaparecia o antigo ser. O corpo da raça antiga tornava-se o "duplo etérico"
da nova raça.
A nova raça, a hiperbórea - que quer dizer para além do norte -
desenvolveu-se pouco abaixo do Círculo Polar Ártico. Desenvolve-se o
corpo vital, sob os raios do Sol, mais intensos nessa época. A consciência se
amplia a todos os planos espirituais. O corpo fluídico é dotado de um único
olho na testa - não era propriamente o órgão da visão, mas da intuição, da
visão espiritual. As fontes ocultistas nos ensinam que nossa glândula pineal
é a atrofia desse olho central. Esse corpo, mais denso, começa a exigir
alimento físico, que são os vegetais. Na Bíblia, essa fase é simbolizada por
Caim, o lavrador.

137
Sua reprodução é semelhante ao da raça anterior, por bipartição, e os
seres são ainda andróginos. Seu estado de consciência é como o de um sono
sem sonhos. Desenvolvem-se os sentidos da audição e do tato. Os indivíduos
apresentam uma cor amarelo-dourada e do alaranjado ao amarelo claro. Há
entre suas formas algumas que ainda lembram animais, outras já se
diferenciam e se aproximam da humana, com a faculdade de se chamarem
umas às outras, de subirem às árvores, conservando a capacidade de
flutuarem no espaço.
O ambiente físico da Terra lembrava um esplendoroso paraíso. Os
corpos vão-se tornando mais e mais densos, e sua reprodução por bipartição
vai sendo acompanhada pela exudação de gotas de suor viscoso que vão aos
poucos endurecendo, crescendo e tomando várias formas: são os chamados
"nascidos do suor", que já apresentam rudimentos dos dois sexos.
Apresentam-se nesta segunda raça as primeiras manifestações da
inteligência, com a construção de casas, instrumentos e ferramentas. O
continente lemúrico se apresenta propício ao desenvolvimento da nova raça
que se prepara. Estendia-se da parte oriental da Ásia até além da Austrália,
grande parte do Oceano Pacífico era nesse tempo terra firme. Os lemurianos
viviam num estado de inocência, ignorando o mal. Os Senhores da Mente
implantaram o germe mental nos seres mais adiantados dessa raça,
dando-lhes assim a possibilidade de um ego separado.
O ser é ainda andrógino e a reprodução continua a ser feita pela
exudação do suor viscoso. Começam, porém, a diferenciar-se os elementos
dos sexos, surgindo características mais masculinas numa parte dos seres e
mais características femininas na outra parte. As gotas de suor endurecem
mais e se transformam em um ovo, de onde nasce o ser. O corpo astral - ou
corpo dos desejos, sede dos instintos - se desenvolve. Todo esse processo
prepara cada vez mais o advento da separação dos sexos, que se completa na
quarta sub-raça desta Terceira Raça-Raiz.
Com o corpo dos desejos e a separação dos sexos - fatos que deram
origem à lenda de Adão e Eva, da Queda ou Descida na Matéria - o homem
recebe a faculdade criadora (reprodução da espécie) por meio de órgãos
sexuais individualizados. O ovo deixa de ser externo, é internalizado ao
útero da mulher. O homem sofre intensa transformação anatômica, ganhando
mais costelas, para que seu abdômen possa comportar um feto. Com essa
separação dos sexos e uma maior evolução no meio físico, e precisando
ganhar seu sustento com o próprio esforço, perdeu o homem

138
a consciência do mundo espiritual. Começa, assim a afastar-se do paraíso.
O regime alimentar dessa terceira raça modifica-se, adotando o leite, ovos,
frutos, e possivelmente a carne - simbolizando Abel, o pastor.
Na última parte do período lemuriano o homem adquiriu a postura
ereta, desenvolvendo o sangue vermelho, por cujo intermédio o Ego pode
penetrar dentro do corpo e governá-lo. A Queda do Homem simboliza, nas
nossas lendas religiosas, a decisão dele de querer ser seu próprio senhor, e
não obedecer cegamente aos espíritos-guias. Os humanos foram a isso
instigados pelos espíritos luciferianos, chamados serpentes, os quais
iluminaram a mente humana e lhe abriram o entendimento. Com isso,
aprenderam os homens a distinguir o Bem do Mal, fato simbolizado na lenda
da Árvore proibida do centro do Paraíso. Essa Queda consistiu na perda do
Paraíso, bom para os homens na sua infância, mas que não podia continuar
sendo eternamente sua habitação, porque era necessário que o homem
conhecesse não só o bem, mas também o mal, a fim de tornar-se responsável
e independente na condução de seu comportamento e evolução.
A Lemúria foi destruída em grande parte por cataclismas vulcânicos, e
no lugar que hoje é o Oceano Atlântico, surgiu um novo continente, a
Atlântida. Isto ocorre há cerca de oito milhões de anos. Surge uma raça de
gigantes, com a testa diminuta, alguns de boa índole, outros nem tanto. É a
origem das nossas lendas e narrativas sobre gigantes. Fernão de Magalhães
ainda encontrou na Patagônia - nome que significa "pé grande" - exemplares
desse seres. O continente atlante desapareceu no mar há cerca de 200 mil
anos, restando apenas algumas ilhas, que afundaram em partes, uma há 75
mil anos e o restante há cerca de 11 mil anos - sendo esta última catástrofe
retratada por Platão nas obras Crítias e Timeu.
Houve sete Raças Atlantes, que foram praticamente as originais das
nossas raças atuais: Rmoahals, com pouca memória, mas notável sentimento
e boa índole; os Tlavatlis, amarelos, pacíficos; os Toltecas, de pele
avermelhada, eram gigantes com até oito metros de altura, que conheciam a
agricultura, a química, a alquimia, a astronomia; voavam em aeronaves e
tinham escolas organizadas; eram guerreiros e seus reis abusaram de seus
poderes.
A quarta raça foi a dos Turânios originais, também gigantes,
guerreiros e agressivos, origem do povo chinês. A quinta raça foi a dos
Semitas, turbulentos, belicosos, comerciantes e astutos. A sexta raça foi a
dos Acadianos, de onde vieram os Pelasgos, na Grécia, e os Etruscos, na
Itália.

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A sétima raça atlante foi constituída pela raça amarela, origem dos atuais
povos asiáticos. Os povos atlantes, em ondas sucessivas, colonizaram os
outros continentes, povoando as Américas, a Europa e o norte da África,
dando origem assim aos povos indígenas do continente americano, aos
europeus atuais e aos egípcios, espalhando-se também por toda a Ásia. A
Raça Ariana parece começar na índia, até onde podemos rastreá-la
historicamente, mas certamente proveio diretamente das raças do Norte. As
raízes etimológicas nos levam aos idiomas indo-europeus, traçando
indubitável vínculo familiar. A Raça Ária se desdobra em sub-raças:
ária-primitiva, ária-semítica, iraniana, céltica, teutônica e eslava. Uma outra
raça ária aparecerá possivelmente na América. Durante o advento da sexta
raça haverá uma verdadeira unificação da grande família humana, com
grandes semelhanças raciais em toda parte.

140
Capítulo 13

141
142
e onde viemos? Esta é uma velha indagação da humanidade. Os
cientistas propõem a Teoria Evolucionista, preconizada por
Charles Darwin, segundo a qual taxativamente descendemos dos
símios. Geneticamente, as semelhanças são assombrosas entre o
chimpanzé e o homem, de modo que a teoria, do ponto de vista
puramente científico, se confirma. Já os criacionistas recusam a Teoria
Evolucionista, propondo o surgimento do homem num lance único e quase
repentino, por vontade divina. A Teosofia, alicerçada em fundamentos
herméticos, coloca, com profunda coerência e perfeita lógica, a origem da
vida na menor partícula do universo, o átomo.
Do ponto de vista dos alquimistas, o próprio átomo é vida, possuindo
memória e inteligência. Assim, toda vida é oriunda do reino mineral, que dá
nascimento a duas linhas evolutivas separadas, desembocando em resultados
distintos. Uma tem por objetivo final a criação do homem perfeito ou
Adepto, a outra tem por fim a criação do Deva, ou Anjo, cuja densidade é
mais sutil. Ambas, porém, necessitam evoluir passando por diferentes reinos
e formas, levando nesse percurso vários milhões de anos terrestres, e
adquirindo durante esse tempo as características morfológicas, fisiológicas e
anímicas de cada reino e forma física. Eis, esquematicamente a seqüência
evolutiva:

Essência Elemental  Mineral  Vegetal  Animal 


Homem  Homem Perfeito
Mineral  Vegetal  Animal  Espírito de Natureza (etérica) 
Espírito da Natureza (astral)  Anjo ou Deva

143
O principio da vida é o átomo, essência elemental da Primeira
Centelha Divina, que passa por sucessivas transformações no decurso de
muitas Eras, chegando finalmente ao reino mineral sob a forma de pó, argila,
pedra, rocha, cristal ou metal. Cristais e metais estão no topo da cadeia
evolutiva no Reino Mineral, sendo as formas aperfeiçoadas que o mineral
pode assumir em nosso Sistema Solar. Desse reino, herdamos nossa estrutura
óssea. Após outras eras mais, o mineral adotará uma forma terrestre ou
aquática: se terrestre, tornar-se-á líquen ou musgo, para evoluir sob formas
mais complexas, na direção de plantas com flores, ou árvores. Ou então
caminhará para os fungos - que são formas híbridas entre os reinos vegetal e
animal - na direção das ervas, gramíneas e cereais. Se aquática, tornar-se-á
plâncton, alga marinha, corais, esponjas, na direção de formas mais
evoluídas de plantas marinhas.
Do Reino Vegetal, herdamos nosso Sistema Neuro-Vegetativo,
desenvolvendo sensibilidade aos estímulos externos e os primórdios do
sistema circulatório. Decorridos eons, dar-se-á a passagem do Reino Vegetal
para o Animal. Do ramo das algas e corais surgirão os polvos, crustáceos e
finalmente os peixes. Do ramo dos fungos advirão as bactérias, os insetos,
pequenos répteis e os pássaros; do ramo das ervas e cereais, advirão as
abelhas e formigas, insetos mais desenvolvidos e organizados socialmente.
Das plantas com flores e das árvores advirão os grandes répteis e os
mamíferos inferiores, que se desenvolverão na direção dos mamíferos
superiores.
Do Reino Animal herdamos o Sistema Sangüíneo - e especificamente
o sangue quente, responsável pelo surgimento do futuro Corpo Mental
humano. É também do Reino Animal que herdamos a especialização dos
órgãos internos e dos cinco sentidos. Os reinos seguintes - não
necessariamente os últimos - surgirão a partir do abandono progressivo das
formas animais e adotando outras mais evoluídas, complexas e sofisticadas.
Na evolução aquática se desenvolverão formas etéricas, que darão origem às
ondinas - espíritos da Natureza ligados à água - depois aos espíritos das
nuvens, aos silfos e finalmente aos Devas. De um ramo independente da
evolução terrestre, surgirão os gnomos, seres da Natureza ligados ao
elemento Terra. Os pássaros se tornarão espíritos de planos superiores, como
as salamandras (ligadas ao elemento fogo). Abelhas e formigas se tornarão
pequenos seres etéricos, que futuramente serão as fadas terrestres. Todos
têm como direção geral da evolução os Devas.

144
Talvez seja importante ressaltar que tais formas elementais são de
uma dimensão bastante mais sutil que a humana, razão pela qual não nos são
visíveis comumente. É preciso desenvolver a chamada Terceira Visão para
poder reconhecê-las, e, eventualmente, entrar em contato com elas.
Entretanto, algumas pessoas são naturalmente dotadas de tal visão, e elas
podem - e fazem - contato, em geral desde a infância. Tais pessoas são
muitas vezes consideradas fantasistas e mesmo desequilibradas, não sendo
raro que as internem em asilos para loucos. É possível, contudo, em
condições muito especiais, registrar, com máquinas fotográficas, a imagem
das fadas, gnomos e outras formas sutis. Os mamíferos superiores se
tornarão homens, depois homens evoluídos
- os discípulos - e finalmente Adeptos. Estes escolherão um caminho
especial, no qual destinarão toda a sua energia para a redenção e auxí
lio dos seres e das espécies que lhes estão abaixo.
Os estágios mais evoluídos dessa cadeia ascendente - os Adeptos e os
Devas - se desenvolverão para o nível que a Teosofia chama Dhyan Chohan,
Mestres de Luz e condutores de povos, coordenadores dos planos evolutivos
do nosso sistema e de outros, no universo afora. Como vemos, o esquema
teosófico não nega a Teoria Evolucionista, mas amplia-a, dotando-a do
necessário conteúdo espiritual. Não proviemos simplesmente do macaco,
como grosseiramente se propunha, mas de uma centelha divina imortal, que
habita formas cada vez mais perfeitas e belas - e ao mesmo tempo mais
adaptadas ao meio ambiente, como queria Darwin - sendo que a matriz
genética final, ou último estágio pré-humano, pode ter sido o chimpanzé,
mas que também pode ter antes habitado outros corpos de mamíferos
superiores. Nossa evolução requeria uma forma física - e para isso, muitos
moldes serviriam. Essa necessidade de um "molde" não reduz nossa
importância, nem representa uma "humilhação", apenas é o caminho da
evolução natural da vida. Não reconhecer isto é duvidar da sabedoria do
Universo.
Somos, portanto, aquele mesmo átomo que existiu sempre no seio do
Todo. Sabemos tudo, porque vimos tudo acontecer: o "Big Bang" - ou o que
quer que se lhe corresponda - a expansão do universo, o surgimento das
estrelas e galáxias, o esfriamento da Terra, o nascimento da água, da
atmosfera, dos vegetais, animais e humanos, que costuma mos chamar de
Criação. Na verdade, não há uma Criação separada do Criador, mas apenas
e tão somente o Todo - unidade absoluta, eterna,

145
imortal, uma consciência omnipresente e omnisciente, que se manifesta sob
a forma de um - ou muitos - universos, cuja densidade percebemos como
fenômeno visível. Somos parte desse todo, como células de um corpo. E
como parte desse Todo, estão contidos em nós tanto a inteligência como o
conhecimento e o poder do todo.
A idéia de um Criador fora de nós - aquele deus muito humano, velho,
enorme e barbudo, zangado e vingativo, pairando nas nuvens, como o que se
vê pintado no teto de certas igrejas, como a Capela Sistina - é infantil e
grotesca, indigna de persistir nas crenças de um povo civilizado. Tal como
nos ensinava Hermes Trismegisto há 6.000 anos, o que está em cima é como
o que está embaixo, numa proposição confirmada pela ciência do século
XXI, agora descobrindo que em uma única célula viva está contido todo o
segredo do corpo completo, possibilitando assim a sua clonagem. Em suma,
o homem é capaz dos mesmos milagres que a Divindade, simplesmente
porque é parte dela, e mais que isso, porque é como ela.

Veículos da alma

Seguindo uma abordagem do teosofista Jinarajadasa, somos dotados


de vários corpos, que pertencem a diversos planos de causalidade, e a
diversos níveis de densidade. A Teosofia distingue sete corpos, dos quais os
mais importantes são:
Plano Físico: um corpo físico para agir - preparado para reações
sensoriais ou instintivas.
Plano Astral: um corpo astral - para sentir emoções, desejos.
Plano Mental Inferior: um corpo mental para pensar - registrando
idéias, pensamentos concretos.
Plano Mental Superior: um corpo causai para evoluir mediante
ideais, e capaz de pensamentos abstratos. É neste plano que fica registrada a
memória das vidas passadas. Nele são julgadas as ações cometidas e quais
as suas conseqüências kármicas para as vidas seguintes. Juiz absolutamente
imparcial, decide quais experiências são mais adequadas para a evolução
espiritual daquele ser, indiferente se elas lhe causarão prazer ou sofrimento.
Na Iniciação Egípcia, equivale ao Tribunal de Osíris, onde Maat, a deusa da
Verdade, avalia e julga os atos do Neófito.

146
Tipos de almas que reencarnam

Almas Não Desenvolvidas: reencarnam numerosas vezes em cada


sub-raça, necessitando captar minuciosamente as experiências de cada uma,
antes de passarem à seguinte.
Almas Simples: ultrapassaram o período selvagem, porém, são pouco
inteligentes, dotadas de pouca imaginação e sem iniciativa.
Almas Civilizadas: a) reencarnam duas vezes em cada sub-raça.
Passam em média 1.300 anos no mundo celeste; b) reencarnam mais de duas
vezes na mesma sub-raça. Passam em média 700 anos no mundo celeste.
Cabe notar que atualmente o prazo desse estágio no mundo celeste está
muitíssimo reduzido - possivelmente devido ao imenso número atual de
seres humanos vivendo na Terra, que esperam uma oportunidade de
encarnar, e também devido à aceleração dos efeitos kármicos por causa da
Era Evolutiva em que estamos ingressando: a Era de Aquário.
Almas no Caminho: Reencarnam quase imediatamente sob a direção
de seu mestre; renunciam a seu período de vida no mundo celeste.
Adeptos: Não necessitam mais reencarnar. Entretanto, retornam à
Terra se e quando desejam, a fim de cumprir uma missão junto à
humanidade.

Lei do Karma

Da vida passada - produzem - na vida presente


Atos serviçais - bom ambiente
Atos prejudiciais - mau ambiente
Aspirações e desejos - capacidade
Pensamentos sustentados - caráter
Êxitos - entusiasmo
Experiências - sabedoria
Experiências dolorosas - consciência
Desejos de servir - espiritualidade

A palavra sânscrita Karma significa "resultado de uma ação". Assim,


cada ato nosso produz uma reação correspondente, sempre no mesmo plano
de causalidade. Um ato material produzirá resultado no nível material; um
pensamento gera resultados no plano mental, e assim por diante. O esquema
acima mostra com propriedade como atua essa Lei

147
de Causa e Efeito. Não há propriamente castigos ou recompensas, mas
apenas ação e reação: atos e resultados. O conhecimento da Lei de Causa e
Efeito mostra a todo ser humano o quanto vale a pena ser virtuoso e praticar
o bem - e quanto sofrimento lhe está reservado se agir mal. Seria certamente
mais útil e efetivo, se, ao invés de ameaçar-nos com penas eternas num
inferno povoado de demônios, simplesmente nos ensinassem, desde a
infância, a existência da Lei de Causa e Efeito, e como ela nos alcança com
muito mais eficiência do que as leis humanas. Ainda que talvez possamos
escapar impunes de um crime na vida presente, um tribunal de outro nível
nos julgará no futuro, e diante dele, nenhum ardil ou mentira poderá
prevalecer.

Os tipos humanos

A evolução humana, como vimos, provém dos mamíferos. A corrente


da vida, que irá, mais tarde, tornar-se a humanidade, manifesta traços
rudimentares de especialização, mesmo em suas fases primitivas de vida
elemental, mineral e vegetal. As características ficam mais perceptíveis
quando o ser atinge o reino animal. Essa vida, destinada a tornar-se humana,
compreende sete tipos fundamentais, apresentando cada tipo modificações,
quando de algum modo influenciado pelos outros. O estudo desses tipos
seria de grande valia aos psicólogos na compreensão dos enigmas da alma
humana. Esses tipos persistem através de todos os reinos que precedem o
humano. A vida que anima os cães é distinta da que anima os gatos; a que
anima os elefantes é por sua vez distinta das outras duas.
A vida do cão evoluiu nas formas dos lobos, chacais e outros caninos
antes de chegar ao cão doméstico, sua mais elevada forma de encarnação. Da
mesma maneira, outros tipos de vida animal, tais como o gato, o cavalo, o
elefante e o macaco, tiveram as suas primeiras encarnações nas formas mais
selvagens e pré-históricas das mesmas famílias. E uma perspectiva
impressionante ver como esses tipos animais se manifestam entre a
humanidade. Vemos então como a vida canina entra no reino humano sob a
forma de alma devocional - resultado dos sentimentos profundos de
dedicação incondicional a seu dono.
Os sete tipos são bastante perceptíveis. Nenhum é superior aos outros,
simplesmente todos são necessários ao grande drama da evolução. Segundo
o grande teósofo Jinarajadasa, são eles: o devocional,

148
o afetivo, o dramático, o científico, o executivo, o filosófico e o ritualístico.
Entre as almas devotas, distinguimos as que se dirigem diretamente a Deus,
em seu coração e mente, e outras para quem Deus permanece como uma
idéia vaga, a menos que Ele seja concebido sob a forma de um mediador -
seja ele Jesus, Budha ou Krishna. Há também almas de tipo devocional que
são influenciadas pelo aspecto dramático da vida, e que desejarão o martírio,
não por vaidade ou anseio de chamar a atenção sobre si, mas porque, para
elas, é irreal uma vida de devoção se não for continuamente dramática.
O tipo afetuoso também possui variantes. Há aqueles para quem toda
a vida está concentrada no amor de uma alma isolada, são os Romeus e as
Julietas, que estão prontos a tudo renunciar por um ser amado. Outros não
são capazes senão de um amor menos intenso, mas procuram estendê-lo a
um círculo maior, considerando importante constituir uma família, cercados
pelos pais, filhos e amigos, são atraídos pelas atividades filantrópicas. O tipo
humano dramático é freqüentemente incompreendido. Para os indivíduos
desse tipo, a vida só é real quando é uma cena dramática, a alegria não é
alegria, a não ser dentro de um drama em que a alma represente o principal
papel; a dor não é dor, senão quando ela é uma novela mexicana: toda
lágrimas. Outros serão atraídos pelo teatro, em cujo palco se desenrolam
duplicidades e contradições. Outra variante, mesclada com o tipo filosófico
da vida, resulta no autor dramático. Enquanto que as almas do tipo
dramático com tendências executivas acharão encantos na carreira militar ou
de líder político.
Entre as do tipo científico, se distinguem duas variantes - a teórica e a
prática. Uma terceira variante manifesta uma disposição reverenciai, onde
mesmo o tipo dado às investigações científicas sempre acha que o universo é
a morada de Deus. O cientista que tende ao efeito teatral em seus métodos é
influenciado pelo tipo dramático. Do tipo executivo, existe a variante
dramática, visível em muitos líderes políticos, e uma outra, o tipo
magnético, capaz de inspirar profunda lealdade em seus subordinados, mas
sem nada de espetacular, preferindo conservar-se à sombra, contanto que o
trabalho se faça. Quanto ao tipo filosófico, as diferentes maneiras pelas
quais os filósofos apresentaram suas concepções da vida correspondem ao
que eles mesmos são como expressão da vida única.

149
Finalmente, um outro tipo, também pouco compreendido, inclui as
pessoas a quem o simbolismo atrai fortemente. A vida somente é real quando
expressa sob uma alegoria. A religião só tem sentido quando associada a um
cerimonial. Os paramentos sacerdotais, as procissões, rituais, etc, são parte
do culto dessas pessoas. Há muitos modos de realizar o que podemos chamar
de Plano Divino e realizar a obra comum, e, perante o cosmos, todos são
iguais. Há um caminho para cada um, e enquanto seguimos nossa própria
rota, cabe-nos ajudar os outros a seguirem a sua. O seguinte esquema
sintetiza os tipos humanos abordados:

Devocional - diretamente a Deus


- ou por um mediador

Afetivo - amor intenso por alguém


- filantrópico

Dramático - ator
- devoto - mártir
- filosófico - autor
- executivo - guerreiro

Científico - teórico
- experimental
- reverencial
- teatral

Executivo - magnético
- dramático

Filosófico - sintético
- analítico
- artístico
- humanitário

Ritualístico - cerimonial
- simbólico

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O temperamento animal

Somos "descendentes", através da encarnação, de um certo tipo


animal. Assim, se nossa primeira forma animal foi um canídeo, seremos
sempre uma forma de vida canina, com todas as variantes possíveis. Uma
vez felino, sempre felino, e assim por diante - com raras exceções. Isto
explica certas preferências que manifestamos, ao chegarmos à encarnação
humana, por um determinado tipo de animal doméstico - ou mesmo
selvagem. É fácil reconhecer inclusive pela forma do rosto, pelo tipo do
corpo e pelo temperamento, qual animal foi nossa forma primitiva. Tudo
indica que os animais representados no Zodíaco - seja o ocidental, seja o
oriental - são as formas primitivas dos mamíferos dos quais descendemos.
No horóscopo de nascimento, vemos muitas vezes o animal típico no signo
ascendente ou solar. Os mais reconhecíveis são: o carneiro, o boi, o leão - e
sua longa lista de felinos - o cavalo, a cabra, o macaco, o porco, o rato, o
coelho, o cão, o camelo e o elefante.
O carneiro mostra no rosto humano uma forma triangular, testa alta,
temperamento doce e tímido. Serviçal, útil, fisicamente forte, teimoso e
trabalhador. É pontual, dedicado às suas obrigações, e dá ótimos operários,
militares de baixa patente, empregados de confiança e capatazes. O boi
apresenta o rosto largo, quadrado, olhos salientes, modos submissos e
propenso às tarefas que exijam rotina e dedicação. Tende às ocupações
práticas, dependentes e braçais. Dá as donas de casa de tempo integral, os
agricultores, os funcionários zelosos, os operários de pouca especialização,
mas de alta produção.
O felino apresenta duas variantes, a selvagem, que corresponde ao
leão - ou pantera, puma, jaguar, onça, etc - tem a face achatada, larga,
cabelos revoltos e temperamento altivo, com modos militares. A variante
doméstica é o gato, que tem uma face mais delicada, modos sinuosos, fala
macia. É indolente, diplomático e em geral só faz o que aprecia, não o que
lhe mandam. O primeiro tipo busca o poder, e comumente ocupa altos postos
ou está ao lado dos governantes; o segundo tipo busca a segurança dos
empregos pouco exigentes e fontes de renda permanentes. O cavalo tem em
geral alta estatura, estrutura óssea grande, especialmente na cabeça, que é
retangular, mandíbulas largas, dentes grandes. É dedicado, leal, serviçal,
generoso, dado às viagens, às causas humanitárias, às profissões artísticas -
(há muitos atores nessa categoria - alguns muito típicos, como

151
Clint Eastwood, Robert Redford, Romy Schneider, Grace Kelly) - políticas e
religiosas. Como o cão e o gato, é uma das formas animais mais comuns
entre os humanos. A cabra possui uma face angular, semelhante ao tipo
humano do carneiro, mas com os olhos mais salientes e a testa mais baixa. É
tímido, retraído, gentil, serviçal e gosta de trabalhar e viver sozinho. Pode
ser eremita ou pessoa de vida simples, como os camponeses e artesãos. O
macaco tem duas variantes, uma que parece provir dos grandes símios -
lábios grossos, nariz largo, testa alta; neste caso, é calmo, intelectual ou com
tendências artísticas. Outro tipo parece descender dos pequenos símios, e
então é de face delicada, grandes olhos, porte médio ou miúdo e modos
agitados, talentos variados, hábil, falante, inteligente e curioso. Podem ser
comerciantes, atores, dançarinos ou políticos. Na versão ruim, produz os
ladrões, os malandros, os tipos vulgares e agressivos.
O porco tem a face larga, arredondada, testa pequena, às vezes com
orelhas grandes, corpo avantajado, com tendência para engordar.
Temperamento serviçal, capaz de grandes sacrifícios, mas guardando uma
revolta íntima; dá bons administradores e donas de casa. Quando são de
pouca evolução, são avarentos e maledicentes. O rato tem porte pequeno,
corpo magro, olhos muito juntos, nariz fino. É hábil, cauteloso, ambicioso e
esperto; dá bons vendedores, comerciantes e funcionários de carreira. Numa
versão ruim, pode dar malandros profissionais, ladrões e falsários. O coelho
é magro, porte baixo a médio, ágil, face estreita e pequena, mas com orelhas
grandes e boca sempre aberta; dentes proeminentes, que necessitam aparelho
corretivo; geralmente tímido, parece muito frágil e carente de proteção. É,
contudo, afetuoso, dócil e bom amigo. Pende para as profissões utilitárias,
seguras e subalternas, que não exijam iniciativa nem grandes energias.
O cão possui duas variantes: a selvagem, cuja ascendência é o lobo e
linhagens paralelas - é forte, corpo bem proporcionado, boa musculatura,
rosto quadrado, olhos vivos, inteligência alerta. Dá bons militares, atletas e
atores, e, em sua versão má, dá os assaltantes e assassinos. A variante que
descende do cão doméstico tem as mesmas características físicas, é
geralmente de rosto bonito e modos gentis, é leal e devotado às pessoas e a
uma causa, e tende às profissões intelectuais, científicas ou religiosas. O
camelo é de porte médio ou grande, corpo algo desajeitado ou
desproporcional. Rosto grande, dentes salientes, nariz largo, olhos
inexpressivos. Face irregular, às vezes desagradável de ver,

152
mas com uma índole fiel, devotada e capaz de sacrifícios totais. Buscam
posições subalternas onde possam servir a alguém por toda uma vida.
Podem dar grandes idealistas ou fanáticos irrecuperáveis.
O elefante tem sempre um porte elevado e formas gigantes. Ossos
largos, cabeça grande, freqüentemente calva. Nariz desenvolvido, mãos e
pés enormes, tendência para comer muito e engordar. O temperamento é
geralmente dócil, generoso, disposto ao sacrifício e às grandes causas.
Laborioso, dedicado, ânimo forte, inteligente e sensível. Entretanto, é
temperamental, e, às vezes, revela uma disposição vingativa inesperada. Dá
bons comerciantes, intelectuais, viajantes e proprietários.
Ainda que cada ser humano traga em si as características corporais e
psicológicas de seu animal ancestral, o grau de evolução que for atingindo
no curso das encarnações fará com que sua inteligência se desenvolva, seus
sentimentos se refinem e seu corpo físico adquira beleza e perfeição. Quanto
mais próximo do topo da evolução, mais o tipo físico se afastará do
arquétipo animal, e mais se parecerá com o arquétipo hominal próprio de
cada raça ou cadeia evolutiva, rumo à perfeição.
Indo mais para trás na linha da evolução, cada espécie animal proveio
de um certo grupo do reino vegetal, e poderíamos, por exemplo, reconhecer
no elefante seu ancestral vegetal num majestoso jatobá ou numa seqüóia; no
coelho, um delicado jasmineiro; no leão, um frondoso carvalho; no cão, uma
linda roseira cheia de espinhos; no cavalo, uma nogueira ou uma oliveira -
árvores belas e úteis; no macaco, uma trepadeira, e assim por diante. 0
processo evolutivo mostra uma atividade incessante, onde se processa a
conversão do Um em Muitos. Não é um processo em que cada um luta por
si, mas em que cada qual chega à compreensão de que a sua mais alta
expressão depende do serviço prestado a outros, por serem todos parte do
um. A Evolução da Forma não é uma série de partes semelhantes
simplesmente acopladas, mas um todo constituído de partes diferentes em
que uma depende das outras.
Por outro lado, a Evolução da Vida não se limita a um único
temperamento, um único credo, um único modo de pensar, mas tem por
característica a diversidade de temperamentos, de formas, de credos e de
maneiras de servir, que se unem todos para cooperar com o cosmos e se
lançam na realização do Plano Divino. Nesse processo, nada ocorre por
acaso, tudo segue um plano inteligente e perfeito. Ao contrário do que
acreditam certas correntes de cientistas, a vida e os fenômenos do universo
não são

153
resultado do acaso, ou de um conjunto caótico de circunstâncias. Não por
acaso, os gregos usavam a mesma palavra para designar ordem e universo -
cosmos. Existe uma ordem no universo. Existe uma Justiça Cósmica -
diferente da humana - porém, com certeza, infalível e incorruptível. Existe
uma inteligência que o anima e dirige no caminho da evolução.
Tudo evolui na direção da perfeição. Só não o reconhecemos porque
só percebemos um trecho, bastante curto, desse Caminho, durante a breve
vida humana. Não recordamos o que veio antes, e não sabemos o que virá
depois, já que o universo, no parecer da Física Quântica, não é um mundo
real, mas apenas um conjunto de possibilidades. Assim, certos fatos nos
parecem injustos, irracionais e sem lógica, mas, na verdade, eles são
somente o resultado de ações pretéritas. As religiões que não nos explicam
convenientemente tais evidências estão falhando miseravelmente na missão
de confortar a humanidade em seu sofrimento, pois retratam um Deus que
não se apieda dos humanos, que inflinge castigos cruéis a pessoas virtuosas
e não ouve as orações dos que clamam por justiça e paz. Bastaria que elas
nos explicassem que todo ato gera uma conseqüência, e que certos atos estão
esquecidos porque foram praticados noutras vidas.

Os caminhos da evolução espiritual

No universo que conhecemos, evoluir é inevitável e obrigatório. As


únicas escolhas que nos cabem são a forma e o tempo que levaremos para
alcançar a perfeição, porém, ela é a meta de todo ser vivo, não importa a que
reino pertença ou o lugar que ele ocupa na escala evolutiva. Darwin
descobriu algumas das características dessa Lei da Evolução, a nível
científico. Ele definiu a Seleção Natural, que impõe a sobrevivência do mais
apto no contexto de um habitat hostil. E descobriu que tudo evolui a partir de
formas simples na direção das formas mais complexas e sofisticadas,
culminando com o surgimento da inteligência, dentro da espécie humana.
Assim, ele supôs que o homem seria uma forma avançada dos símios.
A nível espiritual, a evolução acontece através da experiência
individual de vida. Tudo consiste em aprendizado, não importa que tipo de
experiência exija, e geralmente passa pelo sofrimento e por severas provas.
Quanto mais evoluído um ser, mais ele escolhe o caminho do conhecimento.
Não se trata aqui de conhecimento acadêmico, disponível na escola, e sim
de conhecimento iniciático, conduzindo cada um ao desenvolvimento

154
da porção mais importante do fenômeno da evolução, que é a consciência,
desdobrada em duas componentes: compaixão e amor à verdade. É difícil
saber em que degrau da escada evolutiva cada um de nós se encontra. Há
pessoas que são verdadeiros brutos, mas que estão convictas de que são o
máximo em termos de evolução - só porque possuem tamanho físico e
musculatura. A ferocidade é sua marca, e estão bastante próximos do reino
animal, donde todos procedemos. A força, aliada à ignorância, formam uma
péssima combinação.
Há pessoas que, ao contrário, são muito inteligentes, tendo
desenvolvido o cérebro, em lugar do coração. Uns podem chegar a ser
inofensivos, quando algum sentimento já despertou. Outros, porém, podem
ter desenvolvido apenas o corpo mental, conservando a ferocidade própria
dos animais - e então nos defrontamos com os torturadores, os matadores
cruéis, os criminosos frios e calculistas. Uma boa medida da nossa evolução
é a manifestação do amor ao próximo e a da tolerância. Mas o caminho da
evolução é longo, e exige o aperfeiçoamento de nossas virtudes e o
desenvolvimento de inúmeras capacidades. Corpo, mente e alma devem estar
em harmonia, e bem constituídos. Devemos dar a cada um deles o alimento
que lhe compete: substâncias saudáveis para o corpo, informações
construtivas para o intelecto, e bons sentimentos para a alma. Também será
necessário eliminar resíduos de más paixões, livrar-se de vícios, ser superior
aos bens materiais e cultivar o desprendimento.
0 caminho do mal é sempre fácil, uma descida sem fim, para a qual
tudo e todos contribuem. E o caminho do dinheiro fácil, do crime, da
abundância não merecida, do menor esforço, da apropriação de tudo que se
oferece. Não se dá ouvidos à consciência, não se pensa na culpa, não há
remorso, nem amor ou compaixão - apenas prazer, ócio e liberdade para
fazer tudo o que se quer. Já o caminho da virtude, ao contrário, é espinhoso,
difícil, uma subida íngreme, cheia de obstáculos, pedras, abismos e
tentações. E o caminho do trabalho, do mérito, do esforço pessoal, da
responsabilidade, da prestação de contas de nossos atos, e até de nossos
pensamentos e sentimentos.
Pode-se entender por que tanta gente resvala para o mau caminho! Na
Grande Pirâmide de Gizé, a entrada principal leva a princípio para uma
rampa em declive. É um caminho fácil, logo é o primeiro que se escolhe.
Chegamos ao fim da rampa, e ela nos leva a uma sala onde tudo parece estar
invertido: o teto é belo e perfeito, o solo é irregular

155
e desagradável. Alguns a chamam a Sala do Caos. Não tem saída. É preciso
retornar pelo mesmo caminho da entrada, só que desta vez subindo com
esforço. Retrata com propriedade a queda do homem no vício. E sempre
fácil descer, mas uma vez chegados ao fim do poço, não há nada a fazer
senão subir novamente, resgatando no caminho sofrido todos os erros
cometidos na descida. Então encontramos outro caminho, desta vez uma
subida íngreme - é o caminho da virtude. Em duas etapas - sempre subindo
com esforço - encontramos primeiro a câmara chamada de Rainha e depois a
do Rei, nomes simbólicos para amor e sabedoria - os autênticos caminhos
para alcançar a felicidade, porém, quase sempre tardiamente reconhecidos na
vida.

156
Capítulo 14

157
158
Natal é hoje considerado uma festa própria e exclusiva do
cristianismo, tida, aliás, como a sua data magna. Entretanto, essa
data corresponde a celebrações muito mais antigas que o advento
do cristianismo, e tem raízes no simbolismo de velhas
civilizações, como a da Pérsia e da Índia. Na verdade, a origem
da maioria dos calendários religiosos, em todas as partes e em todas as
épocas, está nos fenômenos do céu, na observação dos astros, e muito
especialmente na trajetória do Sol e nas estações do ano. A definição exata
do início das estações era de importância vital para os povos primitivos, que
dependiam da agricultura para sobreviver. Era preciso estabelecer com
precisão quando começariam as chuvas, quando viria a seca, o frio, a neve, o
degelo, e quando voltaria o Sol a aquecer a Terra, trazendo consigo a luz e o
retorno da vida.
Era determinante saber os períodos das cheias e vazantes dos rios, em
cujas margens floresceram sempre as civilizações em todo o mundo. Era
então demarcado o momento certo dos trabalhos no campo, dos plantios,
colheitas, semeaduras, preparo da terra e também o tempo de armazenar
víveres ou iniciar os procedimentos com o gado e outros animais
domésticos. Nas altas latitudes, sujeitas a invernos rigorosos, esse
conhecimento podia ser, para um povo, a diferença entre viver ou morrer.
Eram os sábios astrônomos os encarregados de observar os sinais do céu e
particularmente as passagens regulares do sol, responsáveis pelo início de
cada estação. Eram temidos os meses em que o Sol se afastava, declinando
para o outro lado do mundo, gerando as trevas e o temor supersticioso de
que ele talvez não voltasse no ano

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seguinte. É incrível como tantos povos na Terra puderam, praticamente sem
uso de instrumentos, estabelecer com impressionante precisão o início das
quatro estações, demarcando os pontos cardeais, o lugar quase exato do
equador terrestre e dos círculos dos solstícios.

O significado das Estações

Em sua marcha anual pelo Zodíaco, o Sol visita o Hemisfério Norte


durante seis meses - de março a setembro - e o Hemisfério Sul nos restantes
seis meses - de setembro a março. Ao passar pelos signos de Câncer e
Capricórnio, nos meses de junho e dezembro, atinge seus pontos mais
declinados para o Norte e para o Sul. Define então as estações do verão e
inverno em cada hemisfério - são os solstícios de verão e inverno. Nestes
dois períodos, o Sol permanece com a mesma declinação durante várias
semanas, parecendo estacionado no céu - daí o termo solstício, ou sol
estacionário. As datas do início das quatro estações do ano tinham grande
ênfase no calendário popular e eram motivo das mais importantes
celebrações, que logo adquiriram um caráter sagrado, seguindo um ritual
próprio nas religiões pagãs. Tais rituais foram sendo adotados pelas religiões
modernas, sob formas e roupagens diferentes para cada época e lugar. No
Cristianismo, as mesmas datas foram adotadas para seu calendário litúrgico,
porém, retirando-lhes o caráter astronômico e atribuindo-lhes eventos ou
efemérides da vida dos santos.
A religião católica, em ascensão no Império Romano, desejando
conquistar para suas fileiras os seguidores desses velhos ritos, muito
sabiamente, adotou datas próximas para suas festividades, atribuindo-lhes
santos, como João Evangelista (27 de dezembro) e João Batista (24 de
junho), ou eventos, como a Páscoa (em março) e o Natal (em dezembro).
O Natal - Solstício de Inverno no Hemisfério Norte - foi copiado por
Roma como o Natalis Invicti Solis (0 nascimento do Sol Invicto), a partir da
antiqüíssima tradição de Mitra. O dia 25 de dezembro era a festa oficial da
divindade persa, o Senhor e Salvador Mitra, e era considerado como o dia do
nascimento do Sol. O Cristianismo adotou essa data em 354 d.C, cuja
primeira menção aparece no calendário de Philocalus. De igual forma,
Ieseus Krishna, o salvador hindu - cuja história se passa 1.500 anos antes do
advento do Cristianismo - nasceu no dia 25 de dezembro, em uma gruta,
sendo filho da virgem Devaki. Tal como Jesus,

160
seu nascimento foi marcado por fenômenos no céu, e também ele foi
perseguido pelo tirano Kansa, rei de Madura, que, temendo ser destronado
pelo recém-nascido, mandou degolar as crianças nascidas na época. A
família conseguiu fugir, e, anos mais tarde, se inicia a pregação de Krishna,
cuja prédica está registrada no Bhagavad Gita (0 Canto do Sublime). Sua
vida é narrada no Wishnu Purana e na epopéia denominada Mahabhárata. A
infância e a juventude de Krishna são idênticas às de Jesus, com a mesma
seqüência de fatos. Morreu aos 33 anos de idade, crucificado, segundo uma
versão, ou a flechadas, segundo outra.
O dia do nascimento do Sol é, na Índia, um dia de regozijo. Há troca
de presentes e todos se congratulam. No antigo Egito, o dia 25 de dezembro
era festejado como o do nascimento do deus-menino Hórus. No calendário
cristão, é o dia consagrado a João Batista, e corresponde ao Natal. A criança
nascida é o Sol-menino, ainda pequeno, frágil e perseguido, que precisa
crescer para mostrar sua força e seu poder. O Solstício de Inverno do
Hemisfério Norte ocorre no dia 23 de dezembro, dia em que o sol entra no
signo de Capricórnio. Essa data, em certas escolas iniciáticas, é dedicada à
Esperança. No Hemisfério Sul, onde as estações são invertidas, é o início do
verão. Há um outro ponto interessante na escolha do Natal ter recaído nos
dias finais de dezembro: é sempre nos primeiros dias de janeiro que ocorre o
periélio, ou seja, é quando a Terra fica mais próxima do Sol, marcando,
assim, o início, ou o nascimento de um novo ciclo.
Em 21 de junho, dia em que o Sol entra no signo de Câncer, tem
início o verão do Hemisfério Norte, e para nós, no Sul, começa o inverno. O
calendário cristão recorda nesta data João Evangelista, o nosso popular São
João, dia comemorado com fogueiras e bebidas quentes. Nas tradições
inciáticas, esse dia é dedicado ao reconhecimento. Tudo isto nos faz pensar
na universalidade das tradições baseadas nos fenômenos celestes, que deram
origem aos mitos solares nas velhas religiões. Não apenas os solstícios, mas
também os equinócios eram objeto de celebrações. Equinócio é uma palavra
grega que se traduz como noite igual, ou seja noite de igual duração que o
dia. Os equinócios ocorrem em 20 de março e 23 de setembro, quando o Sol
atravessa o equador terrestre, rumando para o Hemisfério Norte ou para o
Sul. Nesses dias, a luz do sol se distribui por igual em ambos os hemisférios.
Em março, o sol entra no signo de Áries, o Carneiro, marcando o início da
primavera do Hemisfério Norte, trazendo consigo mais luz e calor, e uma
nova esperança de vida. No idioma francês

161
antigo, primavera se dizia prime-vert (primeiro verde). Nos lugares de alta
latitude, no fim do inverno, quando tudo é ainda cinzento e triste, um só dia
de calor - como um bafejo da primavera que chega - é suficiente para pintar
de verde todas as plantas, recobrindo-as com pequeninos brotos.
É como se um pintor invisível tingisse, em poucas horas, toda a
natureza com a cor da vida. É um espetáculo lindo de se ver, que marca o
fim de um tenebroso período, onde a Natureza, envolvida em cores
sombrias, parecia de luto. Assim, o retorno do Sol tinha que ser festejado
condignamente, com música, danças, vinho e flores - as primeiras flores
colhidas naquele ano. A Páscoa era exatamente essa grande festa, que
assinalava a Ressurreição do Sol, e era celebrada sempre no domingo mais
próximo da primeira lua cheia, após o ingresso do sol no signo de Áries; era
costume então sacrificar um carneiro - o símbolo totêmico do signo que
entrava.
No cristianismo primitivo, o Sol, morto durante três dias - ou três
meses de inverno - ressuscitava de seu túmulo, indo diretamente para o céu.
A Páscoa (A Pessah, ou passagem) - como festa da primavera, tinha,
portanto, uma origem pagã, proveniente dos Ritos de Fertilidade, e nela se
promoviam danças ao redor do fogo, os participantes adornados com flores e
folhagens verdes. Esse domingo especial, domingo é o dia do Sol - sun-day
ou sontag, conforme os idiomas nórdicos e saxônicos - escolhido sob
critérios astronômicos tão precisos, teria, como hoje ainda tem,
garantidamente, luz do Sol durante o dia e luz da Lua cheia durante a noite.
Trata-se, sem dúvida, de uma saudação à luz dos astros, sendo, portanto,
uma celebração bem astrológica.
Tanto no Norte como no Sul, a chegada da primavera, marcando os
dias em que o Sol projeta a mesma quantidade de luz em ambos os
hemisférios, tem para o mundo o sentido de Equilíbrio, de Justiça e de
Eqüidade, traduzindo-se em felicidade geral - especialmente, em setembro,
quando o Sol entra no signo da Balança, símbolo que evoca, por si mesmo,
os valores da Justiça e do Equilíbrio. Essa data merece, em nosso calendário,
uma celebração muito radiosa e significativa, e é lamentável que não
tenhamos no Brasil uma tradição relativa a tão importante evento. O
solstício de verão é a outra data muito importante no calendário celeste, e
corresponde à plenitude da Luz, à visão do Sol na máxima exaltação de seu
poder. Esotericamente, significa a iluminação interior do Ser que conquistou
a maturidade e a sabedoria plena, e está pronto para distribuí-la entre aqueles
que estiverem em condições espirituais de recebê-la.

162
O solstício de verão é, pois, uma festa de exaltação da luz. Para nós, no
Hemisfério Sul, a plenitude da luz solar ocorre justamente no solstício de
dezembro, fato que traz um significado especial para o nosso Natal.
Devemos dedicar esse dia ao reconhecimento pelos bens que colhemos no
ano que termina, e ao mesmo tempo rogar às forças da natureza que não
deixem faltar no próximo ano o sustento às nossas famílias.
Esse nascimento simbólico do Sol representa um novo ciclo em nossa
vida, um reinicio, no qual devemos despedir-nos das tristezas, perdas e
sofrimentos do ciclo anterior e nos reanimar com a idéia de tudo recomeçar
com alegria renovada. É também um compromisso interior de trabalhar pelo
nosso auto-aperfeiçoamento, e pela melhoria de todas as coisas ao nosso
redor. Por outro lado, estudar do ponto de vista astronômico e astrológico o
simbolismo da morte de Jesus pode ser muito esclarecedor: ao chegar o
outono do Hemisfério Norte, com a entrada do Sol no signo de Libra, vem a
queda da Luz, e em seguida a sua morte, no inverno.
A morte de Jesus é causada por três traidores, equivalendo aos três
meses do outono: Libra é Poncio Pilatos, o diplomata; Escorpião é Judas, o
rebelde político; e Sagitário é Caifás, o chefe religioso oportunista. Antes de
chegar o outono, o último signo do verão é o da Virgem, que chora, ao ver o
caminho de seu filho, o Sol, dirigindo-se a um triste fim. Chega o inverno, e
com ele a morte do Cristo-Sol, mas haverá uma ressurreição, na Páscoa,
sempre fixada na primavera, logo após a entrada do Sol em Áries, o
Carneiro.
No Carneiro - o Agnus Dei que resgata os pecados do mundo - a luz e
o calor do Sol retornam, afugentando o frio e a escuridão do inverno. Com a
primavera, vem a ressurreição da vida. As plantas rebrotam, a terra se
renova, e um novo ciclo se reinicia. No Egito, a plenitude da luz era
simbolizada por Ra, o Sol em seu zênite. Ao nascer, na aurora de cada dia,
identificava-se com Hórus, o filho, a criança; e era Osíris quando chegava ao
fim do dia, no ocaso, momento em que era simbolicamente assassinado por
seu irmão Tífon, que representa as trevas. Na Mitologia Grega, Apoio era
por excelência o deus da luz, sendo-lhe dedicados o loureiro, a palmeira e a
oliveira, plantas sagradas de natureza solar.
Hélios e Apoio foram, na Mitologia Grega, dois deuses solares,
pertencentes a diferentes gerações divinas, porém, no curso do tempo, as
duas figuras se fundiram numa só, sendo que Apoio se tornou o mais
popular e venerado. Hélios era representado como um belo jovem, com

163
a cabeça ornada por uma coroa de raios. No cristianismo essa coroa se
transforma em coroa de espinhos. O movimento do Sol no espaço era visto
como o percurso que Hélios executava em seu carro de fogo, puxado por
quatro cavalos. Sua viagem começava pela manhã, quando Aurora, sua irmã,
abria as portas do céu, precedendo-o em seu próprio carro, sob a forma de
uma menina pequena.
Apoio era filho de Zeus e Leto. Era representado sempre como um
jovem imberbe - pois o Sol nunca envelhece. Tornou-se o ideal grego de
beleza, até hoje conhecido como o "tipo apolíneo". Os raios do Sol que, em
Hélios formavam uma coroa, tornam-se as flechas de Apoio, que, por isso,
se mostra sempre com um arco na mão. O mesmo ocorre com sua irmã,
Ártemis ou Diana, que é uma deusa lunar. Os dois muitas vezes combatem
juntos, como foi o caso na guerra contra os gigantes. Apoio e Ártemis
nascem na ilha flutuante de Astéria, depois denominada Delos, que mais
tarde se tornaria um dos mais importantes centros de culto ao deus Sol. Nas
celebrações solsticiais, a tradição preservou, para ambas as datas, o culto à
memória de dois santos: João Batista, no dia 24 de junho, e João
Evangelista, a 27 de dezembro. Veremos agora que João -Johannes, Johan,
Jean, Yan, Yoan ou Yeouan - é o nome modificado de Janus, ou Yanus.
Janus era um deus da mitologia romana e a tradição nos ensina que
teria sido o mais antigo rei do Lácio - hoje a Itália - e também o deus
supremo da Etrúria. Seu mito, entretanto, parece ter uma origem ainda mais
antiga e remota, talvez chinesa ou hindu, embora não se saiba ao certo como
teria passado à Etrúria. Os etruscos o confundiam com o próprio céu e
faziam dele uma personificação do ano. São João é, no italiano moderno,
San Gennaro, ou San Gennaio - como o nosso São Januário - ou Janeiro.
Janus era filho de Apoio e da ninfa Creuza, e conduziu uma colônia até o
Lácio, no lugar onde mais tarde se levantaram os muros de Roma, sobre uma
colina que se chamou Janícula - ou colina de Janus. Segundo a lenda,
Saturno, quando foi expulso do Olimpo por seu filho Júpiter, refugiou-se no
Lácio, e colocou-se sob a proteção de Janus, que não só lhe deu asilo, como
compartilhou com ele seu reinado. Saturno, reconhecido, dotou seu generoso
anfitrião com uma rara prudência, que o capacitava de ver claramente tanto o
passado como o futuro. Em virtude desta dupla faculdade, passou a ser
representado com duas faces, olhando simultaneamente o que foi e o que
será, de modo que poderia tomar as mais sábias decisões, de acordo com as
circunstâncias.

164
Numa Pompílio, o segundo rei lendário de Roma, considerava Janus
como o deus que presidia as Corporações de Ofícios. Curiosamente, na
Idade Média, São João foi tomado como patrono das Corporações dos
Construtores, mostrando-nos a identidade das duas figuras. Até hoje, a
Maçonaria usa a expressão "Loja de São João", como um nome simbólico
para toda união ou agrupamento de iniciados, ou de todos aqueles que
tenham sido admitidos aos Mistérios. Seria o mesmo que dizer Loja de
Janus. Numa Pompílio deu o nome de Janus ao primeiro mês do ano
-Januarius (Janeiro) - e por esse motivo também se interpretou a sua dupla
face como o olhar que poderia ao mesmo tempo ver o ano que nascia e o ano
que acabava de expirar. Janus é, assim, uma personificação do signo de
Aquário, o primeiro signo do ano, e que se inicia exatamente em Janeiro.
Aquário é regido por dois planetas, Saturno - que representa o tempo, o
passado - e Urano - que representa o espaço e o futuro.
A prudência com que Saturno dotou Janus nos ensina que devemos
aproveitar a experiência do passado para nos prepararmos adequadamente
para o futuro. Janus bifronte representa também os dois solstícios - ou os
dois equinócios - ou ainda, a estação passada e a estação futura -
chamando-nos a atenção, na primavera ou no verão, para que tenhamos tudo
preparado com prudência para enfrentar o outono e o inverno. Conhecemos
de Janus também uma representação quadrifronte, significando, neste caso, a
cruz do espaço onde se cortam os dois solstícios e os dois equinócios - as
quatro estações do ano, assim como os quatro pontos cardeais, as quatro
fases da Lua e as quatro estações do dia: alvorecer, zênite, ocaso e nadir.
Pode-se fazer um paralelo entre Janus bifronte e os dois ladrões do
simbolismo cristão, um de cada lado do Sol-Cristo. O mau ladrão é a estação
que foge, que se esvai, e o bom ladrão é a estação que entra. As escrituras
bíblicas identificam a estação que termina como o ladrão que foge,
significando que, se não tivermos trabalhado na hora certa nas lides agrícolas
ou na construção, a estação foge, e com ela se vai nossa esperança e nosso
alimento. Os antigos romanos reverenciavam Janus como um espírito
benéfico que velava pela prosperidade das famílias e que impedia a entrada
dos gênios maléficos em suas moradias. Janua, em latim, significa porta, e
Janus se traduz como "uma passagem aberta de ambos os lados". No
primeiro dia do ano, os latinos - habitantes do Lácio - dedicavam a Janus um
sacrifício chamado Janual, composto de vinho e frutas;

165
as autoridades iam em procissão até o Capitólio, e todos os cidadãos se
davam mutuamente presentes. É seguramente a origem do nosso costume
natalino de presentear amigos e parentes, assim como das felicitações de
Ano Novo. Sendo também um deus da natureza - por sua afinidade com
Saturno - tem por atributos uma chave e um cajado, o que sugere seu papel
de guia ou condutor das almas. Tal como Osíris, é chamado de Sol, e as
portas do Oriente e do Ocidente se acham sob a sua guarda. De Saturno,
Janus teria aprendido as artes da agricultura, e as repassou aos homens.
Graças a esse conhecimento, pôde a humanidade sair de seu estado nômade
e selvagem, dando início à civilização.
Semelhante a Mitra e a Hermes, é um mediador entre os deuses e os
mortais, e é quem leva os pedidos e orações dos homens até as divindades.
O cajado nos sugere a idéia do peregrino, daquele que caminha em busca da
verdade e da iluminação. Os romanos também interpretavam o cajado como
um instrumento que serviria para espantar os intrusos do templo cuja porta
ele guardava - algo equivalente à espada dos arcanjos. Janus presidia a todos
os caminhos do mundo, e estava sob o seu encargo a proteção dos viajantes.
Presidia também a todos os começos - em latim initium - e portanto a
própria iniciação, de cuja chave era o Guardião.
Era a divindade encarregada de começar e acabar todas as coisas -
inclusive as guerras. Por esse motivo, era invocado no princípio de todos os
atos - orações, sacrifícios, viagens, etc. Quando um conflito se iniciava,
abriam-se as portas de seu templo e o deus ia ao campo de batalha com suas
legiões - não para combater, e sim para apaziguar e afastar o perigo.
Enquanto isso, as portas do templo permaneciam abertas, aguardando seu
regresso. Na tradição chinesa, o início do ano se dá com a primeira Lua
Nova que ocorre no signo de Aquário. A Lua Nova, que é a conjunção do
Sol e da Lua, em sua representação gráfica, lembra dois rostos unidos,
exatamente como o Janus bifronte. No idioma sânscrito, Janu vem da raiz
Jan, que significa gerar, produzir, nascer. Ou seja, nasce o ano com a
abertura da primeira porta -Janus - Januarius - Janeiro.
Jan também deu origem remota ao nome que hoje damos ao gen, do
grego genos, que quer dizer origem, raça, povo, nação, evolução e geração.
Na língua maia, yanu significa chave! Será coincidência? Difícil acreditar
em coincidências, quando sabemos das semelhanças lingüísticas, étnicas,
arquitetônicas e simbólicas que descobrimos entre povos muito distantes
entre si, em termos geográficos. Um dos exemplos mais

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extraordinários é o Zodíaco Chinês, absolutamente semelhante ao Zodíaco
Maia - utilizando exatamente os mesmos animais para representar as
mesmas faixas do céu! Mais que similitude, trata-se com certeza de
parentesco, reportando-nos quase inevitavelmente a uma antiga fonte
comum, o continente perdido da Atlântida. Voltando à tradição romana,
sabemos que erigiram em honra a Janus dois templos famosos: o de Janus
Bifrons, construído próximo do fórum de Augusto, e o de Janus Geminius.
O primeiro foi edificado no 6º ano da fundação de Roma, era todo de
bronze, de forma quadrangular e muito pequeno, tanto que nele só cabia a
estátua dourada do deus, erigida no centro do templo. Tinha duas portas em
arco, uma defronte à outra, e as duas faces de Janus olhavam, uma para a
entrada e a outra para a saída. Era considerado o templo mais antigo de
Roma, e foi sempre um lugar sagrado, apesar das paredes já destruídas. O
segundo foi construído por Numa Pompílio para comemorar os tempos de
paz e os de guerra. Sua forma era também quadrangular, sem pórtico e sem
colunas, e tão espaçoso que nele podiam reunir-se o Senado romano e o
povo. Em tempos de paz, suas portas permaneciam fechadas com cem
ferrolhos e pesadas barras de ferro, a fim de dificultar sua abertura, como a
simbolizar que uma guerra nunca deve ser empreendida com leviandade,
nem por motivo fútil.
Varrão nos dá conta que as quatro faces do templo de Janus
representavam as quatro estações, e que havia nesse templo doze altares,
simbolizando os doze signos zodiacais e os doze meses do ano. A cabeça de
Janus figurava na proa dos barcos, e na moeda mais antiga dos romanos, o
"asse". Vemos, pois, que o simbolismo oculto das religiões - tanto antigas
como modernas - pode ser interpretado através dos eventos celestes, e, por
conseguinte, através da ciência que os estuda, a Astrologia. E ela nos aponta
para o drama solar, espécie de narrativa temática eternamente repetida e
perpetuada pelas tradições iniciáticas dos povos antigos e sempre protegida
sob o véu da alegoria.
Entretanto, o bom entendedor perceberá, por trás das parábolas, a
mensagem que os grande iniciados deixaram para as gerações futuras. E essa
mensagem nos remete para a contemplação da natureza e a compreensão de
seus mistérios. O cosmos, porém, só nos concederá permissão para penetrar
neles se tivermos o coração puro e a alma liberta dos preconceitos, dos
dogmas e dos grilhões culturais que nos impedem de ver a verdade. Sempre
nos ensinaram que a verdade nos liberta, Contudo, para

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encará-la, é preciso armar-se daquela coragem que implica numa mudança
de estado de consciência. Ao contrário do que pensam muitos, essa mudança
não pode ser atingida apenas mediante um conhecimento ou busca racional.
É preciso ter a disposição de alma que nos leve a querer "nascer de novo".
Não se trata de uma morte física, mas da morte simbólica - é a morte do grão
de trigo, que dará nascimento à planta, cujo fruto, por sua vez, morrerá para
dar origem à sua descendência.
É a mensagem do "quem não nascer de novo não verá o Paraíso". É a
mensagem dos iniciados de todos os tempos, que mostraram, através do
drama solar, o exemplo que devemos seguir: morrer no ocaso para renascer
na próxima aurora. Enfim, para despertar o Cristo interno, que está dentro de
cada um de nós, além de uma vida virtuosa, é preciso ser tocado pelo amor
ao nosso semelhante e estar pronto para sacrificar-se por uma causa justa e
nobre. É o caminho dos santos, dos benfeitores da humanidade, dos grandes
yogues e dos grandes sábios. As Escolas de Mistérios - entre elas a
Maçonaria - criaram as cerimônias simbólicas, que colocam o neófito nessa
senda iniciática através de uma experiência transcendente que equivale à
morte. Ele renasce, em seguida, renovado, o espírito desperto, sua
consciência elevada para um outro patamar.
A palavra Cristo, ou Chrestos, foi usada por Esquilo, no século V a.C,
com o significado de profeta, aquele que sabe decifrar os oráculos, os sinais
do céu. No vocabulário de Justino-Mártir, Chrestos significava também
discípulo posto à prova, um candidato à iniciação que já percorreu o
caminho e está prestes a alcançar a meta. A proposta das escolas de iniciação
é dar ao candidato uma oportunidade de "nascer de novo". Vale dizer que ele
"morre" para o mundo profano, cheio de ilusões, trevas e tentações, e
"renasce" no mundo da luz. A partir daí, sua meta é tornar-se um Cristo, um
ser realizado, despertar o Átomo Nous - a Centelha Divina - contida em todo
ser inteligente. Para tal, deve vencer os três "animais" simbólicos do
presépio, que o cercam na vida profana: o burro - a ignorância; o cordeiro - a
debilidade; e o touro - as paixões brutais.
Vemos, pois, que o simbolismo das modernas religiões, cuja meta é
imitar o Messias, ou Salvador, está calcado no drama solar, contido e
explicado pelas tradições iniciáticas dos povos antigos. O Cristo-Sol está
crucificado entre dois solstícios e dois equinócios. Essa cruz do espaço,
tendo o Sol por centro, nos leva ao mistério do Karma, que nos aprisiona
pela Lei de Causa e Efeito. Só nos poderemos libertar dessa prisão quando

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aceitarmos a Luz, que é a Consciência Desperta pelo Sol Meridiano da
Verdade. Buscar a Verdade é estar disposto a olhar para os quatro lados do
mundo, ou seja, é ser capaz de obervá-lo sob todos os ângulos possíveis - é o
símbolo de Janus Quadrifronte - e de certos monumentos iniciáticos, como
as pirâmides maias, as catedrais góticas - edificadas segundo os cânones da
Geometria Sagrada - ou a Grande Pirâmide de Gizé, cujas arestas estão
voltadas para os quatro pontos cardeais.
Luz plena é a mensagem do solstício de verão: luz no zênite no céu,
luz no zênite em nosso espírito. É preciso inundar de luz plena nosso
coração, habitáculo do Amor - eis o nosso autêntico Salvador. Alcançar o
Paraíso, ou o Nirvana, não significa ir para o alto da montanha, ou ler um
livro, ou crer num dogma, ou seguir um guru. Nossa salvação espiritual não
se encontra nas grutas escondidas ou nos desertos, nem nas florestas, nem no
fundo do mar, nem no espaço sideral, nem em algum livro misterioso, nem
em qualquer construção pretensiosa feita pelos homens!
Ela está dentro de cada um de nós, nas profundezas de nosso próprio
ser, desde a eternidade, aguardando, suave e paciente, que a centelha do
Amor o desperte e o traga para a vida, quando então brilhará com o
esplendor de mil sóis! Este é o Mistério do Solstício de Verão - ver a plena
Luz Solar, que simboliza a busca da Verdade. Ela está na observação, no
conhecimento e na obediência às Leis da Natureza. Sem amor ao próximo,
porém, a verdade tem pouca valia. Eis porque são inúteis todos os dogmas,
rituais, a fé, as virtudes, o saber profundo, se não soubermos amar. Eis
porque as grandes escolas de mistérios ensinam a eterna busca da verdade,
mas pregam incansavelmente o equilíbrio entre sabedoria, fortaleza e amor.

169
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Metaulx. Editora La Table d' Emeraude.

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Esta obra foi impressa em novembro de 2006 pela Editora UFMS.
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Endereço: Estádio Morenão, Portão 14, Cidade Universitária.
79070-900 Campo Grande (MS). Fone: (67) 3345-7200.
Site: www.editora.ufms.br

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Vem Facciollo

Filha e neta de botânicos, Vera Facciollo teve uma


infância marcada pelo contato com a natureza, o
que despeitou nela a percepção de mundos mais
sutis e o senso de observação científica do Uni-
verso. Seguiu inicialmente carreira acadêmica,
formando-se em Ciências Econômicas e Adminis-
trativas pela Universidade de São Paulo. Traba-
lhou nessa área durante alguns anos, mas sua
vida mudou radicalmente quando conheceu Anto-
nio Facciollo Neto, seu mestre de Astrologia.
Tornou-se sua esposa e colaboradora nas pesqui-
sas astrológicas e, mais tarde, professora na
escola por ele fundada, o Instituto Paulista de Astrologia. Iniciou-se maçom em
1974 e fundou em 1986 a GLADA (Grande Loja Arquitetos de Aquário), da qual é
atual grã mestra e grande comendadora do Grau 33, uma Potência Maçônica Mista,
que é reconhecida mundialmente pelo excelente trabalho ritualístico e pela profundi-
dade das instruções herméticas e humanística. Vera foi reeleita grã mestra por
várias gestões e é uma das autoridades mais respeitadas no que diz respeito à pre-
sença da mulher na Maçonaria, tendo publicado vários artigos e apresentado diver-
sas teses sobre o assunto. Atualmente, leciona Astrologia e Ciências Herméticas,
ministra cursos no Brasil e no exterior, além de se dedicar à yoga, à prática da Alqui-
mia e aos estudos holísticos, humanitários e filosóficos.