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ARCANO SEM NOME

ARCANO XIII

ARQUÉTIPO – A MORTE

Enquanto não morreres e não tornares a levantar-te,

Serás um estranho para a terra escura.

Goethe

O trunfo número treze mostra um esqueleto manejando uma segadeira rubra de sangue. Jazem a seus pés os
corpos desmembrados de dois seres humanos. Na carta anterior, deixamos o herói de cabeça para baixo, indefeso
sobre um abismo, a fim de sofrer a morte espiritual e o desmembramento final de sua vida e de sua personalidade
anteriores. Vemos aqui retratados esse desmembramento: suas idéias(simbolizadas pelas cabeças), seus pontos de
vista(pintados como pés) e suas atividades(mostradas como mãos) passadas jazem, inúteis, espalhadas pelo chão.
Todos os aspectos da vida anterior do herói parecem ter sido cortados – incluindo o seu princípio orientador central,
pois uma das cabeças na gravura ostenta uma coroa, a indicar que o augusto auriga retratado na carta número sete
não mais regerá o próprio destino como antes.

Mas o herói não perdeu o cocheiro real que o ajudou a dirigir o seu curso quando saiu à conquista do mundo no
Carro, pois a cabeça coroada aos pés do esqueleto já irradia vida nova. As partes da velha ordem ainda vitais e úteis,
sejam elas quais forem, serão incorporadas na nova. Na natureza nada se perde.

Em muitas sociedades primitivas, todos os anos, o velho rei é simbolicamente morto, desmembrado e ritualmente
“comido” para assegurar a fertilidade das novas colheitas e da revitalização do reino. As igrejas cristãs de hoje
preservam uma idéia semelhante na Sagrada Comunhão, em que os paroquianos compartilham do pão e do vinho,
símbolos do corpo e do sangue de Cristo, a fim de dramatizar a recente incorporação do Espírito de Cristo dentro de
si mesmos.

Na carta do Tarô, a idéia de revitalização e renovação é mais do que sugerida pela profusão de novos rebentos em
toda a parte e pelo modo com que as mãos e os pés parecem plantados na terra e já brotando para uma nova vida.
Isso pode ser tomado como se representasse mais uma manifestação psíquica interna do que externa, como o indica
o fato de serem os novos brotos coloridos de amarelo e azul símbolos da intuição e do espírito, atributos da natureza
psíquica interior do homem, mais do que o verde, que é cor da sensação – da natureza física externa.
A Morte retrata o momento em que a pessoa se vê “feita em pedaços” – espalhada – com a velha personalidade e
os modos quase irreconhecíveis de tão mutilados. Como sabemos por essas experiências, o herói levará algum
tempo para reajuntar-se e lembrar-se de si mesmo. E levará muito tempo para ressurgir como pessoa nova e inteira
numa vida nova e completa.

Mesmo encarado simbolicamente, como instrumento de mudança no contexto da nossa vida terrena, o esqueleto
da carta número treze é difícil de aceitar. Somos criaturas de hábitos. No nível mais superficial resistimos a
mudanças em nossa vida cotidiana – até mudanças que nós planejamos conscientemente. Sentimos falta dos maus
hábitos também – daqueles hábitos que chegaram, sentiram-se à vontade conosco e ficaram. A separação é uma
tristeza tão doce porque nos afeiçoamos a tudo: às pessoas, aos animais, às coisas. Não queremos perder nada do
que achamos que “nos pertence” – até os dentes que se estragam e os cabelos que se vão. Estamos especialmente
ligados aos modos instintuais do nosso corpo natural.

Também nos é difícil separar-nos das partes desgastadas da psique. Os alquimistas reconheciam esse estado de
coisas e, para eles, o esqueleto também simbolizava a necessidade de afrouxar a identificação com o corpo.
Reconheciam também a necessidade de tornar consciente o conflito entre o homem espiritual e o natural. ‘’Assim
fazendo”, diz-nos Jung, “eles redescobriram a velha verdade, segundo a qual toda operação dessa índole é uma
morte figurativa – que explica a violenta aversão que toda a gente sente quando precisa ver através de suas
projeções e reconhecer a natureza da sua ANIMA.”

Mas entre a poda do velho e a maturação do novo há um período de luto negro. Referindo-se a essa fase da jornada
para o autoconhecimento, os alquimistas usavam o termo “mortificatio”. Bem-aventurados os que choram. Quem
quer que pranteie a amputação de uma reação inconsciente que fez parte dele desde a infância, ou quem quer que
deplore a perda de alguma rígida projeção que por muito tempo servia de apoio a um ego vacilante, pode
considerar-se abençoado. Será finalmente, confortado com introvisões mais válidas e com um apoio mais
duradouro.

O esqueleto é um símbolo conveniente para esse tipo de revelação. Sugere, a um tempo, movimento e
estabilidade.Representa os montes de ossos da realidade; a armação para a nossa carne e os nossos músculos, a
estrutura articulada sobre a qual tudo o mais está muito unido, move-se e funciona como se fosse uma unidade. E,
no entanto, paradoxalmente, esse instrumento de mudança também representa a nossa parte mais resistente. É o
eu ósseo que deixamos para futuros historiadores – o único testemunho da nossa existência como indivíduos. É tudo
o que resta de nossos antepassados – de nossas raízes enterradas fundamente no tempo. O esqueleto é “homo
sapiens” arquetípico. Como tal, representa a verdade básica eterna, revelada ao herói pela primeira vez.

Impessoal e universal, o esqueleto é o nosso segredo mais pessoal, coisa escondida, tesouro enterrado
profundamente em nós mesmos, debaixo da nossa carne. Podemos tocar a pele, as unhas, os cabelos, os dentes,
mas não podemos tocar os ossos. Normalmente nunca os vemos; entretanto, como o inconsciente profundo, são o
nosso mais verdadeiro eu.

Estudando a carta mais de perto, observamos que ela inclui muitos opostos. A segadeira associa-o a Saturno, deus
do tempo, da colheita, da dissolução, da decadência; a segadeira contudo, lembra a forma da lua crescente, símbolo
de Ártemis, oferecendo promessas de regeneração e renovação e sugerindo fases invisíveis e ainda por vir em
intermináveis ciclos. A lâmina da segadeira está vermelha por causa da carnificina e destruição que deixa em seu
ruma; no entanto, o colorido quente do esqueleto e sua postura ativa estão carregados de energia criativa.

Ocupando-se do número treze do Tarô, os comentadores costumam destacar o esqueleto como símbolo da
mudança e da transformação nesta vida. A transformação final, a morte física, é, não raro evitada. Entretanto, tomar
essa carta só no nível da mudança psicológica e espiritual é uma fuga covarde- uma amostra de como rodeamos, na
ponta dos pés, o tema da morte física. Todos hesitamos em pronunciar o nome do monstro. Intelectualmente
procuramos circunlóquios para a aceitação teórica dessa criatura e da sua segadeira. Dizemos a nós mesmos que
uma limpeza da casa é necessária para dar lugar a vida nova; dizemos estar cientes de que as doze horas dos relógios
precisam expandir-se para incluir novas dimensões do tempo. Filosoficamente aceitamos a lógica de que a morte
não é a antítese da vida – o nascimento e a morte são antes os dois postes sobre os quais a vida repousa.
Conhecemos todas essas palavras e podemos recitá-las com freqüência. Mas como chegarmos a um acordo com a
nossa mortalidade pessoal? Eis a dificuldade.

Enquanto não pudermos confiar-nos à morte não poderemos, na verdade, confiar-nos à vida. Permanecemos
escravos, apegados ao corpo, presos na armadilha da egocentricidade mortal. “Aceitar o fato de que você perece a
seu tempo”, diz Jung, “é uma espécie de vitória sobre o tempo”. Usamos com freqüência a expressão “às portas da
morte”, a fim de transmitir a idéia de que passamos por uma porta para entrar num mundo radiante de vida nova no
futuro. Muitos que estiveram, literalmente, no limiar da morte e voltaram, afirmam que esse vislumbre do além
abriu-lhes novas dimensões de percepção espiritual. Muitos que jamais estiveram no limiar da morte, descobriram
que enfrentá-la através da perda de uma pessoa íntima libertou-lhes o espírito.

Aceitar tanto a morte quanto o nascimento, como parte da vida, é tornar-se verdadeiramente vivo. “Não desejar
viver”, disse Jung, “é sinônimo de não querer morrer. Vir a ser e deixar de existir são a mesma curva”. E mais:”Quem
quer que não acompanhe essa curva permanece suspenso no ar e fica paralisado. A partir da meia idade, só
permanece vivo quem está disposto a morrer com a vida”. Os sacramentos da igreja e os costumes da vida familial e
comunitária proporcionavam maneiras rituais de enfrentar a morte, que , de ordinário, ocorria em casa e era uma
experiência partilhada por quantos conheciam o falecido. Os serviços associados ao enterro reuniam a comunidade
inteira em culto e luto rituais. Com o colapso da religião organizada, esses modos rituais de enfrentar a morte se
acabaram perdendo e, uma vez que a idéia da morte é tão monstruosa que não podemos enfrentá-la sozinhos, até
há pouco tempo simplesmente a varríamos para baixo do tapete. Entretanto, a experiência real da morte
propriamente dita é, na sua essência, uma experiência individual.

A despeito do fato de que o morrer é uma experiência de todas as coisas vivas, cada um de nós experimenta o
chamado da morte como um dedo apontado só para si. Psicologicamente, a morte aponta o dedo para cada um de
nós em turnos, exigindo que cada um, à sua maneira própria, encontre o sentido por trás do gesto. A Morte desafia
cada ser humano de forma especial. Pois, à diferença dos animais, só o homem tem a capacidade de antever a
morte, filosofar sobre ela e experimentar-lhe conscientemente a ocorrência. Só os loucos e as crianças, disse
Erasmo, não tem medo da morte. Muitos adultos acham difícil contemplar o desconhecido em qualquer contexto,
seja ele qual for. Preferimos que nos forneçam de antemão um programa de eventos que deve ser seguido, uma
sinopse do enredo, uma agenda. Quando lhe perguntaram: “Que acontece depois da morte?” Krishnamurti
respondeu: “saberei quando lá chegar. Por enquanto não preciso saber.” O pensamento da morte física nos paralisa
de horror. Apesar disso, porém a cada dia que passa, o nosso corpo físico dá passos gigantescos na direção da porta
da morte. O problema, naturalmente, consiste em saber como ajudar a alma a mover-se em harmonia com o corpo.
Sempre que o espírito fica para trás, obstrui o fluxo natural da vida do nascimento à morte, reprimindo a corrente
vital com hábitos “mortos” e conceitos antiquados. Perguntaram a Krishnamurti como se preparava para a morte.
Ao que ele replicou: “Todos os dias morro um pouco.” Do contexto da resposta se depreende, obviamente, que o
que ele tinha em mente não era uma contemplação mórbida do fato da morte física. A idéia era, antes, enfrentar a
mudança diariamente, hora por hora, libertando-se, aos poucos, dos apegos inconscientes. Em vez de antecipar com
medo ou até com ansiosa aceitação alguma Grande Transformação que presumivelmente nos espera atrás de
alguma porta final, a idéia de Krishnamurti parecia ser a de que cada dia nos oferece muitas portas para uma nova
vida, bastando para isso que queiramos abri-las. Jung também acentuou a idéia de que viver a vida plenamente é a
maneira natural de abordar a morte. A melhor maneira de preparar-nos para uma longa jornada, de duração
infindável, a uma terra desconhecida seria, provavelmente, livrar-nos de todas as bagagens desnecessárias. Um
modo de fazê-lo talvez seja examinar os nossos pertences, escolher apenas os artigos essenciais ao nosso bem estar
espiritual e físico, deixando o resto para trás. Está visto que o truque consiste em reconhecer o essencial. Segundo
Jung, se a demanda do autoconhecimento for desejada pelo destino e recusada, essa atitude negativa pode acabar
em morte verdadeira. A demanda não teria chegado à pessoa se esta ainda fosse capaz de guiar para algum atalho
promissor. Mas ela está presa num beco sem saída, do qual somente o autoconhecimento poderá arrancá-la.
Existem muitas maneiras sutis de nos suicidarmos, tanto física quanto espiritualmente. Se não pudermos suportar
as tensões da mudança, se não pudermos aceitar que, em determinados momentos da vida, precisamos permanecer
inativos como o Enforcado, de pernas para o ar em relação às nossas atividades anteriores; se tentarmos forçar
nossas energias a se enquadrarem em padrões cediços, a morte poderá aparecer sob o disfarce de um ataque do
coração, de um derrame cerebral ou de qualquer outra doença súbita. Ou pode acontecer que uma pessoa presa
num círculo vicioso de autopreocupações mortais possa simplesmente desvanecer-se, assim espiritual como
corporeamente. Como Jung indicou, a natureza encontra um sem número de modos de apagar uma existência sem
sentido.

A pergunta que a ciência médica está formulando hoje é problemática: Quando é o momento exato da morte? É
quando o paciente pára de respirar, quando o coração pára de bater ou quando o EEG já não mostra ondas
cerebrais? Visto que a natureza não conhece o momento específico da morte, o homem precisa criar um
arbitrariamente, a fim de responder a essas perguntas práticas. Nesse sentido o homem, literalmente, “cria a
morte”. A nossa atenção foi chamada para a natureza espúria da suposta dicotomia ‘’vida versus morte” de maneira
tão dramática que não podemos ignorá-la.

O nosso mundo arrumadinho de opostos também está sendo desafiado na outra ponta do contínuo nascimento-
morte. Com a crescente legalização do aborto, a pergunta Exatamente quando começa a vida humana? Também
passou a ser de vital importância. Como estamos começando a compreender, as questões sobre o início da vida na
carne e sobre o fim da vida na carne não podem ser decididas no laboratório nem nos tribunal de justiça – só podem
ser resolvidas de comum acordo escolhendo-se um ponto arbitrário no contínuo espaço-tempo, no qual
concordamos em dizer que começa a vida de um ser humano individual, e outro em que decidimos que essa vida
humana termina. Nós nos arrogamos o papel de deuses para julgar vivos e mortos. Do começo ao fim de nossas
discussões, deliberações e decisões a respeito desses problemas, a nossa própria Natureza, como sempre,
permanece em silêncio.

A morte se tornou, cada vez mais, um fenômeno puramente físico, que se verifica num hospital e é tratado
antissepticamente por estranhos de uniformes engomados. Até os aspectos espirituais e emocionais íntimos da
experiência da morte são agora enfrentados por estranhos – solenes personagens de preto que aparecem
misteriosamente à beira do túmulo, dirigindo as atividades de maneira obsequiosa. Concluídas as cerimônias do
sepultamento, os mesmos pássaros pretos são amiúde, os primeiros a cair sobre a família(que mal conhecem) para
dizer que lamentam muito que alguém(que acabaram de conhecer como cadáver) tenha “partido”.

Recentemente já se vê um movimento para uma aceitação emocional da morte e um envolvimento mais pessoal,
assim do moribundo como dos desolados, no trato prático e espiritual com ela. Agora já se revelam os fatos aos
pacientes que estão a pique de morrer. Encorajam-se e ajudam-se as famílias a tratar desses doentes em casa.
Seminários e grupos de discussão oferecem oportunidades às famílias que enfrentam esta experiência a conhecer
outras pessoas em situações semelhantes e partilhar-lhes dos problemas e introvisões.

Agora que, afinal, já se pronuncia em voz alta o nome da Morte, descobrimos que o rosto que ela volta para nós é
menos assustador do que havíamos imaginado. Talvez, um dia, o esqueleto da carta número treze brilhe para nós
com o luminoso fulgor da luz transcendente que ele espargiu sobre gerações passadas.

Depois desse confronto com a carta número treze do tarô, o herói da nossa saga também terá dado um passo
irrevogável naquele rio do qual nenhum viajante retorna à mesma vida que levava antes. À semelhança do sábio, já
não se sentirá à vontade no velho regime. Ter-se-á tornado um estranho para a própria família e para os amigos de
antanho, um exilado na pátria. Mas não lhe é dado retroceder. À maneira do Louco – e à maneira do Sábio – precisa
tomar a estrada novamente, à procura de “outra morte”. Seja-nos permitido agora acompanhá-lo na procura.

DESCRIÇÃO DA SIMBOLOGIA – O Arcano treze simboliza o fator de transformação que destrói para construir.
Figurado pela conhecida alegoria do esqueleto – que aqui maneja uma foice – representa a morte, que,em todos os
domínios, significa o fim de um ciclo e o começo de outro. Tanto o esqueleto como os restos humanos espalhados
no prado são rosados – e não cinzas – para reforçar o caráter de ambigüidade da imagem. Não só para os antigos
como para a ciência moderna, da mesma forma que a vida está intimamente ligada à morte, a morte é o manancial
da vida. O simbolismo é o mesmo que o de Saturno, que poda as árvores para que novos galhos possam crescer. Em
outras palavras, é necessário destruir a forma sem aniquilar o fundamento. O próprio esqueleto simboliza a íntima e
oculta perduração das coisas. A destruição que antecede o rejuvenescimento pode ser associada ao simbolismo do
planeta Plutão – é necessário morrer na escuridão para renascer na luz. A morte é assim a suprema liberação.

REPRESENTAÇÃO ABSTRATA – Transmutação que o ser humano faz, eliminando da sua vida tudo o que é supérfluo e
antiquado, a fim de que possa seguir adiante na sua evolução. Decomposição final de algo determinado e, por isso
integrado numa duração – tempo e ciclo.

NUMERO – É o XIII o número designado a este Arcano. Este número era considerado, no passado, um símbolo de má
fortuna, indicativo de todo tipo de infortúnio. Assim os desenhistas de baralhos medievais deixaram muitas vezes,
em branco, o lugar onde deveria constar o número da carta. Se o doze representa um ciclo completo, a totalidade,
treze simboliza a ruptura desse ciclo para permitir a aparição do desconhecido e, consequentemente, da evolução. É
por isso que o treze tem a ver com a idéia da morte do velho para dar lugar ao novo.

ATRIBUIÇÃO ASTROLÓGICA – Escorpião é o signo atribuído a esta carta. É um signo de água, fixo, regido pelo
impulsivo Marte e o transformador Plutão.

PALAVRAS CHAVE – Espiritualização, liberação, lucidez absoluta de julgamento, ascetismo, desprendimento,


transformação radical, renascimento, novas perspectivas